2 de out. de 2008

Alma Leve Terrorista

Falam da glamourização de um ato vil. Recheiam suas páginas de advertências. As mentes ingênuas não podem sucumbir com a imagem fria de loucos desesperados. A fuga pela destruição. Lenta e contínua. “Qual a beleza da sujeira do mundo?”, perguntam.

Passei a catraca para desembarcar duas paradas à frente. Sem condições de fazer aquela caminhada ingrata depois de ter me empanturrado. Havia comido demais na gigante dos fast-foods, símbolo do império vazio em que vivo. Em meio a muitas crianças mimadas que pareciam selvagens rebeldes entre a multidão, o burburinho me causava náuseas. Pais desfilavam altivos com os filhos atirando todo aquele lixo em suas nucas. Mas enfim, um grande evento merecia uma contribuição. Crianças com câncer oravam por isso. O que mais eu poderia fazer?

Prestígio e lucro para alguns poucos. Esperança para outros tantos. Apenas notas no guardanapo para um bêbado.

“Levante e vá, seu imbecil”, era minha mente ou alguém falara comigo? “Já está na hora de descer”.

Peguei o último cigarro do maço e o enfiei entre os dentes. Os que estavam ao meu redor levaram as mãos ao rosto.

“Maldito fumante e seu vício hostil”, devem ter pensado.

“Arhmud Amed! Todos no chão em nome de Alá! Vou explodir esse ônibus sem tirar o isqueiro do bolso!”, pensei em gritar. Palavras sem sentido para esse povo temente a Deus.

Já era tarde. O ônibus parou. Teria de tocar no isqueiro.

“Você não vê aquela criança te olhando?”, aquela voz, sim, ela vinha de dentro de mim. Fiz um leve aceno com a cabeça. Despertou um tímido sorriso no rosto puro da menina. Quem sabe esta ainda não havia entrado para a inquisição.

Desci num pulo e pus fogo à arma química. O dia estava lindo e por pouco não encontrei minhas virgens. Eles que se explodam.

27 de ago. de 2008

Para amantes de cerveja e literatura

No conto Bola de Sebo, do escritor francês Guy de Maupassant (1850 - 1893) há um personagem distinto dos demais. Chama-se Cornudet, um democrata que em sua apresentação é enquadrado como “o terror das pessoas respeitáveis”. Não que seja uma má pessoa. Não! Pelo contrário, ao longo do texto o escritor nos mostra um homem fiel aos seus ideais revolucionários, um patriota dotado de um espírito generoso, único defensor da protagonista humilhada pela sua nobre profissão. Tudo isso faz parte da arte satírica desse notável escritor, crítico atento às fragilidades humanas e à estupidez dos costumes de uma sociedade.

Uma breve síntese das predileções do autor e ambientação do conto...
Ainda criança, Guy de Maupassant conhece, por intermédio de sua mãe, a obra de Gustave Flaubert, despertando assim seu amor precoce pela literatura. Cresce entre o campo, o mar e a leitura dos grandes clássicos, desfrutando de grande liberdade até ser enviado ao seminário de Yvetot. É nesse período que isola-se de seus colegas e busca seu refúgio literário, alimentando uma antipatia pelos costumes religiosos que perduraria pelo resto de sua vida. No ano de 1870 engaja-se na seção de abastecimento do exército francês, posteriormente devastado pelas forças prussianas. Durante a guerra lê Schopenhauer, escreve poemas de amor e cria um crescente rancor e um desejo de vingança em relação à nação alemã. A invasão prussiana à França está presente em boa parte da vasta obra de Maupassant (são mais de 300 contos publicados).

Voltando ao conto... Em meio à invasão um grupo de dez pessoas toma uma grande carruagem puxada por quatro cavalos para desertarem de uma Paris apinhada de oficiais alemães. Entre os viajantes há três burgueses célebres e suas respectivas esposas “essas seis pessoas representavam, ao fundo da diligência, a ala endinheirada, serena e forte da sociedade, a ‘gente direita’, que tem Religião e Princípios”. Duas freiras vão também, juntamente com Cornudet e Bola de Sebo, a rechonchuda prostituta, “apetitosa e desejada”, bem aos gostos de uma época onde não havia se estabelecido um padrão de beleza forçado e forçoso àqueles seres ávidos pelo bem estar corporal, mas indiferentes a profundas reflexões. Álcool? Imagina, isso desatina a mente de uma pessoa.

“O homem bastante conhecido era Cornudet, o democrata, terror das pessoas respeitáveis. Há vinte anos que embebia sua grande barba ruiva nos chopes de todos os cafés democráticos.”

