Era dia santo, dia de Santo Antônio. Para Norberto, 45 anos, divorciado, era mais um dia triste de sua existência. Nada mais. Andava pelas ruas a caminho de casa. Mais uma noite havia passado longe do seu lar por conta das tentações da boemia há pouco adquirida. A satisfação obtida horas atrás já estava perdida. Cada passo que o aproximava de seu rumo doía-lhe os ossos, a carne, a alma que acreditava ter. Tornara-se um peso para si próprio.
Não passava das dez da manhã quando acordou ao lado de uma desconhecida. Sem despedir-se, vestiu as calças e saiu devagar. Torcia por não deixar nenhum vestígio. Seu passo era lento, difícil, agravado pelas dores abdominais que há meses, recorrentemente, o acometiam. De um dia pro outro, quando tudo parecia bem, surgiram essas dores. Atingiram-lhe como lanças em chamas ao perfurar um grande animal. Era grande, Norberto, um metro e noventa pra mais. Era também um animal, Norberto, como todos nós, apenas tentava disfarçar seu instinto, como todos nós. Ou quase todos.
Na época em que as dores surgiram ainda estava casado com Irene. Acreditava no amor mútuo que juras e mais juras tornaram reais. A relação dos dois era o balanço perfeito entre carinho e pudor. Beijinhos e carícias leves em público, sempre. Sexo bom, usual, sem sacanagem. Apenas “amor”. Nunca se ofendiam, jamais levantavam a voz um para o outro e a privacidade ao banheiro sempre foi respeitada. Ele até urinava na frente da mulher, não se importava. Mas ela não. Mantia-se recatada, uma lady.
Foi ela quem recomendou a consulta ao então marido.
- Irene, sabes que não gosto de médicos – argumentou Norberto contrariado.
Irene pôs a mão em seu ombro e disse de forma sutil:
- Mas amor, a clínica do dr. Gustavo é reconhecidíssima. A Mara, sabe a Mara? Pois é, a Mara disse que ele nem precisou de exames pra identificar do que ela sofria. Uma doença horrível. Logo sarou.
- Que doença?
- Não sei bem, mas parece que peidava o dia inteiro. Credo!
O diagnóstico foi tão preciso quanto vexatório quando constataram que seu problema era, como o de Mara, de ordem digestória: flatulência. Receitaram, então, comprimidos que aliviariam sua angústia e lhe garantiriam o sossego e o bem estar.
- Não gosto de tomar remédios, doutor – disse ao médico durante a derradeira consulta – na verdade, não os suporto.
- Pois então aprenda a viver com essas dores, que bem sei, por relatos, é claro, ser insuportável – falou o médico.
- Por quanto tempo terei que tomá-los?
- Sempre que necessário - respondeu dr. Gustavo com um sorriso frio, cobrindo Norberto de vergonha.
Saiu do consultório arrasado. Como iria contar isso a sua esposa? Ela ficaria enojada. Largaria dele. Recatada como era nem discutiria o assunto, inventaria motivos outros para justificar sua decisão.
E assim foi. Irene mostrou-se compreensiva no início.
- O que é isso, Norberto? Claro que não me incomodo. Como você poderia prever isto?
- Ora, mas a Mara...
- Deixa disso Norberto – retrucou Irene – tome seus remédios e tudo logo se resolverá.
- Remédios, remédios... Como viviam os ancestrais sem remédios? – murmurou.
- Quê? – questionou Irene irritada pela postura de Norberto e pela notícia. Era notória sua exaltação. Mostrou-se solidária por educação, mas sabia que não suportaria a situação por muito tempo.
- Nada, Irene. Nada.
Dois meses depois, ela o largou. Pela primeira vez desde que estavam juntos invadiu o banheiro. A um Norberto desolado, sentado no vaso com as mãos segurando o queixo, disse:
- Que fedor! Não suporto mais dormir ao teu lado, Norberto. É impossível. Impossível! – declarou. Bateu a porta e repetiu indignada:
- Que fedor, meu Deus do céu!
Não quis nem divisão de bens, brigar pela casa, essas coisas. O carro era dela. Ele que se virasse. Juntou as roupas em uma mala grande, socou pilhas de sapatos dentro de um baú e sumiu.
Norberto ficou na merda. Após a separação, entregou-se a bebida. Acostumara-se àquela vida de restrições. Irene o educara, tornara-o um homem direito, supunha. Seis anos passaram juntos. Seis anos. “Por que isso foi acontecer comigo?”, perguntava-se em meio a intermitentes goles.
