14 de jan. de 2012
Meu destino é devaneio
Debaixo de chuva
pela frente o horizonte
sei que se esconde uma resposta lá ao longe
e eu quero ver
quero ver
Pedras no caminho
o vento forte voa contra
corta o meu rosto e não aponta a porta certa pra chegar
pra chegar
Meu destino é devaneio
O acaso as chances em que posso me agarrar (2x)
Muros de concreto
um bombardeio incessante
sombras no encalço e o infinito adiante
e sigo sem saber
sem saber
Fecho os meus olhos
salto alto em um instante
de uma nuvem branca arranco um faixo de esperança
porque quero ver
quero ver
Seco o suor da testa
aperto o passo
nada vai me segurar
Meu destino é devaneio
O acaso as chances em que posso me agarrar (2x)
Obituário
Parte da minha infância morei próximo ao Cemitério Municipal de Caxias do Sul, numa espécie de cortiço de casas individuais, onde viviam também meus avós paternos, algumas tias e inquilinos, que iam e vinham. Meus pais trabalhavam o dia inteiro e, no turno em que não estava na escola ou nas ruas, tinha minha avó como guardiã. Vez ou outra acompanhava seu roteiro de beata quase cotidiano: missa, “o terço”, velório e enterro.
Na missa eu era amigo do padre. Observava embasbacado o juízo final pintado no teto da igreja por Aldo Locatelli. No terço compartilhado arriscava minhas ave-marias para não me entediar. Era uma criança calma. Sempre ganhava doces e agora quase sinto o cheiro de alfazema. Lembro que num velório questionei minha avó sobre a identidade do defunto, mãos em cruz sobre o peito e um estranho sorriso no rosto. Pesarosa e com lágrimas nos olhos, ela cutucou a senhora ao lado, que cutucou a outra e assim se sucedeu até que voltou a resposta. Era irmão da falecida Fulana. Um homem bom, pobre filho de Deus. Tão novo!
Seguíamos em procissão ao cemitério, eu - com meus sete, oitos anos - e as velhinhas. Uma ladainha em dialeto vêneto ou latim ecoava entre os mausoléus. Na minha memória sempre chove. A comitiva respondia estridente, em uníssono. Todas trajavam vestes escuras. Por entre as ruelas sinuosas da cidade dos mortos eu me perdia. Procurava por túmulos de crianças. A passo lento observava as datas nas lápides, fascinado. Quem sabe encontraria, por acaso, um nascimento análogo ao meu e a data de óbito surgiria como presságio da minha. Nunca quis encontrar.
Cálculos rápidos me revelavam a idade aproximada. Seis, sete, 12 anos. Crianças sorridentes como eu engavetadas ou atiradas sem dó sob uma pedra fria, que de certo saíram para um mero enterro com a avó e por lá ficaram. Algumas nem chegavam a um ano, outras duravam apenas dias ou horas. E todas as suas memórias estavam ali, resumidas por um nome ao qual mal se acostumaram e pelo breve intervalo entre a estrela e a cruz. Descansem em paz.
Minha mãe ficava louca ao saber das nossas macabras incursões. Mal sabia ela que minha avó, sem querer, me preparava para encarar a morte como o destino comum entre todos, o inevitável.
Cresci, dei as costas à igreja e só fui voltar ao cemitério dez anos depois, mais, para engavetar meu pai. As ruas pareciam ainda mais estreitas mas o ambiente, embora pesado, tinha algo de acolhedor. Um ano se passou, morreu minha avó. Seguimos em comitiva para sua derradeira cerimônia fúnebre, da qual dessa vez era protagonista. Já não havia velhinhas entoando cânticos sacros e as crianças já não me interessavam mais.
Agora, o que isso tem a ver com obituário, não sei.
Na missa eu era amigo do padre. Observava embasbacado o juízo final pintado no teto da igreja por Aldo Locatelli. No terço compartilhado arriscava minhas ave-marias para não me entediar. Era uma criança calma. Sempre ganhava doces e agora quase sinto o cheiro de alfazema. Lembro que num velório questionei minha avó sobre a identidade do defunto, mãos em cruz sobre o peito e um estranho sorriso no rosto. Pesarosa e com lágrimas nos olhos, ela cutucou a senhora ao lado, que cutucou a outra e assim se sucedeu até que voltou a resposta. Era irmão da falecida Fulana. Um homem bom, pobre filho de Deus. Tão novo!
Seguíamos em procissão ao cemitério, eu - com meus sete, oitos anos - e as velhinhas. Uma ladainha em dialeto vêneto ou latim ecoava entre os mausoléus. Na minha memória sempre chove. A comitiva respondia estridente, em uníssono. Todas trajavam vestes escuras. Por entre as ruelas sinuosas da cidade dos mortos eu me perdia. Procurava por túmulos de crianças. A passo lento observava as datas nas lápides, fascinado. Quem sabe encontraria, por acaso, um nascimento análogo ao meu e a data de óbito surgiria como presságio da minha. Nunca quis encontrar.
