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29 de mar. de 2011

Foi-se o tempo

Acomete-me a lembrança
da varanda verde
e as samambaias.

O dia de chuva e sol,
a luz amarelada
pelas velhas telhas transparentes
e a lajota fria
de vermelho sangue,
sem dor.

O ambiente na memória é quente
frente todo àquele verde
e pálido amarelo passado
do inverno que nunca mais houve.

Houve outras estações,
novas paisagens, risos, prantos,
sentimentos tantos, recordações;
mas o dia do qual lembro já se foi,
mora no instante interrompido
pela hora a vir e vir.

Cantarola na cozinha
uma tia que não tive;
a saia longa sacoleja
no compasso das ancas
e a mão, veloz, bate
a clara em neve
para os sonhos do menino,
seu sobrinho merece carinho.

Deitado, eu vejo os pingos
lá fora, um por um agora;
arremesso uma bola de meia
ao infinito daquela tarde,
vai e volta, vai e volta,
mas não voltará,
como o ontem
e o amanhã,
como o agora
e o depois.

E o agora
e o depois...

10 de jun. de 2010

O fim da poesia

No mundo, hoje, não se vive de poesia.
Vive-se de criar aleivosias para vender
artigos tantos, todos os tipos de porcaria.
Vive-se de fato na busca por um espaço
no tão comentado mercado de trabalho.
Não depende das estruturas dos versos,
sejam simples, sem nexo ou complexos,
no mundo, hoje, não se vive de poesia.
A verdade do poeta virou peça barata,
não vale de troco, imagina sustento.
Logo ela que já foi tão nobre, veja,
hoje é simples perda de tempo.
A poesia, alguém já disse,
repito, é a voz da alma.
Mas um dia por si só
irá se acabar junto
com o mundo, só,
como os filmes
de Hollywood:
THE END.
Ou daqui
mesmo:
FIM.

4 de jun. de 2010

Uma coisa leva à outra

Saía-se muito bem
no estudo de línguas
mortas.

Tinha opinião sobre moda,
estilo e outras coisas
essenciais.

Sonhava só, dançava só
frente ao espelho
opaco do seu quarto.

Seus pais depositavam fé, dinheiro
e no futuro alheio idealizavam
planos.

Já tinha lá seus 20 anos
quando deu o
primeiro beijo.

Encontrou aos 30 uma pessoa
aberta ao amor, não deu
certo.

Não tinha tempo para dar
afeto e outras coisas
fúteis.

Tinha já as línguas, a moda,
a vida a lhe perseguir
e a dança só,
e o sonhar só
já lhe serviam.

Hoje faria 50 e jaz em cova rasa
metido num belo fraque
ao lado do parque
pelo qual jamais
andou.

Espero que sua alma esteja em paz.

21 de mai. de 2010

Certa moça

Sonhei com certa moça
a desejar tão triste
um poema para si.

Para atender à sua vaidade,
à sua vontade de mulher
inconformada, me pediu.

Toda uma vida passada
olhou o passado e não viu
um fragmento de paixão

intensa,
uma ode,
uma sentença,

uma mera
declaração.

Dizia ela se sentir usada
por todos os homens
já provados, safados.

Dizia ela estar acostumada
ao desencanto do tempo
de uma relação não tida.

Dizia ela estar também cansada
de esperar e nunca ter
ninguém a quem pudesse sorrir.

E declarou, assim, meu bem:
Exponha seus versos pra mim.
Por favor... Por favor...

Não resisti ao quadro da dor
exposto em moça tão bela e
em frases mudas declamei.

Ouviu atenta.

Ao fim dos ditos
veio logo o veredicto:

Desconsolo no olhar.

Tentou sorrir sincera
ergueu o rosto
uma caverna
fria, nem sinal de comoção.

Um tanto orgulhosa
pegou sua bolsa,
sua manta
e foi-se embora.

...

Passam os anos
e ainda não a vi,
não voltou mais
ao embalar da noite.

Decerto soube de cara
que àquelas palavras
estavam mesmo
destinadas à outra.