O remédio dava conta das dores, mas, mesmo ao lado de Irene, estipulara uma dose: um comprimido por dia, assim que o primeiro desconforto se manifestasse. O efeito não durava muito, apenas algumas horas. A compostura, adquirida no casamento, disfarçava sua angústia no resto do tempo. Passava os dias combatendo quieto seu sofrimento. Se estava em local público, no trabalho ou qualquer ambiente que não sua casa, recolhia-se a um banheiro quando não suportava. Aí peidava. Tentava fazer com que saísse silencioso para que outros não ouvissem os lamentos de seu fardo recente. Suava, respirava fundo, até liberar todos os gases.
Solteiro também vivia assim. Era só cair na noite, beber umas a mais, comer demais, que a dor voltava. E o atormentava. Havia dias em que tudo parecia como antes. Era estranho pensar, há menos de seis meses tudo parecia bem. Pressão, normal. Triglicerídeos, glicose, colesterol, tudo bem dosado em seu organismo. Nem hemorróidas tinha. E olha que conhecia uma porção de gente que sofria com isso. Ele não. Comia e bebia como um rei. O exagero à mesa não o incomodava, pelo contrário, satisfazia. Sozinho, passou a desprezar ainda mais os conselhos médicos. Seu mal já o privara da mulher mais pura que encontrara. Dos prazeres da boa culinária e do alento de um bom trago ninguém o iria proibir.
Pensava com raiva em Irene naquela manhã do dia de Santo Antônio. Àquela altura atravessava uma ruela estreita, apinhada pelos freqüentadores dos tantos restaurantes instalados por lá. Desiludido, cansado dos olhares de reprovação dos que cruzavam com ele pela rua, resolveu se libertar. Estava sujo. Há dias não tomava banho. Com a barba cobrindo o rosto, um hálito de morte e o passo pesado, peidou pela primeira vez em público desde que descobrira seu problema.
Foi um alívio. O primeiro flato foi ruidoso, demorado, saciou seus desejos reprimidos. Saiu quente e infestou os arredores com o cheiro de cárcere que lhe cabia. Norberto não mais sentia vergonha. Os olhares de desgosto aumentaram. Alguns riam, mas a maioria afastava-se como podia do homem insensato que ousou esculhambar em ambiente tão familiar.
Foi a sucessão de atos que tornou a cena comovente. Norberto sujo, com roupas velhas, barba já longa, cabelos escassos e desgrenhados, peidava e sorria. Peidava e pouco se lixava para a opinião do povo limpo que o cercava. Peidava e aos poucos adquiria outra postura. A dor que lhe curvara as costas fora embora. Podia de novo andar altivo. Decidiu ir para casa tomar um banho. “Fodam-se os outros”, pensou. “Posso ser um novo homem”. O intervalo entre um peido e outro era curto. Cinco passos, pouco mais, e vinha um novo.
- Velho nojento – soou uma voz estridente às costas de Norberto.
Virou-se incomodado e deparou-se com um grupo de meninas, todas muito asseadas, bem penteadas, metidas em roupas de grife; impecáveis. Três bonecas pareciam, duas loiras e uma morena. Não deviam ter mais do que 18 anos.
Como um cachorro, Norberto rosnou para elas.
O grupinho explodiu em risos. Empolgada, outra das jovens exclamou:
- Velho asqueroso!
Norberto mandou-as às favas e seguiu seu rumo. Era um novo homem. Só precisava de um banho.
Quadras distantes do local das ofensas, aproximava-se de seu lar. Um lugar calmo, afastado dos ruídos do trânsito e do burburinho da cidade.
“Velho nojento, velho asqueroso, velho nojento, asqueroso”, as palavras martelavam sua mente.
Abriu a porta de casa e sussurrou entre os dentes:
- Quem aquelas putinhas pensam que são... Velho nojento...
Jogou as chaves no aparador ao lado da porta e deixou-se cair na poltrona que herdara de seu avô. Ali permaneceu por horas, divagando nos acontecimentos daquela manhã. Pensou mais uma vez em Irene. Tentou lembrar como fora parar na casa daquela desconhecida, onde acordou. Mas as faces de escárnio das jovens meninas sempre se sobrepunham aos demais pensamentos. Esqueceu do banho, dos planos de redenção, e adormeceu.
Dormiu sentado 24 horas ininterruptas. Quando acordou as dores haviam sumido. Foi ao banheiro. Tentou ir aos pés. Abriu o jornal na página policial e permaneceu sentado no vaso por cerca de cinco minutos. Nem um peido. Estranho. Olhou o frasco de compridos cheio em cima da pia. Estava curado, só podia, estava curado. Não sorriu nem se perdeu em êxtase pela constatação prematura. Sentia-se mal.
Levantou-se, levantou as calças até o umbigo. Mesmo sem dejetos puxou a descarga. Olhou-se no espelho, analisou as marcas em seu rosto e começou a chorar. Nunca antes havia reparado nas pequenas rugas ao lado dos olhos que a imagem refletida lhe mostrava. Nem na leve papada debaixo do queixo. O cabelo ralo, já grisalho, tudo isso agora o incomodava.
