19 de mai. de 2009

Além das grades da PUCRS

De um lado uma bela canção chamava ao boteco. Do outro um barulho estridente, muito irritante, convidava a prestigiar uma aula ingrata de técnicas digitais.
“E agora,o que faço?”

Nem os sábios encontrariam resposta a tão dura questão. Sem ao menos questionar tal decisão,
fui para o bar.

Escapando dos carros que cortavam as duas faixas daquela avenida escura consegui chegar ao local. Logo na entrada o velho relógio na parede indicava algo em torno das 18h30, 19h, não sei bem. “Um bom horário”, pensei. Àquelas horas, numa sexta-feira em que o sol ardeu,
nada cairia melhor que uma cerveja.


Enquanto aumenta o fluxo nas dependências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, por volta das 19h, muitos correm em direção aos seus devidos destinos dentro da instituição, já outros vão contra a corrente e seguem o rumo do bar. De segunda a sexta a marcha se repete, seja para escapar da ingratidão de algumas aulas ou para tomar “uminha” antes de encará-las.

Usando como referência a porta dos fundos da universidade, atravessando a longa avenida de nome Bento Gonçalves é onde se esconde o principal refúgio dos malucos de todas as estirpes que frequentam o campus, jovens com as mais variadas preferências, que vão do samba ao heavy metal, de Neruda a Bukowski, da manga rosa ao milho verde. “Os guris são meio loucos, mas eu adoro eles”, afirma dona Ivone Almeida, 68 anos, funcionária daquele local de aspecto acanhado, pouco convidativo e, para os poucos que não interessam, até mesmo assustador. A entrada simples agora ganhou requinte, um letreiro imponente traz estampado em letras enormes: BAR E LANCHERIA DURUSSO.

“Faaala grande!”, antecipa-se Teodoro Klovan por trás de seus óculos, o verdadeiro poeta, o dono do bar. Aos 65 anos, Teodoro, ou simplesmente Russo, conta, a quem quiser ouvir, suas histórias. “Aqui podemos conversar sobre tudo, sem preconceitos, e melhor, em alto nível”, diz ele. Muitos questionam a razão de seu apelido, mas poucos sabem o que realmente aconteceu, ele próprio esclarece em tom de escárnio, “Na verdade, vim da Rússia no saco do meu pai”.

Há cerca de 8 anos, após um longo período trabalhando como alfaiate (garante que seus serviços eram muito solicitados desde a alta cúpula do governo até as grandes rodas intelectuais da época) e de uma aventura como revendedor de carros, Russo cansou de tal vida. “Pensei, quer saber? Vou me aposentar e trabalhar com a gurizada”, declara com um largo sorriso no rosto contornado pela barba branca, muito bem aparada por sinal. Nasceu aí o “barrr”, palavra sempre alongada pela sua firme pronúncia, que não esconde todo orgulho e satisfação de estar atrás de um balcão.

Os mais íntimos, “os da casa”, tem acesso privilegiado às dependências do local, dispensam formalidades e logo atalham pela cozinha para chegarem aos fundos. É lá onde fica o ambiente mais informal, na falta de melhor definição. Ou melhor, não um único ambiente, mas um conjunto de espaços que forma o todo externo do bar. Um grande espaço junto a uma pequena sala, em resumo. Para não deixar sujeito ao sereno, a prévia cobertura da área concede aos clientes e à churrasqueira tranquilidade, sossego e conforto, em casos de temporais e demais fenômenos da natureza. Dentro da sala, em meio à algazarra de vozes e violões, as paredes quietas, todas pintadas, rabiscadas, expressam o perfil dos frequentadores. A miscelânea completa exige atenção para a boa compreensão. Dentre tantos desenhos pouco usuais e transcrições de grandes máximas, uma frase se destaca: “Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria”, William Blake. Ao lado desta, figura uma preciosa reflexão de Homer Simpson, “O alcool é a causa e a solução de todos os problemas”. Belas palavras. Um sábio pensador sem noção.

Durante os horários de aula o bar perde um pouco de seu plantel. Alunos responsáveis vão e vem por lá, a grande maioria de cursos relativos às ciências humanas e comunicação. Mas a fé no mundo se deita em grandes heróis que permanecem para segurar a tocha, não desistem e pedem uma a mais. Dos bêbados clássicos, fortes guerreiros agarrados no copo, não se pode falar. Críticas? Não nos cabe. Resta conferir. Basta aplaudir.

“Vou sentir saudade daqui, os guris me falam coisas bonitas, me beijam, me abraçam e até me dão uns copos de cerveja”, confessa dona Ivone, “tenho que sair porque vocês podem fumar o que quiser, mas eu, com essa idade, já não posso mais ficar nesse meio”. Completa com uma gargalhada, “Foi meu médico que advertiu”.

São poucas certezas as que norteiam a vida, mas certo é que, quando esse dia chegar, todos também sentirão falta da irrequieta figura de dona Ivone.

20 de abr. de 2009

O verdadeiro poeta

Levante os pés
pra mim limpar,
disse-me o dono do bar.
E sua vassoura tremulou.

Deixe meus restos,
lhe respondi.
Ainda os recolherei
juntando ao pouco que me restará.

