Acomete-me a lembrança
da varanda verde
e as samambaias.
O dia de chuva e sol,
a luz amarelada
pelas velhas telhas transparentes
e a lajota fria
de vermelho sangue,
sem dor.
O ambiente na memória é quente
frente todo àquele verde
e pálido amarelo passado
do inverno que nunca mais houve.
Houve outras estações,
novas paisagens, risos, prantos,
sentimentos tantos, recordações;
mas o dia do qual lembro já se foi,
mora no instante interrompido
pela hora a vir e vir.
Cantarola na cozinha
uma tia que não tive;
a saia longa sacoleja
no compasso das ancas
e a mão, veloz, bate
a clara em neve
para os sonhos do menino,
seu sobrinho merece carinho.
Deitado, eu vejo os pingos
lá fora, um por um agora;
arremesso uma bola de meia
ao infinito daquela tarde,
vai e volta, vai e volta,
mas não voltará,
como o ontem
e o amanhã,
como o agora
e o depois.
E o agora
e o depois...
29 de mar. de 2011
10 de jun. de 2010
O fim da poesia
No mundo, hoje, não se vive de poesia.
Vive-se de criar aleivosias para vender
artigos tantos, todos os tipos de porcaria.
Vive-se de fato na busca por um espaço
no tão comentado mercado de trabalho.
Não depende das estruturas dos versos,
sejam simples, sem nexo ou complexos,
no mundo, hoje, não se vive de poesia.
A verdade do poeta virou peça barata,
não vale de troco, imagina sustento.
Logo ela que já foi tão nobre, veja,
hoje é simples perda de tempo.
A poesia, alguém já disse,
repito, é a voz da alma.
Mas um dia por si só
irá se acabar junto
com o mundo, só,
como os filmes
de Hollywood:
THE END.
Ou daqui
mesmo:
FIM.
Vive-se de criar aleivosias para vender
artigos tantos, todos os tipos de porcaria.
Vive-se de fato na busca por um espaço
no tão comentado mercado de trabalho.
Não depende das estruturas dos versos,
sejam simples, sem nexo ou complexos,
no mundo, hoje, não se vive de poesia.
A verdade do poeta virou peça barata,
não vale de troco, imagina sustento.
Logo ela que já foi tão nobre, veja,
hoje é simples perda de tempo.
A poesia, alguém já disse,
repito, é a voz da alma.
Mas um dia por si só
irá se acabar junto
com o mundo, só,
como os filmes
de Hollywood:
THE END.
Ou daqui
mesmo:
FIM.
4 de jun. de 2010
Uma coisa leva à outra
Saía-se muito bem
no estudo de línguas
mortas.
Tinha opinião sobre moda,
estilo e outras coisas
essenciais.
Sonhava só, dançava só
frente ao espelho
opaco do seu quarto.
Seus pais depositavam fé, dinheiro
e no futuro alheio idealizavam
planos.
Já tinha lá seus 20 anos
quando deu o
primeiro beijo.
Encontrou aos 30 uma pessoa
aberta ao amor, não deu
certo.
Não tinha tempo para dar
afeto e outras coisas
fúteis.
Tinha já as línguas, a moda,
a vida a lhe perseguir
e a dança só,
e o sonhar só
já lhe serviam.
Hoje faria 50 e jaz em cova rasa
metido num belo fraque
ao lado do parque
pelo qual jamais
andou.
Espero que sua alma esteja em paz.
no estudo de línguas
mortas.
Tinha opinião sobre moda,
estilo e outras coisas
essenciais.
Sonhava só, dançava só
frente ao espelho
opaco do seu quarto.
Seus pais depositavam fé, dinheiro
e no futuro alheio idealizavam
planos.
Já tinha lá seus 20 anos
quando deu o
primeiro beijo.
Encontrou aos 30 uma pessoa
aberta ao amor, não deu
certo.
Não tinha tempo para dar
afeto e outras coisas
fúteis.
Tinha já as línguas, a moda,
a vida a lhe perseguir
e a dança só,
e o sonhar só
já lhe serviam.
Hoje faria 50 e jaz em cova rasa
metido num belo fraque
ao lado do parque
pelo qual jamais
andou.
Espero que sua alma esteja em paz.
21 de mai. de 2010
Certa moça
Sonhei com certa moça
a desejar tão triste
um poema para si.
Para atender à sua vaidade,
à sua vontade de mulher
inconformada, me pediu.
Toda uma vida passada
olhou o passado e não viu
um fragmento de paixão
intensa,
uma ode,
uma sentença,
uma mera
declaração.
Dizia ela se sentir usada
por todos os homens
já provados, safados.
Dizia ela estar acostumada
ao desencanto do tempo
de uma relação não tida.
Dizia ela estar também cansada
de esperar e nunca ter
ninguém a quem pudesse sorrir.
E declarou, assim, meu bem:
Exponha seus versos pra mim.
Por favor... Por favor...
Não resisti ao quadro da dor
exposto em moça tão bela e
em frases mudas declamei.
Ouviu atenta.
Ao fim dos ditos
veio logo o veredicto:
Desconsolo no olhar.
Tentou sorrir sincera
ergueu o rosto
uma caverna
fria, nem sinal de comoção.
Um tanto orgulhosa
pegou sua bolsa,
sua manta
e foi-se embora.
...
Passam os anos
e ainda não a vi,
não voltou mais
ao embalar da noite.
Decerto soube de cara
que àquelas palavras
estavam mesmo
destinadas à outra.
Ou nem sequer gostou,
saiu por onde entrou
e comprovou-se então:
Não importa o rosto,
o desconsolo,
o desgosto,
são todas tão sentimentais,
mas basta um afago
malfeito em seus egos
com um cochicho,
com um berro ou sem um piu,
viram-lhe as costas
e não voltam mais
as belas moças desejosas
de amor que nunca existiu.
a desejar tão triste
um poema para si.
Para atender à sua vaidade,
à sua vontade de mulher
inconformada, me pediu.
Toda uma vida passada
olhou o passado e não viu
um fragmento de paixão
intensa,
uma ode,
uma sentença,
uma mera
declaração.
Dizia ela se sentir usada
por todos os homens
já provados, safados.
Dizia ela estar acostumada
ao desencanto do tempo
de uma relação não tida.
Dizia ela estar também cansada
de esperar e nunca ter
ninguém a quem pudesse sorrir.
E declarou, assim, meu bem:
Exponha seus versos pra mim.
Por favor... Por favor...
Não resisti ao quadro da dor
exposto em moça tão bela e
em frases mudas declamei.
Ouviu atenta.
Ao fim dos ditos
veio logo o veredicto:
Desconsolo no olhar.
Tentou sorrir sincera
ergueu o rosto
uma caverna
fria, nem sinal de comoção.
Um tanto orgulhosa
pegou sua bolsa,
sua manta
e foi-se embora.
...
Passam os anos
e ainda não a vi,
não voltou mais
ao embalar da noite.
Decerto soube de cara
que àquelas palavras
estavam mesmo
destinadas à outra.
Ou nem sequer gostou,
saiu por onde entrou
e comprovou-se então:
Não importa o rosto,
o desconsolo,
o desgosto,
são todas tão sentimentais,
mas basta um afago
malfeito em seus egos
com um cochicho,
com um berro ou sem um piu,
viram-lhe as costas
e não voltam mais
as belas moças desejosas
de amor que nunca existiu.
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