20 de abr. de 2010

Como velhos palhaços

Sorrisos rasgados
sempre iguais
foto a foto
em diferentes locais
as mesmas poses
todas artificiais
a favor da ilustre intenção
de mostrar às plateias
das redes sociais
que se é feliz.

Felicidade existe, sim
não se pode negar
paira por aí, até calada
em qualquer lugar.
Felicidade completa há
da luta ao êxito, na gratidão
de quem se quer tão bem.
Felicidade absoluta
ininterrupta
é desespero.

Jogo dos fracos
que rodam o mundo inteiro
correndo da morte
não para conhecer o estranho
mas por continuar
com empenho
buscando registros
de uma mesma pose
num outro local
com um novo sorriso igual.

Insaciáveis somos
em nossas nobres missões -
não de viver apenas
contentes com a condição de ser
humano, fraco -
mas de mostrar aos outros
infelizes, incapazes
foto a foto
nossa cega ascensão
em meio à queda.

Não há chagas no peito
evidenciadas
pelo retrato.
Não há marcas do passado
no olhar destinado ao retrato.
Não há sinal de maus tratos
na pose impávida
altiva, imaculada
previamente escolhida
estampada no retrato.

Imagem é tudo, dizem
os sábios, esclarecidos.
Sou fraco, admito, portanto
acato quieto.
Como um velho palhaço
num circo a desabar
dedico tamanho esforço
para manter a aparência
intacta
enquanto o tempo passa.

Me deixa tranquilo
pensar que os outros
não viram um momento,
não ouviram relatos
de um dia ele
sempre tão alegre
ter sofrido na vida
a dor de uma perda
a agonia do fracasso
a desilusão de um desamor.

Como a roda que move
a dança incerta da vida
a imagem fere quieta
não é esquecida
nos traz lembranças
queridas, abriga detalhes.
Mas carece cuidado
lidar com o registro
deveria ser eterno
precioso quando preciso.