Pouco tens
se o que te sobra
são apenas versos
ordinários como esse,

respondeu.

E a ti o que restas?,
retruquei.
Um sorriso largo
mais um tanto de audácia?

Ora, aqui, nem conversa,
alegou.
Só faço hora
até o fim da noite.

Em confronto falou,
chatos como tu
consomem
o pouco que ainda tenho.

Seu sorriso foi
enquanto a mesa se desfez.
A cena nada durou,
um breve instante se passou.

Quando caí
depois da oitava dose
foi um único tapa
que me despertou.

Vamos lá, bote pra fora,
ouvi aos berros.
Vomite suas asneiras!
Porra, a essa hora!

Me resta ainda o lixo que os poetas deixam.

Devia ter filhos
e mulher
e muitos chatos
como eu, para suportar,

pensei.

Levantei.
Agradeci.
Me desculpei.
E caí pela saída.

Aquele era um cara que sabia das coisas.

30 de mar. de 2009

Uma vagal sugestão

Suando sob o sol de 37 graus,
sozinho e sem saúde,
pensei em suicídio.
E sucumbi ao torpor suave
que precede a dor.

Foi quando num sonho
um velho sábio, sutil me disse:
“Sossega e segura
o teu desespero.

Escute um conselho, uma sugestão:

Sessenta minutos de sesta
de segunda a sexta,
é esse o segredo
da sobrevivência.”

Assenti sem saber
se o que vi era um santo
ou se de santo
só tinha o encanto.

Desde então meu sono pós-rango é tranquilo.
Mas quem foi que me disse aquilo?
Satanás, pode ser.
Como vou saber?

Só sei que, hoje,
sereno suporto,
sorrindo sem situação,
sacrifícios sem sofrer.

Suponho ser feliz.

21 de jan. de 2009

Balanço final de uma era sem fim


Trabalhar para esse sistema é perder a alma. Não, obrigado! Que proveito tira o homem que ganha o mundo todo e perde sua própria alma?


John Fante

Queria eu, nesse último dia de trabalho, escrever sobre alguma coisa pertinente. Mas nada guardo além do conhecimento técnico que, provavelmente, poderia ter adquirido em casa entre uma cagada e outra. O dinheiro nos submete a tantas coisas. Uma mísera quantia nos faz perder um pedaço da alma. “Por quê?” – é bem provável que tenha me perguntado aos 14, 15 ou 16 anos.

Passei mais de oito meses nesse escritório, localizado num centro comercial tomado por advogados pedantes e magnatas ranzinzas. Garanto que tive alguns dias bons. Outros meramente válidos. Mas, na grande maioria, minha jornada diária de seis horas em frente ao computador não me fez muito bem. Esse é o saldo final: um lamento desgostoso. Escrevi sobre moda e comportamento. Eu, um largado alheio a qualquer onda de consumo ou tendência absurda. Planejei textos institucionais metendo mentiras entre aspas e dedicando-as a um cirurgião plástico canastrão, ou a um dentista, ou a qualquer outro que não sabia definir seu exercício e recorria a nossa agência.

Passei a acreditar na mentira que minhas próprias palavras podiam dizer. Antes, me julgava um homem repleto de princípios e ideais. Nunca pretendi iludir ninguém, mas, duvido muito, que ao longo desse tempo não o tenha feito. Evitei, sempre, mas tudo que produzi passou sempre por uma edição que acabava por distorcer a essência almejada. Pior ainda assim, atuei no escuro, pelo bastidor escroto da propaganda. Não vou generalizar, devo ter rasgado elogios verdadeiros a algum médico estúpido só por admirar o seu currículo. Espero me redimir com esse desabafo. Mas todos sabemos que não será dessa forma.

Fiz bons amigos, alguns verdadeiros, como o compadre Raoni. Dei boas risadas com meu chefe, um figurão sem coração que certamente acredita que só patrimônio constrói amor verdadeiro. Falava com propriedade sobre tudo, meu chefe. Vai ver em algo ele estava certo. Hoje saio, sem dinheiro, sem futuro, mas com algumas certezas. Uma, o planejamento em comunicação é uma farsa, mas uma boa alternativa de renda para aqueles que não acreditam em um mundo justo. Outra, a internet é um meio frio e desvirtua mentes criativas. Indico humildemente o amor aos livros, a exposição restrita revela uma verdade mais sincera, já que a absoluta é um mito. Ah, mais uma, e por ora a última, constatei consternado que palavras são ótimas mercadorias. Isso é triste.

As melhores lembranças que guardarei serão da sacada, onde, junto com uma colega minha maluca, fumei tantos cigarros que acabei preenchendo com fumaça o tamanho vazio desse ambiente sórdido. Até algumas flores surgiram espontâneas para contemplar aquele espetáculo bizarro. Preferiram crescer em meio ao tabaco que ao adubo expelido pelas janelas.

Sigo agora o conselho de um dos meus maiores ídolos literários, Gabriel Garcia Marquez, viverei da forma certa, cantando à noite e dormindo de dia. Questão de tempo para voltar à merda. Basta uma oferta melhor. Pelo menos admito a falta de escrúpulos da vida. Todos precisam bem viver. Ainda me mando pro meio do mato em busca da redenção. Enquanto isso...

It’s all business my friend.