Sonhei com certa moça
a desejar tão triste
um poema para si.
Para atender à sua vaidade,
à sua vontade de mulher
inconformada, me pediu.
Toda uma vida passada
olhou o passado e não viu
um fragmento de paixão
intensa,
uma ode,
uma sentença,
uma mera
declaração.
Dizia ela se sentir usada
por todos os homens
já provados, safados.
Dizia ela estar acostumada
ao desencanto do tempo
de uma relação não tida.
Dizia ela estar também cansada
de esperar e nunca ter
ninguém a quem pudesse sorrir.
E declarou, assim, meu bem:
Exponha seus versos pra mim.
Por favor... Por favor...
Não resisti ao quadro da dor
exposto em moça tão bela e
em frases mudas declamei.
Ouviu atenta.
Ao fim dos ditos
veio logo o veredicto:
Desconsolo no olhar.
Tentou sorrir sincera
ergueu o rosto
uma caverna
fria, nem sinal de comoção.
Um tanto orgulhosa
pegou sua bolsa,
sua manta
e foi-se embora.
...
Passam os anos
e ainda não a vi,
não voltou mais
ao embalar da noite.
Decerto soube de cara
que àquelas palavras
estavam mesmo
destinadas à outra.
Ou nem sequer gostou,
saiu por onde entrou
e comprovou-se então:
Não importa o rosto,
o desconsolo,
o desgosto,
são todas tão sentimentais,
mas basta um afago
malfeito em seus egos
com um cochicho,
com um berro ou sem um piu,
viram-lhe as costas
e não voltam mais
as belas moças desejosas
de amor que nunca existiu.
21 de mai. de 2010
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