No conto Bola de Sebo, do escritor francês Guy de Maupassant (1850 - 1893) há um personagem distinto dos demais. Chama-se Cornudet, um democrata que em sua apresentação é enquadrado como “o terror das pessoas respeitáveis”. Não que seja uma má pessoa. Não! Pelo contrário, ao longo do texto o escritor nos mostra um homem fiel aos seus ideais revolucionários, um patriota dotado de um espírito generoso, único defensor da protagonista humilhada pela sua nobre profissão. Tudo isso faz parte da arte satírica desse notável escritor, crítico atento às fragilidades humanas e à estupidez dos costumes de uma sociedade.
Uma breve síntese das predileções do autor e ambientação do conto...
Ainda criança, Guy de Maupassant conhece, por intermédio de sua mãe, a obra de Gustave Flaubert, despertando assim seu amor precoce pela literatura. Cresce entre o campo, o mar e a leitura dos grandes clássicos, desfrutando de grande liberdade até ser enviado ao seminário de Yvetot. É nesse período que isola-se de seus colegas e busca seu refúgio literário, alimentando uma antipatia pelos costumes religiosos que perduraria pelo resto de sua vida. No ano de 1870 engaja-se na seção de abastecimento do exército francês, posteriormente devastado pelas forças prussianas. Durante a guerra lê Schopenhauer, escreve poemas de amor e cria um crescente rancor e um desejo de vingança em relação à nação alemã. A invasão prussiana à França está presente em boa parte da vasta obra de Maupassant (são mais de 300 contos publicados).
Voltando ao conto... Em meio à invasão um grupo de dez pessoas toma uma grande carruagem puxada por quatro cavalos para desertarem de uma Paris apinhada de oficiais alemães. Entre os viajantes há três burgueses célebres e suas respectivas esposas “essas seis pessoas representavam, ao fundo da diligência, a ala endinheirada, serena e forte da sociedade, a ‘gente direita’, que tem Religião e Princípios”. Duas freiras vão também, juntamente com Cornudet e Bola de Sebo, a rechonchuda prostituta, “apetitosa e desejada”, bem aos gostos de uma época onde não havia se estabelecido um padrão de beleza forçado e forçoso àqueles seres ávidos pelo bem estar corporal, mas indiferentes a profundas reflexões. Álcool? Imagina, isso desatina a mente de uma pessoa.
“O homem bastante conhecido era Cornudet, o democrata, terror das pessoas respeitáveis. Há vinte anos que embebia sua grande barba ruiva nos chopes de todos os cafés democráticos.”
O texto segue, sua narrativa é envolvente e somos lançados a uma estrada tortuosa, a grande carruagem avança com muita dificuldade em direção ao seu destino, o porto de Havre, ocupado pelo exército francês. A neve dificulta o caminho, mas embeleza a paisagem e nossos pensamentos. A noite fria e a fome obrigam o grupo a parar, assim com a exaustão dos animais. Já instalados em um albergue, supervisionado por um oficial prussiano, o grupo de viajantes ceia logo após um incidente desconhecido que perturbou a “gorda rapariga”. Ela mesmo, Bola de Sebo, carinhoso apelido dado pela altiva sociedade francesa à prostituta protagonista do conto em questão. Segue uma das mais belas descrições que já li sobre a arte de beber.
“Sentaram-se então ao redor de uma alta sopeira, de onde emanava um perfume de couve. Apesar do incidente a ceia foi alegre. A cidra era boa; o casal Loiseau e as freiras serviram-se dela por economia. Os outros pediam vinho; Cornudet reclamou cerveja. Tinha ele um modo particular de abrir a garrafa, de fazer espumar o líquido, de o reverenciar, inclinando o copo, que erguia em seguida entre o lampião e os olhos, para bem apreciar a cor. Quando bebia, a sua grande barba que conservava o matiz de seu líquido amado, parecia tremer de ternura; seus olhos envesgavam para não perder de vista a bebida, e ele tinha o ar de estar preenchendo a única função para qual nascera. Dir-se-ia que estabelecia no espírito uma aproximação e como uma afinidade entre as duas paixões que ocupavam toda a sua vida: a Cerveja e a Revolução: e certamente não podia degustar uma sem pensar na outra.”
Incomparável, bela e sucinta. Não tenho mais o que comentar, só a recomendar, leiam o conto. Ou melhor, só mais um comentário, após ceder completamente à loucura, Maupassant tenta cortar a garganta com uma navalha e é internado por amigos em um manicômio. Perturbações psicológicas e alucinações, decorrentes da sífilis, conviviam há mais de dez anos com o autor. A 6 de julho de 1893 morre, vítima de paralisia geral.
Portanto, beba, enxugue, mas proteja-se. A sífilis pode te enlouquecer.
Mateus Frizzo
Fonte: MAUPASSANT, Guy de. Bola de Sebo e outros contos. Rio de Janeiro: Globo, 1987.