10 de jun. de 2010

O fim da poesia

No mundo, hoje, não se vive de poesia.
Vive-se de criar aleivosias para vender
artigos tantos, todos os tipos de porcaria.
Vive-se de fato na busca por um espaço
no tão comentado mercado de trabalho.
Não depende das estruturas dos versos,
sejam simples, sem nexo ou complexos,
no mundo, hoje, não se vive de poesia.
A verdade do poeta virou peça barata,
não vale de troco, imagina sustento.
Logo ela que já foi tão nobre, veja,
hoje é simples perda de tempo.
A poesia, alguém já disse,
repito, é a voz da alma.
Mas um dia por si só
irá se acabar junto
com o mundo, só,
como os filmes
de Hollywood:
THE END.
Ou daqui
mesmo:
FIM.

4 de jun. de 2010

Uma coisa leva à outra

Saía-se muito bem
no estudo de línguas
mortas.

Tinha opinião sobre moda,
estilo e outras coisas
essenciais.

Sonhava só, dançava só
frente ao espelho
opaco do seu quarto.

Seus pais depositavam fé, dinheiro
e no futuro alheio idealizavam
planos.

Já tinha lá seus 20 anos
quando deu o
primeiro beijo.

Encontrou aos 30 uma pessoa
aberta ao amor, não deu
certo.

Não tinha tempo para dar
afeto e outras coisas
fúteis.

Tinha já as línguas, a moda,
a vida a lhe perseguir
e a dança só,
e o sonhar só
já lhe serviam.

Hoje faria 50 e jaz em cova rasa
metido num belo fraque
ao lado do parque
pelo qual jamais
andou.

Espero que sua alma esteja em paz.

21 de mai. de 2010

Certa moça

Sonhei com certa moça
a desejar tão triste
um poema para si.

Para atender à sua vaidade,
à sua vontade de mulher
inconformada, me pediu.

Toda uma vida passada
olhou o passado e não viu
um fragmento de paixão

intensa,
uma ode,
uma sentença,

uma mera
declaração.

Dizia ela se sentir usada
por todos os homens
já provados, safados.

Dizia ela estar acostumada
ao desencanto do tempo
de uma relação não tida.

Dizia ela estar também cansada
de esperar e nunca ter
ninguém a quem pudesse sorrir.

E declarou, assim, meu bem:
Exponha seus versos pra mim.
Por favor... Por favor...

Não resisti ao quadro da dor
exposto em moça tão bela e
em frases mudas declamei.

Ouviu atenta.

Ao fim dos ditos
veio logo o veredicto:

Desconsolo no olhar.

Tentou sorrir sincera
ergueu o rosto
uma caverna
fria, nem sinal de comoção.

Um tanto orgulhosa
pegou sua bolsa,
sua manta
e foi-se embora.

...

Passam os anos
e ainda não a vi,
não voltou mais
ao embalar da noite.

Decerto soube de cara
que àquelas palavras
estavam mesmo
destinadas à outra.

Ou nem sequer gostou,
saiu por onde entrou
e comprovou-se então:

Não importa o rosto,
o desconsolo,
o desgosto,
são todas tão sentimentais,

mas basta um afago
malfeito em seus egos
com um cochicho,
com um berro ou sem um piu,

viram-lhe as costas
e não voltam mais
as belas moças desejosas
de amor que nunca existiu.

20 de abr. de 2010

Como velhos palhaços

Sorrisos rasgados
sempre iguais
foto a foto
em diferentes locais
as mesmas poses
todas artificiais
a favor da ilustre intenção
de mostrar às plateias
das redes sociais
que se é feliz.

Felicidade existe, sim
não se pode negar
paira por aí, até calada
em qualquer lugar.
Felicidade completa há
da luta ao êxito, na gratidão
de quem se quer tão bem.
Felicidade absoluta
ininterrupta
é desespero.

Jogo dos fracos
que rodam o mundo inteiro
correndo da morte
não para conhecer o estranho
mas por continuar
com empenho
buscando registros
de uma mesma pose
num outro local
com um novo sorriso igual.

Insaciáveis somos
em nossas nobres missões -
não de viver apenas
contentes com a condição de ser
humano, fraco -
mas de mostrar aos outros
infelizes, incapazes
foto a foto
nossa cega ascensão
em meio à queda.

Não há chagas no peito
evidenciadas
pelo retrato.
Não há marcas do passado
no olhar destinado ao retrato.
Não há sinal de maus tratos
na pose impávida
altiva, imaculada
previamente escolhida
estampada no retrato.

Imagem é tudo, dizem
os sábios, esclarecidos.
Sou fraco, admito, portanto
acato quieto.
Como um velho palhaço
num circo a desabar
dedico tamanho esforço
para manter a aparência
intacta
enquanto o tempo passa.

Me deixa tranquilo
pensar que os outros
não viram um momento,
não ouviram relatos
de um dia ele
sempre tão alegre
ter sofrido na vida
a dor de uma perda
a agonia do fracasso
a desilusão de um desamor.

Como a roda que move
a dança incerta da vida
a imagem fere quieta
não é esquecida
nos traz lembranças
queridas, abriga detalhes.
Mas carece cuidado
lidar com o registro
deveria ser eterno
precioso quando preciso.