Entre lágrimas fez a barba, tomou banho. Vestiu-se e voltou à poltrona, decidido. Abriu a lista telefônica. Nas páginas amarelas procurou ajuda. Logo achou o que queria. Discou. Enquanto não atendiam, apressou-se em pegar lápis e papel para anotar os preços que viriam.
Uma voz gentil e delicada anunciou:
- Clínica estética dr. Jairo Kentler, em que posso ajudar?
10 de fev. de 2010
8 de fev. de 2010
Unhas de porcelana
Cravadas nos dedos,
cobrindo feridas,
não escondem as chagas
da tua aflição.
As carnes corroídas sangram
por tantos problemas
marcados no peito
por causas pequenas.
Pela manhã confias
em tramas maiores;
à noite te deitas
sujeita a menores.
Falando do bem que quer
perdeste tua pouca graça;
te vejo esquecida, escorraçada,
de boca num banco de praça.
Do nada que restava
agora tudo se foi -
até o riso é frouxo,
aflito, rasgado.
Do mantra o lamento
calado, constante,
ressoa a agonia
por fiel namorado.
Pobre menina!
São os homens
a causa maior
de todo o teu mal.
Esperas demais
mas pouco ofereces
te perdes em preces
e esqueces o essencial.
Sua sina é ser puta
chamada piranha,
por mais que confundas
gozar com amor.
Unhas como essas, compreenda,
não escondem a loucura.
Sacie-se na dor dos outros, quem sabe,
ganharias mais.
Não escute meus conselhos, esteja certa,
são mudos e cegam-te o ser.
Chore mais uma vez,
minha querida,
àqueles que nego
reservo refúgio.
Não clame, não reze,
apenas aguarde,
por mais que ele tarde
o infinito o trará.
Chore mais uma vez,
minha querida,
por mais que ele tarde
um novo dia ainda virá.
cobrindo feridas,
não escondem as chagas
da tua aflição.
As carnes corroídas sangram
por tantos problemas
marcados no peito
por causas pequenas.
Pela manhã confias
em tramas maiores;
à noite te deitas
sujeita a menores.
Falando do bem que quer
perdeste tua pouca graça;
te vejo esquecida, escorraçada,
de boca num banco de praça.
Do nada que restava
agora tudo se foi -
até o riso é frouxo,
aflito, rasgado.
Do mantra o lamento
calado, constante,
ressoa a agonia
por fiel namorado.
Pobre menina!
São os homens
a causa maior
de todo o teu mal.
Esperas demais
mas pouco ofereces
te perdes em preces
e esqueces o essencial.
Sua sina é ser puta
chamada piranha,
por mais que confundas
gozar com amor.
Unhas como essas, compreenda,
não escondem a loucura.
Sacie-se na dor dos outros, quem sabe,
ganharias mais.
Não escute meus conselhos, esteja certa,
são mudos e cegam-te o ser.
Chore mais uma vez,
minha querida,
àqueles que nego
reservo refúgio.
Não clame, não reze,
apenas aguarde,
por mais que ele tarde
o infinito o trará.
Chore mais uma vez,
minha querida,
por mais que ele tarde
um novo dia ainda virá.
22 de jan. de 2010
Compreensão
Lembro-me dos elogios,
alguns fracos, batidos,
todos de boa intenção;
claros na luz escura
exata à ilusão.
Toquei em sua pele,
palavras não leu,
dizia-se tímida, descrente,
talvez indisposta,
avessa à paixão.
- Não a culpo, sabes?
- Por quê?
- POR QUÊ?
Como digo: nada espero,
basta acontecer.
Vez ou outra anseio,
não escondo, sempre repito:
“A doce verdade
é simples viver”.
Nem tão sério,
um pouco triste,
faminto de sonhos,
caído de bruços
de olhos atentos,
exposto sempre.
- Venha aqui ouvir! Não me ignores!
Traga-me a vida,
dispenses a morte,
faça-me crer.
Venha e vá
mas não deixe
sozinhas, reclusas...
As dores do amor
de agora,
As luzes de outro
capaz outrora.
Talvez seja o tal, não é?
O último alento ao temor.
Vive-se só,
diz o contrário proposto.
Morre-se junto,
mostra o desejo oposto.
- Está bem.
Esqueça as graças, está bem?
Sim, foram todas sinceras,
mas cala-te agora,
não diga que não
só beije meu rosto,
deixe-me o coração.
alguns fracos, batidos,
todos de boa intenção;
claros na luz escura
exata à ilusão.
Toquei em sua pele,
palavras não leu,
dizia-se tímida, descrente,
talvez indisposta,
avessa à paixão.
- Não a culpo, sabes?
- Por quê?
- POR QUÊ?
Como digo: nada espero,
basta acontecer.