Ou nem sequer gostou,
saiu por onde entrou
e comprovou-se então:

Não importa o rosto,
o desconsolo,
o desgosto,
são todas tão sentimentais,

mas basta um afago
malfeito em seus egos
com um cochicho,
com um berro ou sem um piu,

viram-lhe as costas
e não voltam mais
as belas moças desejosas
de amor que nunca existiu.

20 de abr. de 2010

Como velhos palhaços

Sorrisos rasgados
sempre iguais
foto a foto
em diferentes locais
as mesmas poses
todas artificiais
a favor da ilustre intenção
de mostrar às plateias
das redes sociais
que se é feliz.

Felicidade existe, sim
não se pode negar
paira por aí, até calada
em qualquer lugar.
Felicidade completa há
da luta ao êxito, na gratidão
de quem se quer tão bem.
Felicidade absoluta
ininterrupta
é desespero.

Jogo dos fracos
que rodam o mundo inteiro
correndo da morte
não para conhecer o estranho
mas por continuar
com empenho
buscando registros
de uma mesma pose
num outro local
com um novo sorriso igual.

Insaciáveis somos
em nossas nobres missões -
não de viver apenas
contentes com a condição de ser
humano, fraco -
mas de mostrar aos outros
infelizes, incapazes
foto a foto
nossa cega ascensão
em meio à queda.

Não há chagas no peito
evidenciadas
pelo retrato.
Não há marcas do passado
no olhar destinado ao retrato.
Não há sinal de maus tratos
na pose impávida
altiva, imaculada
previamente escolhida
estampada no retrato.

Imagem é tudo, dizem
os sábios, esclarecidos.
Sou fraco, admito, portanto
acato quieto.
Como um velho palhaço
num circo a desabar
dedico tamanho esforço
para manter a aparência
intacta
enquanto o tempo passa.

Me deixa tranquilo
pensar que os outros
não viram um momento,
não ouviram relatos
de um dia ele
sempre tão alegre
ter sofrido na vida
a dor de uma perda
a agonia do fracasso
a desilusão de um desamor.

Como a roda que move
a dança incerta da vida
a imagem fere quieta
não é esquecida
nos traz lembranças
queridas, abriga detalhes.
Mas carece cuidado
lidar com o registro
deveria ser eterno
precioso quando preciso.

30 de mar. de 2010

Pós-moderna interação

Não passava das duas
da tarde
perfilados em pé
três sujeitos
dois homens e uma mulher
esperavam o ônibus
parar
para então
desembarcarem.

Nos respectivos ouvidos
traziam fones
perfilados em pé
dois homens e uma mulher
sorriam
não se viam
lado a lado
apenas ouviam
a mesma piada
motivo da graça
compartilhada.

Fim da linha
descem os três
reto seguiu a mulher
dos homens
um foi à esquerda
outro pegou a direita
e seguiram sorrindo sós
cada um o seu caminho.

Atrás saiu o outro passageiro
iria ele registrar em versos
que os três sujeitos
homens e mulher
dividiam os mesmos gostos
até faziam os mesmos gestos
preferiam ser reclusos
no coletivo não pareciam muito
entusiastas por bater um papo
e agindo assim evidenciaram um fato
ignoravam todos a beleza

de sorrir também pelo sorriso mútuo.

24 de mar. de 2010

Rotina

Acordo preso ao sonho que passou,
o mesmo sempre, o de encontrar amor;
às frases belas que tentei dizer
e, sem sucesso, me deixaram só.

Saio à rua, tento espairecer,
me pega então uma lufada fria.
A manhã jovem embala o passo lento
e os bem-te-vis compõem a melodia.

Tenho comigo como companhia
tantas palavras do grande poeta
que alguém um dia em sutil desacato
ousou chamá-lo apenas poetinha.

O dia brindo então com uma canção
que já tratou da dor de tantos outros
e agora surge por entre sorrisos
no balbuciar quase calado, rouco:

"O amor
é um carinho
é um espinho
que não se vê em cada flor"

Hora do almoço, sento pra comer.
A refeição já não me desce bem.
Quem sabe a causa do mal apetite
seja essa ideia de querer alguém.