O texto segue, sua narrativa é envolvente e somos lançados a uma estrada tortuosa, a grande carruagem avança com muita dificuldade em direção ao seu destino, o porto de Havre, ocupado pelo exército francês. A neve dificulta o caminho, mas embeleza a paisagem e nossos pensamentos. A noite fria e a fome obrigam o grupo a parar, assim com a exaustão dos animais. Já instalados em um albergue, supervisionado por um oficial prussiano, o grupo de viajantes ceia logo após um incidente desconhecido que perturbou a “gorda rapariga”. Ela mesmo, Bola de Sebo, carinhoso apelido dado pela altiva sociedade francesa à prostituta protagonista do conto em questão. Segue uma das mais belas descrições que já li sobre a arte de beber.

“Sentaram-se então ao redor de uma alta sopeira, de onde emanava um perfume de couve. Apesar do incidente a ceia foi alegre. A cidra era boa; o casal Loiseau e as freiras serviram-se dela por economia. Os outros pediam vinho; Cornudet reclamou cerveja. Tinha ele um modo particular de abrir a garrafa, de fazer espumar o líquido, de o reverenciar, inclinando o copo, que erguia em seguida entre o lampião e os olhos, para bem apreciar a cor. Quando bebia, a sua grande barba que conservava o matiz de seu líquido amado, parecia tremer de ternura; seus olhos envesgavam para não perder de vista a bebida, e ele tinha o ar de estar preenchendo a única função para qual nascera. Dir-se-ia que estabelecia no espírito uma aproximação e como uma afinidade entre as duas paixões que ocupavam toda a sua vida: a Cerveja e a Revolução: e certamente não podia degustar uma sem pensar na outra.”

Incomparável, bela e sucinta. Não tenho mais o que comentar, só a recomendar, leiam o conto. Ou melhor, só mais um comentário, após ceder completamente à loucura, Maupassant tenta cortar a garganta com uma navalha e é internado por amigos em um manicômio. Perturbações psicológicas e alucinações, decorrentes da sífilis, conviviam há mais de dez anos com o autor. A 6 de julho de 1893 morre, vítima de paralisia geral.

Portanto, beba, enxugue, mas proteja-se. A sífilis pode te enlouquecer.

Mateus Frizzo

Fonte: MAUPASSANT, Guy de. Bola de Sebo e outros contos. Rio de Janeiro: Globo, 1987.

16 de jul. de 2008

Texto em tom publicitário para um clínica estética qualquer

Comecemos com a tão almejada satisfação...
Satisfação, tema confuso e de difícil compreensão. Almejada por todos, alcançada por poucos. “Imagina! Eu sou uma pessoa feliz”, diria a grande maioria. E realmente, não há como dissociar a felicidade de satisfação. Mas seriam os termos sinônimos? Eu posso ser uma pessoa feliz mesmo insatisfeito com diversas situações. “Posso ser feliz até mesmo em meio ao caos”, diriam os extremistas, apaixonados pelo viver. E para esses indivíduos inabaláveis em seu amor pela vida eu pergunto: seriam vocês felizes insatisfeitos consigo mesmo?
Nossa felicidade é construída pelas nossas conquistas, pela convicção em nossos ideais, e por algo fundamental em todas as relações humanas, auto-estima. A lista poderia se estender ao infinito, mas, no meu caso, síntese também é felicidade. Enfim, todo o trabalho, toda luta e todo sucesso obtido são motivos de orgulho para nós. Porém, a plena realização está intimamente ligada ao bem estar. Assim como a insatisfação. Nosso corpo é o reflexo de nossa personalidade e aquelas incômodas imperfeições, atualmente, podem ser corrigidas. Trabalhe sua confiança, molde sua auto-estima e acrescente a suas realizações o bem estar físico.

E é justamente para auxiliar você a atingir esses objetivos que nós, da clínica XXX, trabalhamos. Sempre investindo em sua segurança e satisfação.

OU

Confiem seus belos corpinhos, tonificados por horas incansáveis de malhação (ou não), a nós. Nosso cirurgião, Dr. XXX é um homem bom e garante ações totalmente profissionais, portanto, não se preocupem! Seus corpos são a nossa alegria e o nosso sustento, mas não a nossa diversão.
Pronto, está aí a síntese que tanto me faz feliz.

10 de abr. de 2008


John Lennon, Eric Clapton, Keith Richards e Mitch Mitchell on drums.
Quarteto responsa!

"You're blues John, you're blues John, you're blues."