22 de jan. de 2010

Compreensão

Lembro-me dos elogios,
alguns fracos, batidos,
todos de boa intenção;
claros na luz escura
exata à ilusão.

Toquei em sua pele,
palavras não leu,
dizia-se tímida, descrente,
talvez indisposta,
avessa à paixão.

- Não a culpo, sabes?

- Por quê?
- POR QUÊ?

Como digo: nada espero,
basta acontecer.
Vez ou outra anseio,
não escondo, sempre repito:
“A doce verdade
é simples viver”.

Nem tão sério,
um pouco triste,
faminto de sonhos,
caído de bruços
de olhos atentos,
exposto sempre.

- Venha aqui ouvir! Não me ignores!

Traga-me a vida,
dispenses a morte,
faça-me crer.
Venha e vá
mas não deixe
sozinhas, reclusas...

As dores do amor
de agora,
As luzes de outro
capaz outrora.
Talvez seja o tal, não é?
O último alento ao temor.

Vive-se só,
diz o contrário proposto.

Morre-se junto,
mostra o desejo oposto.

- Está bem.

Esqueça as graças, está bem?
Sim, foram todas sinceras,
mas cala-te agora,
não diga que não
só beije meu rosto,
deixe-me o coração.

9 de jan. de 2010

Notas de um fim de tarde

A vida ainda há de me tirar esses prazeres.

Enquanto jovem, consigo largar tudo com uma mochila nas costas, carregada apenas com livros - alguns poucos – uma ou duas cuecas e um par de meias. Quando tenho tempo, e ele está aí, à disposição, tenho também ânsia de chegar a qualquer destino.

Quando velho, precisarei de uma bolsa de remédios entre meus trapos. Agasalhos para que o sereno não constipe e até mesmo um travesseiro para o cansaço das costas. A velhice parece longe com o sol a iluminar o copo, às duas da tarde de um dia quente. A cerveja, hoje companheira do aguardo, dará lugar ao chá, ou àquele tônico azulado que vi um senhor de aspecto surrado sugar. Se eu seguir nesse ritmo, talvez até a um coquetel dito necessário à minha sobrevivência.

Imagine só, do alto do orgulho do homem em sua plena forma ao fundo escuro do fim do viver.

Viver de satisfações passageiras é uma escolha feita consciente das inverdades da vida. É um voto. Uma crença. Cega, mas ainda fixa. Sendo feliz, mesmo em meus lamentos, não vejo outra forma. Morrerei de porre ouvindo o cantar do último bar. O tempo, e sua inadiável conseqüência, não irá no âmago transformar um ser apaixonado como eu.

Viveria só por este momento. Só por saber da existência do dia de amanhã. Da apreensão pelo que virá. Dos tantos rostos, tristes e realizados, com os quais ainda cruzarei.

Entre planos e ambições difusas, mais um fim de tarde espero, sentado no mesmo banco de tantas outras vezes, o trem que parte rumo à liberdade.

Já passava das sete quando resolvi sair do bar da estação. Pedi a última.

Ao me redor todos os tipos de loucos mantinham a mesma esperança: escutar ao longe o silvo surdo que nunca vinha. Outros apenas sorriam. Desvairados. Ao fim daquela “última”, baixei mais uma e esclareci ao sair de vez:

“Não é hoje que a gente parte”.