Passa a tarde, observo quieto.
Tomo um litro de café amargo
e atrás do trago de cada cigarro
busco encontrar Aquela poesia.

É noite já, mas como passa rápido
quando desejos tornam-se rotina,
não vi o pôr-do-sol, não ouvi a campainha
nem li a bula do medicamento.

Julgam-me louco, deram-me remédios.
E demoraram a achar um diagnóstico,
mas disse ao médico: "Curo-me tão fácil,
preciso mesmo é de um pouco de ócio".

Saio à rua, já não quero nada,
sigo esperando com os fiéis amigos
as incertezas da mãe madrugada.

A noite brindo com o amor do dia
que como toda treva percorrida
pode sumir ao clarear do sol.

8 de fev. de 2010

Unhas de porcelana

Cravadas nos dedos,
cobrindo feridas,
não escondem as chagas
da tua aflição.

As carnes corroídas sangram
por tantos problemas
marcados no peito
por causas pequenas.

Pela manhã confias
em tramas maiores;
à noite te deitas
sujeita a menores.

Falando do bem que quer
perdeste tua pouca graça;
te vejo esquecida, escorraçada,
de boca num banco de praça.

Do nada que restava
agora tudo se foi -
até o riso é frouxo,
aflito, rasgado.

Do mantra o lamento
calado, constante,
ressoa a agonia
por fiel namorado.

Pobre menina!
São os homens
a causa maior
de todo o teu mal.

Esperas demais
mas pouco ofereces
te perdes em preces
e esqueces o essencial.

Sua sina é ser puta
chamada piranha,
por mais que confundas
gozar com amor.

Unhas como essas, compreenda,
não escondem a loucura.

Sacie-se na dor dos outros, quem sabe,
ganharias mais.

Não escute meus conselhos, esteja certa,
são mudos e cegam-te o ser.

Chore mais uma vez,
minha querida,
àqueles que nego
reservo refúgio.

Não clame, não reze,
apenas aguarde,
por mais que ele tarde
o infinito o trará.

Chore mais uma vez,
minha querida,
por mais que ele tarde
um novo dia ainda virá.

22 de jan. de 2010

Compreensão

Lembro-me dos elogios,
alguns fracos, batidos,
todos de boa intenção;
claros na luz escura
exata à ilusão.

Toquei em sua pele,
palavras não leu,
dizia-se tímida, descrente,
talvez indisposta,
avessa à paixão.

- Não a culpo, sabes?

- Por quê?
- POR QUÊ?

Como digo: nada espero,
basta acontecer.
Vez ou outra anseio,
não escondo, sempre repito:
“A doce verdade
é simples viver”.

Nem tão sério,
um pouco triste,
faminto de sonhos,
caído de bruços
de olhos atentos,
exposto sempre.

- Venha aqui ouvir! Não me ignores!

Traga-me a vida,
dispenses a morte,
faça-me crer.
Venha e vá
mas não deixe
sozinhas, reclusas...

As dores do amor
de agora,
As luzes de outro
capaz outrora.
Talvez seja o tal, não é?
O último alento ao temor.

Vive-se só,
diz o contrário proposto.

Morre-se junto,
mostra o desejo oposto.

- Está bem.

Esqueça as graças, está bem?
Sim, foram todas sinceras,
mas cala-te agora,
não diga que não
só beije meu rosto,
deixe-me o coração.

7 de nov. de 2009

Das vontades

Eu quero sim
viver por muitos anos,
me condenar por não ter feito planos,
olhar pra trás e ver que mesmo por engano
tenha tomado sábias decisões.

Eu quero sim
encarar o amor verdadeiro,
buscar detrás do manto da mentira
toda pureza a mim tão prometida.

Eu quero sim é ser sincero
falar ao mundo aquilo que espero
de mim, dos outros,
de quem diz me entender.

Eu quero sim também ser triste
pois total felicidade só existe
na mente pobre que ignora o ser.
Não há contento, alívio, apenas em crer.

Eu quero mesmo é não querer mais nada
e que essa longa e quente madrugada
abafe as vozes de tanto querer.

