23 de dez. de 2008

Aos 12 anos

“Feliz natal e um próspero ano novo”, brada o povo pelo mundo em meio à comilança e às bebedeiras típicas dessa época. Copos tilintam em brindes à prosperidade. “A um futuro melhor”, exclama o tio metido a poeta depois do quinto copo de champagne. “O jantar estava incrível”, comenta acariciando a barrigona. A família reunida distribui presentes, todos satisfeitos e cansados após tamanho banquete. As crianças pulam pelos cantos e a algazarra aumenta enquanto a vovó traz a deliciosa sobremesa. Ninguém agüenta mais comer. Mas não há como negar os doces da vovó. São irresistíveis. “É apenas o começo”, diz a terna senhora com um sorriso de madre, “No réveillon vou preparar tortas e bombons para celebrar outra bela união”.

Em meio à cena, ninguém entende o comportamento do jovem Agenor. O guri está chateado, emburrado. Não vê motivos para tanta comemoração. Sente que não consegue aproveitar aquela festa como nos anos anteriores. Uma dor o perturba. Não sabe de onde ela vem. Nem por que ela o deprime. “Será isso a depressão?”, pergunta-se. Seus pais, seus tios, todos naquela casa, a partir daquele momento, adquiriram faces assustadoras.

Aos 12 anos, sabe que esse foi um ano difícil. “Por quê? Tenho tudo que preciso” – murmura entre os dentes – “Sou feliz, não tenho dúvida”. Mesmo assim, pretende que o ano seguinte seja melhor, tem esperança. Mas sua esperança morre cega com aqueles gritos de “Viva”.

Aos 12 anos, pensa que está velho demais. “Qual o motivo para tanta gritaria?”, questiona-se. Na varanda, busca a exclusão. De frente para o mar, seus olhos juntam-se ao horizonte.

Recorda de duas crianças que conheceu em um parque da sua cidade, ou melhor, tentou conhecer. Dois irmãos alegres. Tão longe aquilo parecia naquele momento. Sua mãe não havia deixado com que brincasse com as pobres crianças que, espantosamente, sorriam e dançavam indiferentes aos olhares de reprovação que recebiam. Tinham uma aparência suja e ofendiam-se mutuamente, sem rancor. Aquilo não incomodava Agenor. Alguém que as conhecesse saberia que seus pais também agiam assim. Divertiam-se com um pneu e um pedaço de pau. Eram crianças como ele. Para ele.

Não via graça no pneu. Mas foi bem recebido naquele jogo que desconhecia. Não escondeu sua felicidade em ser aceito. Havia cansado dos videogames e da televisão. A rua sempre o atraiu, mesmo que sempre fosse pouco para alguém tão jovem.

“Entra no carro” – gritou a mãe, depois de um descuido frente a uma vitrine – “Vamos para casa, agora!”.

Aos 12 anos, Agenor descobriu o motivo de sua dor. Junto ao horizonte, seus olhos encontraram os dos meninos. “Será que eles estão festejando o natal?”.

Decidiu fazer uma oração. Enquanto ainda é criança, sabe que não há muito mais o que possa fazer.

Retornou, então, para dentro de casa. Sua família cessou o papo por instantes. Ele sorriu. Tudo voltou ao normal.

Mas uma questão não deixava de martelar em sua consciência, ferida por sua mãe: “Qual o motivo de tanta gritaria?”.



Alfândega





Fotos de Mateus

21 de dez. de 2008

A nau dos condenados


The human race was dyin´ out
No one left to scream and shout
People walkin´ on the moooon
Smog will get you pretty soon

“Caralho”, murmurei enquanto desativava o despertador do meu celular. Acordei atordoado com a música invadindo meus sonhos. Minha escolha. Essa é uma das vantagens do tempo em que vivemos, podemos escolher o som que nos desperta. Optei por algo que me lembrasse, a cada nova manhã, do nosso destino miserável. Jim Morrison estava certo, a humanidade estava mesmo morrendo. Mas a todos restou uma única chance, um bilhete de embarque para a imensa nau tomada por tolos e desesperados. Há tempos entrei. Tomei um lugar privilegiado à força de um maldito doutor que me olhava desconfiado. Aquele filho da puta. Agora contemplo, inatingível, toda extensão em minha frente. Imóvel como os outros tripulantes. Impotente frente ao mar de mentiras em que navegamos.

Mas somos todos felizes. Cantos alegres embalam nosso eterno percurso. Não temos para onde fugir. Esse é o maior consolo e o motivo pelo qual continuamos em frente a um vazio infinito. Aquele é nosso refúgio. Inevitável. Por mais que o mar revolte-se contra nós, a maioria irá resistir. Alguns tombam. Outros se fortalecem. Mas o oceano continuará levando nossos ilustres tripulantes. Há como sobreviver em alto mar. Sim, o sucesso encontra-se lá, assim como muitas outras coisas que despertam a ambição de meus companheiros. Em momentos de calmaria decido nadar um pouco. Algumas braçadas sem direção exata. Apenas por prazer. Sinto-me bem fazendo isso. A grande nau torna-se cansativa às vezes. Mas sempre decido voltar a ela. Nunca procurei por nada. Muito menos encontrei. Mas quem sabe algum dia ache alguma coisa. Em meio àquilo? Daí sim eu estaria mesmo fodido.

