Em meio à cena, ninguém entende o comportamento do jovem Agenor. O guri está chateado, emburrado. Não vê motivos para tanta comemoração. Sente que não consegue aproveitar aquela festa como nos anos anteriores. Uma dor o perturba. Não sabe de onde ela vem. Nem por que ela o deprime. “Será isso a depressão?”, pergunta-se. Seus pais, seus tios, todos naquela casa, a partir daquele momento, adquiriram faces assustadoras.
Aos 12 anos, sabe que esse foi um ano difícil. “Por quê? Tenho tudo que preciso” – murmura entre os dentes – “Sou feliz, não tenho dúvida”. Mesmo assim, pretende que o ano seguinte seja melhor, tem esperança. Mas sua esperança morre cega com aqueles gritos de “Viva”.
Aos 12 anos, pensa que está velho demais. “Qual o motivo para tanta gritaria?”, questiona-se. Na varanda, busca a exclusão. De frente para o mar, seus olhos juntam-se ao horizonte.
Recorda de duas crianças que conheceu em um parque da sua cidade, ou melhor, tentou conhecer. Dois irmãos alegres. Tão longe aquilo parecia naquele momento. Sua mãe não havia deixado com que brincasse com as pobres crianças que, espantosamente, sorriam e dançavam indiferentes aos olhares de reprovação que recebiam. Tinham uma aparência suja e ofendiam-se mutuamente, sem rancor. Aquilo não incomodava Agenor. Alguém que as conhecesse saberia que seus pais também agiam assim. Divertiam-se com um pneu e um pedaço de pau. Eram crianças como ele. Para ele.
Não via graça no pneu. Mas foi bem recebido naquele jogo que desconhecia. Não escondeu sua felicidade em ser aceito. Havia cansado dos videogames e da televisão. A rua sempre o atraiu, mesmo que sempre fosse pouco para alguém tão jovem.
“Entra no carro” – gritou a mãe, depois de um descuido frente a uma vitrine – “Vamos para casa, agora!”.
Aos 12 anos, Agenor descobriu o motivo de sua dor. Junto ao horizonte, seus olhos encontraram os dos meninos. “Será que eles estão festejando o natal?”.
Decidiu fazer uma oração. Enquanto ainda é criança, sabe que não há muito mais o que possa fazer.
Retornou, então, para dentro de casa. Sua família cessou o papo por instantes. Ele sorriu. Tudo voltou ao normal.
Mas uma questão não deixava de martelar em sua consciência, ferida por sua mãe: “Qual o motivo de tanta gritaria?”.