Cálculos rápidos me revelavam a idade aproximada. Seis, sete, 12 anos. Crianças sorridentes como eu engavetadas ou atiradas sem dó sob uma pedra fria, que de certo saíram para um mero enterro com a avó e por lá ficaram. Algumas nem chegavam a um ano, outras duravam apenas dias ou horas. E todas as suas memórias estavam ali, resumidas por um nome ao qual mal se acostumaram e pelo breve intervalo entre a estrela e a cruz. Descansem em paz.
Minha mãe ficava louca ao saber das nossas macabras incursões. Mal sabia ela que minha avó, sem querer, me preparava para encarar a morte como o destino comum entre todos, o inevitável.
Cresci, dei as costas à igreja e só fui voltar ao cemitério dez anos depois, mais, para engavetar meu pai. As ruas pareciam ainda mais estreitas mas o ambiente, embora pesado, tinha algo de acolhedor. Um ano se passou, morreu minha avó. Seguimos em comitiva para sua derradeira cerimônia fúnebre, da qual dessa vez era protagonista. Já não havia velhinhas entoando cânticos sacros e as crianças já não me interessavam mais.
Agora, o que isso tem a ver com obituário, não sei.
1 de set. de 2011
Vaias, cusparadas e o membro do Zulu
Tem gente que não sabe brincar. Nem torcer. Acho que a torcida tem todo o direito de vaiar quando o time joga mal ou, principalmente, faz corpo mole em campo ou quando bem quiser, vá lá. Sabemos bem como são os gringos. Aliás, é impressionante como se nota gente que vai ao Jaconi só pra cornetear. Não sabe o nome de um jogador sequer, vai "à paisana", xinga o dois, o sete, o dez, o juiz e até o gandula e o cara do lado que é gordo e ocupa mais de um assento, sendo que há vinte disponíveis do outro lado.
Pessoalmente, não acho legal vaiar o time. Me parece que o boleiro, bicho ruim, porém adorável, que é, vai ficar desmotivado e ao invés de querer responder à torcida com boas atuações - o que seria mais coerente - vai é mandar tudo à merda, pedir pra sair e ainda desferir uma banana pras arquibancadas. Mas há exemplos que desmentem minha tese, como é o caso do Zulu. O "contestado Zulu" como o Elizeu Evangelista adora se referir. Levou vaia, teve apoio do treinador e de parte da torcida e agora ajuda o time com assistências, gols, desarmes e o caralho, embora não seja um jogador brilhante. Lembrando ao irracional e desavisado torcedor que estamos na série D.
Isso mesmo, até com o caralho segundo informação exclusiva obtida por um ilustre membro do Consulado do Juventude em Porto Alegre do qual me vanglorio vira e mexe por ter um parentesco longínquo. Mas parece que a relação do membro (do centroavante) com o grupo não tomou proporções sexuais, ainda. Serve apenas como símbolo de respeito ao clube - e
às vestes sagradas que o cobrem - a alguns e motivo de pilhéria a outros.
Porra, já a cusparada é um desrespeito sem tamanho, já demonstrei a minha indignação quanto a isso em conversas com amigos e discussões internas dos Papos da Capital. Inaceitável. Dentro da minha mesma “Teoria da Vaia” há um subcapítulo dedicado ao xingamento ao bandeira e aos demais adversários que se aproximem do alambrado. A pressão psicológica só é efetiva se bem exercida, com argúcia. Por exemplo, falar que ele usa calcinha, é corno, feio ou fede a peixe são argumentos válidos. Só exemplos de um universo vasto e pouco explorado. Quando o erro é de real gravidade, e causa revolta, cabe uma ameaça maior do tipo “te pego na saída, seu canalha!”. Daí pra mais, tudo bem. Opção de cada um. Quem vê eu nunca xinguei um puto desses de puto. Mas “morto de fome”, “nêgo de merda” e o que o valha, por favor... Reservem seus preconceitos étnico-sociais a rodas de amigos, familiares e pulhas sem respeito algum como você.
Voltando às cusparadas... Sou a favor até que advirtam a torcida pelos alto-falantes no início dos próximos jogos, pedindo respeito ao torcedor. Seria constrangedor, é claro, mas já não é o suficiente? Ou mantenham as vidraças, pronto. Sugiro também que ao visualizar algum ato desses irresponsáveis, os verdadeiros torcedores façamos um levante imediato para expulsá-los do estádio. Aí cabe quebrar o rigor, mandá-los a puta que pariu abaixo de chute no rabo. Bando de cuzões! O Juventude é muito maior que meia dúzia de imbecis!
Enfim, essas são as minhas considerações. Desculpe a extensão do texto, papo de fé.
Sábado é nóis na liderança isolada. Independente das inevitáveis alterações por suspensão, dizem que o Zulu vai entrar com tudo. Parece que o goleiro deles até fugiu. Que venham os cianórticos.