Vez ou outra anseio,
não escondo, sempre repito:
“A doce verdade
é simples viver”.
Nem tão sério,
um pouco triste,
faminto de sonhos,
caído de bruços
de olhos atentos,
exposto sempre.
- Venha aqui ouvir! Não me ignores!
Traga-me a vida,
dispenses a morte,
faça-me crer.
Venha e vá
mas não deixe
sozinhas, reclusas...
As dores do amor
de agora,
As luzes de outro
capaz outrora.
Talvez seja o tal, não é?
O último alento ao temor.
Vive-se só,
diz o contrário proposto.
Morre-se junto,
mostra o desejo oposto.
- Está bem.
Esqueça as graças, está bem?
Sim, foram todas sinceras,
mas cala-te agora,
não diga que não
só beije meu rosto,
deixe-me o coração.
9 de jan. de 2010
Notas de um fim de tarde
A vida ainda há de me tirar esses prazeres.
Enquanto jovem, consigo largar tudo com uma mochila nas costas, carregada apenas com livros - alguns poucos – uma ou duas cuecas e um par de meias. Quando tenho tempo, e ele está aí, à disposição, tenho também ânsia de chegar a qualquer destino.
Quando velho, precisarei de uma bolsa de remédios entre meus trapos. Agasalhos para que o sereno não constipe e até mesmo um travesseiro para o cansaço das costas. A velhice parece longe com o sol a iluminar o copo, às duas da tarde de um dia quente. A cerveja, hoje companheira do aguardo, dará lugar ao chá, ou àquele tônico azulado que vi um senhor de aspecto surrado sugar. Se eu seguir nesse ritmo, talvez até a um coquetel dito necessário à minha sobrevivência.
Imagine só, do alto do orgulho do homem em sua plena forma ao fundo escuro do fim do viver.
Viver de satisfações passageiras é uma escolha feita consciente das inverdades da vida. É um voto. Uma crença. Cega, mas ainda fixa. Sendo feliz, mesmo em meus lamentos, não vejo outra forma. Morrerei de porre ouvindo o cantar do último bar. O tempo, e sua inadiável conseqüência, não irá no âmago transformar um ser apaixonado como eu.
Viveria só por este momento. Só por saber da existência do dia de amanhã. Da apreensão pelo que virá. Dos tantos rostos, tristes e realizados, com os quais ainda cruzarei.
Entre planos e ambições difusas, mais um fim de tarde espero, sentado no mesmo banco de tantas outras vezes, o trem que parte rumo à liberdade.
Já passava das sete quando resolvi sair do bar da estação. Pedi a última.
Ao me redor todos os tipos de loucos mantinham a mesma esperança: escutar ao longe o silvo surdo que nunca vinha. Outros apenas sorriam. Desvairados. Ao fim daquela “última”, baixei mais uma e esclareci ao sair de vez:
“Não é hoje que a gente parte”.
Enquanto jovem, consigo largar tudo com uma mochila nas costas, carregada apenas com livros - alguns poucos – uma ou duas cuecas e um par de meias. Quando tenho tempo, e ele está aí, à disposição, tenho também ânsia de chegar a qualquer destino.
Quando velho, precisarei de uma bolsa de remédios entre meus trapos. Agasalhos para que o sereno não constipe e até mesmo um travesseiro para o cansaço das costas. A velhice parece longe com o sol a iluminar o copo, às duas da tarde de um dia quente. A cerveja, hoje companheira do aguardo, dará lugar ao chá, ou àquele tônico azulado que vi um senhor de aspecto surrado sugar. Se eu seguir nesse ritmo, talvez até a um coquetel dito necessário à minha sobrevivência.
Imagine só, do alto do orgulho do homem em sua plena forma ao fundo escuro do fim do viver.
Viver de satisfações passageiras é uma escolha feita consciente das inverdades da vida. É um voto. Uma crença. Cega, mas ainda fixa. Sendo feliz, mesmo em meus lamentos, não vejo outra forma. Morrerei de porre ouvindo o cantar do último bar. O tempo, e sua inadiável conseqüência, não irá no âmago transformar um ser apaixonado como eu.
Viveria só por este momento. Só por saber da existência do dia de amanhã. Da apreensão pelo que virá. Dos tantos rostos, tristes e realizados, com os quais ainda cruzarei.
Entre planos e ambições difusas, mais um fim de tarde espero, sentado no mesmo banco de tantas outras vezes, o trem que parte rumo à liberdade.
Já passava das sete quando resolvi sair do bar da estação. Pedi a última.
Ao me redor todos os tipos de loucos mantinham a mesma esperança: escutar ao longe o silvo surdo que nunca vinha. Outros apenas sorriam. Desvairados. Ao fim daquela “última”, baixei mais uma e esclareci ao sair de vez:
“Não é hoje que a gente parte”.
Assinar:
Postagens (Atom)