6 de out. de 2009

Mi tango a Marcella

Si Marcella viste
Todos sus sueños desabar
Sin una razón
Ella assistiria mi desesperar

Si Marcella sonriestes
Cuando llorava a orar por usted
Mi pecho que sufres
No iba ruir como lo haces

Y Marcella dice
Vos solo nunca moriras
Intenta entenderlo
No te puedo amar

Llegam las lagrimas
Mis sentimientos, corazón
Miran que la vida
Sin ella és ilusión

Yo solo tomo
Noche y dia sin parar
Buscando em mis versos
Mi arrepentir a ser un idiota

Un loco...
Un loco...

Por una vez más

21 de ago. de 2009

Como vai a vida?

Ora, quem dirá?

Vou dizer.

Apenas vai,
de um jeito
ou de outro
apenas vai.

Às vezes
a mil,
às mil
maravilhas.

Às vezes
aos poucos,
devagar,
a fogo brando.

Mas a peça
certa
que nos prega
o destino
comum

é inegável,
é uma só.

Ao passo
do tempo,
na flor da idade
ou na beira
da senilidade,

completa
se esvai...

13 de jul. de 2009

Modéstia pouca

“Envaidecida por perfeita forma,
encabulada em pensamentos tolos,
diante de mim contemplo o que acredito
ser o resumo do belo infinito.”

Sorri sincera à sua imagem pura
de jovem dama embebida em doçura,
com gestos leves desliza faceira
a áurea escova em loura cabeleira.

“Acho até graça ao ver que meu reflexo
calado geme como sinfonia,
então só faz o que a ele cabe
e admira plena poesia.”

Mesmo o espelho treme inseguro
ao contemplar tamanha ousadia,
de um dia há pouco a jovem menina
se transformou numa grande vadia.

Lá fora sangram pesadelos da noite,
ressoam gritos de clemência ao longe,
junto ao uivar das desgraças da rua
formam o culto da vaidade nua.

Só mesmo débeis ignoram ela,
não fazem caso ao ondular de tranças.
Irá beber da fonte da tristeza
aquele que não se render à beleza.

20 de abr. de 2009

O verdadeiro poeta

Levante os pés
pra mim limpar,
disse-me o dono do bar.
E sua vassoura tremulou.

Deixe meus restos,
lhe respondi.
Ainda os recolherei
juntando ao pouco que me restará.

Pouco tens
se o que te sobra
são apenas versos
ordinários como esse,

respondeu.

E a ti o que restas?,
retruquei.
Um sorriso largo
mais um tanto de audácia?

Ora, aqui, nem conversa,
alegou.
Só faço hora
até o fim da noite.

Em confronto falou,
chatos como tu
consomem
o pouco que ainda tenho.

Seu sorriso foi
enquanto a mesa se desfez.
A cena nada durou,
um breve instante se passou.

Quando caí
depois da oitava dose
foi um único tapa
que me despertou.

Vamos lá, bote pra fora,
ouvi aos berros.
Vomite suas asneiras!
Porra, a essa hora!

Me resta ainda o lixo que os poetas deixam.

Devia ter filhos
e mulher
e muitos chatos
como eu, para suportar,

pensei.

Levantei.
Agradeci.
Me desculpei.
E caí pela saída.

Aquele era um cara que sabia das coisas.

30 de mar. de 2009

Uma vagal sugestão

Suando sob o sol de 37 graus,
sozinho e sem saúde,
pensei em suicídio.
E sucumbi ao torpor suave
que precede a dor.

Foi quando num sonho
um velho sábio, sutil me disse:
“Sossega e segura
o teu desespero.

Escute um conselho, uma sugestão:

Sessenta minutos de sesta
de segunda a sexta,
é esse o segredo
da sobrevivência.”

Assenti sem saber
se o que vi era um santo
ou se de santo
só tinha o encanto.

Desde então meu sono pós-rango é tranquilo.
Mas quem foi que me disse aquilo?
Satanás, pode ser.
Como vou saber?

Só sei que, hoje,
sereno suporto,
sorrindo sem situação,
sacrifícios sem sofrer.

Suponho ser feliz.