Pessoalmente, não acho legal vaiar o time. Me parece que o boleiro, bicho ruim, porém adorável, que é, vai ficar desmotivado e ao invés de querer responder à torcida com boas atuações - o que seria mais coerente - vai é mandar tudo à merda, pedir pra sair e ainda desferir uma banana pras arquibancadas. Mas há exemplos que desmentem minha tese, como é o caso do Zulu. O "contestado Zulu" como o Elizeu Evangelista adora se referir. Levou vaia, teve apoio do treinador e de parte da torcida e agora ajuda o time com assistências, gols, desarmes e o caralho, embora não seja um jogador brilhante. Lembrando ao irracional e desavisado torcedor que estamos na série D.
Isso mesmo, até com o caralho segundo informação exclusiva obtida por um ilustre membro do Consulado do Juventude em Porto Alegre do qual me vanglorio vira e mexe por ter um parentesco longínquo. Mas parece que a relação do membro (do centroavante) com o grupo não tomou proporções sexuais, ainda. Serve apenas como símbolo de respeito ao clube - e
às vestes sagradas que o cobrem - a alguns e motivo de pilhéria a outros.
Porra, já a cusparada é um desrespeito sem tamanho, já demonstrei a minha indignação quanto a isso em conversas com amigos e discussões internas dos Papos da Capital. Inaceitável. Dentro da minha mesma “Teoria da Vaia” há um subcapítulo dedicado ao xingamento ao bandeira e aos demais adversários que se aproximem do alambrado. A pressão psicológica só é efetiva se bem exercida, com argúcia. Por exemplo, falar que ele usa calcinha, é corno, feio ou fede a peixe são argumentos válidos. Só exemplos de um universo vasto e pouco explorado. Quando o erro é de real gravidade, e causa revolta, cabe uma ameaça maior do tipo “te pego na saída, seu canalha!”. Daí pra mais, tudo bem. Opção de cada um. Quem vê eu nunca xinguei um puto desses de puto. Mas “morto de fome”, “nêgo de merda” e o que o valha, por favor... Reservem seus preconceitos étnico-sociais a rodas de amigos, familiares e pulhas sem respeito algum como você.
Voltando às cusparadas... Sou a favor até que advirtam a torcida pelos alto-falantes no início dos próximos jogos, pedindo respeito ao torcedor. Seria constrangedor, é claro, mas já não é o suficiente? Ou mantenham as vidraças, pronto. Sugiro também que ao visualizar algum ato desses irresponsáveis, os verdadeiros torcedores façamos um levante imediato para expulsá-los do estádio. Aí cabe quebrar o rigor, mandá-los a puta que pariu abaixo de chute no rabo. Bando de cuzões! O Juventude é muito maior que meia dúzia de imbecis!
Enfim, essas são as minhas considerações. Desculpe a extensão do texto, papo de fé.
Sábado é nóis na liderança isolada. Independente das inevitáveis alterações por suspensão, dizem que o Zulu vai entrar com tudo. Parece que o goleiro deles até fugiu. Que venham os cianórticos.
29 de mar. de 2011
Foi-se o tempo
Acomete-me a lembrança
da varanda verde
e as samambaias.
O dia de chuva e sol,
a luz amarelada
pelas velhas telhas transparentes
e a lajota fria
de vermelho sangue,
sem dor.
O ambiente na memória é quente
frente todo àquele verde
e pálido amarelo passado
do inverno que nunca mais houve.
Houve outras estações,
novas paisagens, risos, prantos,
sentimentos tantos, recordações;
mas o dia do qual lembro já se foi,
mora no instante interrompido
pela hora a vir e vir.
Cantarola na cozinha
uma tia que não tive;
a saia longa sacoleja
no compasso das ancas
e a mão, veloz, bate
a clara em neve
para os sonhos do menino,
seu sobrinho merece carinho.
Deitado, eu vejo os pingos
lá fora, um por um agora;
arremesso uma bola de meia
ao infinito daquela tarde,
vai e volta, vai e volta,
mas não voltará,
como o ontem
e o amanhã,
como o agora
e o depois.
E o agora
e o depois...
da varanda verde
e as samambaias.
O dia de chuva e sol,
a luz amarelada
pelas velhas telhas transparentes
e a lajota fria
de vermelho sangue,
sem dor.
O ambiente na memória é quente
frente todo àquele verde
e pálido amarelo passado
do inverno que nunca mais houve.
Houve outras estações,
novas paisagens, risos, prantos,
sentimentos tantos, recordações;
mas o dia do qual lembro já se foi,
mora no instante interrompido
pela hora a vir e vir.
Cantarola na cozinha
uma tia que não tive;
a saia longa sacoleja
no compasso das ancas
e a mão, veloz, bate
a clara em neve
para os sonhos do menino,
seu sobrinho merece carinho.
Deitado, eu vejo os pingos
lá fora, um por um agora;
arremesso uma bola de meia
ao infinito daquela tarde,
vai e volta, vai e volta,
mas não voltará,
como o ontem
e o amanhã,
como o agora
e o depois.
E o agora
e o depois...
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