Minha cabeça latejava e meu cérebro contorcia-se, gritando por alívio. A garrafa de rum, vazia ao lado, lembrou-me que eu era um marinheiro cansado daquela viagem ingrata. Levantei. Vestia apenas uma cueca velha, muito confortável por sinal. Ótima para dormir. Decidi que não iria trabalhar. O dia não estava bom para um mergulho e todo meu corpo doía.

- Alô, Claudia. Não estou me sentindo muito bem. Acho que foi uma pizza que comi ontem à noite. Passei a madrugada sentado no vaso. É, isso, não estou me sentindo bem. Pode ser uma intoxicação alimentar. Vou ao hospital tomar um soro na veia. Pode ser que assim eu melhore.

- Da onde que tu chamaste a pizza?

- De um tal de Didi Lanches. Era a maior e mais barata. Tava bem boa. Acho que foi esse o problema. Comi demais.

- Está bem. Amanhã a gente conversa. Melhoras.

- Obrigado.

Uma boa mulher, a Claudia. Um tanto estressada, isso sim. Mas mesmo assim uma boa mulher.


11 de nov. de 2008

Roubaram a beleza de nossa velhice

O ser humano está cada vez mais vinculado a soluções imediatas. Acostumados com uma gama muito maior de recursos para resolvermos nossos problemas, é estranho que ainda estejamos descontentes com as pequenas imperfeições impostas pela vida. É duro, a rotina impõe seu ritmo. E assim, na correria, acabamos esquecendo muitas vezes da precaução. Mas, paciência... “Não temos com que nos preocupar” – dizem os mais acomodados - “A tecnologia está a nosso serviço em boa parte das práticas diárias”. A idéia básica atual, o instantâneo a serviço da satisfação.

A revista Veja trouxe recentemente estampado em sua capa: “BELEZA – A perfeição é possível. Mas é desejável?”. Perfeição? Desejável ou não, o que seria isso? A matéria traz uma análise do conceito, estudos sobre simetria facial, tudo pontuado pela opinião de dez cirurgiões plásticos acostumados à insatisfação dos pacientes e seus ideais de beleza. Esse é o ponto em questão. Oito páginas tratam, destratam e discutem o belo. Em nenhuma delas aparece a palavra alimentação como uma das bases de tal conceito. Nem mesmo expressões como “cuidados diários” e “prática de exercícios” constam para nota. Quer dizer que a perfeição discutida está ligada essencialmente à estética e não à saúde? E a beleza? Não é algo subjetivo? Bom, parece que agora é algo estabelecido e delimitado.

Ora, é óbvio que aquele meu nariz adunco não adquirirá um formato fino e elegante se eu mantiver uma dieta balanceada. Minhas orelhas de abano também não se tornarão graciosas caso eu troque o refrigerante pelo suco natural. Mas não há mais como negar os benefícios que uma alimentação saudável traz ao bem estar e à vida como um todo. Tratamentos estéticos deveriam servir apenas como acessório. No caso de profundo desagrado com certa característica física há a possibilidade de correção e aperfeiçoamento. Um recurso útil, mas não essencial como tem se mostrado. Essa noção está desvirtuada. Culpa desse imediatismo aparentemente insuperável.

Olhemos por outro lado. Como você obteria esse padrão imposto e tão almejado longe de uma mesa cirúrgica? Para evitar o envelhecimento precoce da pele, por exemplo, sabe-se que uma alimentação rica em alimentos que diminuam a produção de radicais livres é indicada. E o que é uma dieta equilibrada? Uma dieta equilibrada deve fornecer as quantidades adequadas de calorias e de nutrientes para não causar déficit de proteínas, vitaminas, minerais e gorduras. Fatores como sedentarismo, tabagismo, má alimentação e alcoolismo contribuem muito para o surgimento dos sinais do tempo, como rugas e flacidez. É muito difícil termos uma vida regrada em meio à loucura cotidiana. Mas nunca foi fácil. Dedicação costuma, ainda hoje, e talvez cada vez mais, ser sinal de trabalho duro e disciplina. Há também uma relativização e uma padronização absurda da beleza. Posso ser belo com meus “defeitos” físicos.

O envelhecimento é um processo natural do organismo. Todos estão sujeitos a isso, assim como às imperfeições. Por que tanta preocupação em se parecer mais jovem enquanto ficamos mais velhos então? Acho que todos têm a resposta. Não é mais questão de bem estar. Nem de saúde. É um mal social evoluído e estabelecido. Um fenômeno midiático que veio e ficou. Ingrato. Roubou a beleza de nossa velhice.

* Texto publicado no site da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo -RS. Não condiz com o perfil do autor, que não serve de exemplo a ninguém. Bebe, fuma, toca gaita e ainda quer falar de saúde. Mas algo verdadeiro se esconde atrás de suas palavras.