24 de jan. de 2013

Pequenas causas

Herdou a calvície do pai, parece que a mãe tinha longos cabelos loiros. Durante os cinco meses em que estivemos juntos, ela nunca levantou a questão, nem mesmo fez uma breve referência. Juro que tentei entender.

Vi Regina pela primeira vez no ponto de ônibus. Chovia bastante e ela carregava uma daquelas cestas de rifa embrulhadas em plástico. Estava encharcada e tinha as longas mechas, as poucas que lhe restavam, coladas no rosto. Uma mulher que chama a atenção. Compleição muito atraente. Cintura fina, quadril largo, quase demais. Sabe-se que o tempo pode ser impiedoso com mulheres desse porte.

O ônibus chegou. Fui o último a embarcar.

Passei a roleta e examinei a disposição dos passageiros. Ela estava só, à janela. Quando me aproximei, pôs a cesta aos pés. Pedi licença e sentei ao seu lado. Era ela ou uma velha gorda no banco de trás. Sempre procuro dividir o assento com uma mulher, tento fazer o acaso jogar ao meu lado. E eu andava tão sozinho desde que chegara à cidade que mesmo na mais banal situação eu incitava o acaso. Não tinha muitos amigos e, mulheres, bom, as mulheres pareciam não se atrair mais por mim. Perdi um pouco do jeito nos quatro anos de namoro com Bianca.

Regina contemplava o cinza do céu, as gotas no vidro resistindo ao vento. Abaixei para desamarrar os cadarços. De esguelha, pude vê-la me espiando, o vestido branco de estampa florida colado às cochas.
 
“Bela cesta”, eu disse.

Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha. No topo da testa, pelinhos curtos me lembraram um pássaro deixando o ovo.

“Obrigada. Ganhei da firma.”

“Adoro os bombons, mas o espumante normalmente é uma merda”. Merda. Cochichei a palavra para mostrar um pouco de pudor. Não se fala merda a uma desconhecida.

Ela sorriu. Dentes impecáveis. Um pouco de batom nos incisivos. Do jeito que corou, imaginei que jamais alguém havia puxado conversa com ela no ônibus.

“Achei que era champanhe”, ela disse, revirando o conteúdo da cesta.

“Difícil, torça pra que não seja sidra.”

“Odeio panetone.”

“Eu também, mas minha mãe sempre me faz comer um pedaço na ceia.”

“Quer?”

“O quê?”

“Um bombom.”

“Não, não, obrigado”.

“Não falou que gostava? Pega!”

Ela abriu o plástico com cuidado e retirou um bombom. De chocolate branco, meu preferido.

“Regina”, ela disse.  

“Ricardo.”

 “Prazer”, dissemos juntos.

Regina estagiava num escritório de advocacia, cursava o último ano de Direito. Sonhava em ser juíza, mas sabia o quanto é difícil. Teria que estudar bastante e admitiu que não gostava muito dos livros. Ia acabar nas pequenas causas. Comeu um bombom também, apesar da dieta. Não conta pra ninguém. Cheirava a sabonete de bebê, hálito de menta. Falei que não precisava de dieta, que estava muito bem. Ela corou de novo, e agradeceu.

Sempre gostei de cabelos longos. Não que seja a primeira coisa que reparo numa mulher, prefiro as pernas. Mas quando me perguntam digo que são os olhos. Gosto dos olhos. E dos sorrisos. No fim é o que mais faz falta. Bianca adorava penteados extravagantes, coques, tranças e o escambau. Durante o sexo pedia que eu puxasse seu cabelo (usava sempre amarrado nesses momentos) e a chamasse de puta e outras coisas. Gritava. Um exagero. No início eu era muito novo e ficava envergonhado, mas acostumei, passei até a gostar. Ela era três anos mais velha que eu. Costumo me relacionar com mulheres mais velhas, não sei bem por quê. Talvez seja a rabugice. Elas estão mais preparadas.

Regina era um doce. Crescera no interior e sentia saudades de andar a cavalo no sítio de um tio que nem sabia se ainda estava vivo. Herdou do pai também os gostos por música popular brasileira e poesia. Não soube citar nenhum autor. Tocava piano, não muito bem. Tinha pouco tempo pra praticar desde o início da faculdade. Passava os momentos de folga na internet. Tornara-se dependente da tecnologia e isso a incomodava um pouco. Adorava cinema, em especial Almodóvar.

Pouco falei sobre mim, as mulheres gostam de ser ouvidas e eu gosto de ouvi-las. Em especial as que não reclamam muito. Os homens não, sempre querendo contar vantagem. Usam muitas gírias e gargalham por qualquer bobagem. A chuva lá fora aplacara. Nem vi o tempo passar.

“Desço na próxima”, avisou Regina.

“Já?”

“Já, já. Foi um prazer.”

“O prazer foi meu.”

Joguei as pernas para o lado e dei espaço. Só não levantei porque estava com uma leve ereção. Meia bomba. Era o cheiro, o contato das pernas e o movimento dos seus lábios. Roçou a bunda de leve no meu braço quando passou. Regina parou ao meu lado, em pé no corredor. Subi pelo vestido branco e molhado, passei pelos seios e pela primeira vez reparei nos olhos cor de mel. O ônibus sacolejava.

“Espero que seja espumante”, ela disse, e estendeu a mão.

“Espero também... Pelo teu bem.”

Ela concordou com a cabeça e se dirigiu à saída. Por alguns segundos observei seu dorso, as nádegas firmes debaixo daquele vestido, as pernas fortes mas femininas. Da porta, me lançou um último e tímido olhar e sorriu. Foi como um estalo. Rabisquei meu número num bloco que levo no bolso e fiz um sinal para que se aproximasse.

Levantei meio encurvado, empinando a bunda, e entreguei o papel a ela. Um P.S. abaixo dizia, “me dê um toque que eu te ligo.” Que galante.

Quando o ônibus arrancou pude vê-la seguindo pela calçada. A cesta na mão esquerda, o bilhete na direita. Seu assento ainda estava quente. Não pude ver sua expressão, só o topo da cabeça, a imagem do passarinho. Aposto que sorriu. Deve ser duro para uma mulher perder cabelo. Me perguntei se estava doente, era o mais plausível. Aquela visão dela se afastando, o bilhete firme na mão, me despertou uma ternura quase comovente.

À noite, recebi uma mensagem no celular. “Espumante e importado, meu pai disse que dos bons. Tem planos pra sexta? Prometo guardar bombons.”

Sugeri um bar próximo à minha casa, local reservado e elegante. Barato também. O escritório devia estar faturando bem para dar espumante importado aos funcionários.

Regina chegou um pouco atrasada. Eu esperava escorado no balcão, tomando uma cerveja, tentando parecer um pouco patife, um patife de bons modos. Estava muito bonita. Na cabeça um lenço preto como faixa, discreto, nem se percebia nada. Vestido também preto, com um decote generoso. Me beijou na bochecha e pediu desculpas pela demora. Quê isso... Ofereci um drink. Ela disse que ia de cerveja também e que tinha um pouquinho de fome. Brindamos à sexta-feira. Acordara com desejo de pizza, será que tem? Não só tinha como era a opção mais barata do cardápio. Eu andava mal de grana. Ela também preferia o balcão. Cruzou as pernas e observou o ambiente. Móveis rústicos, tijolos de demolição, mesas reservadas. Abstrato de bom gosto nas paredes. Gosto da luz. Não parecia tão tímida quanto no ônibus. Disse a ela que tinha belas pernas, talvez as melhores que eu já tinha visto. Ela agradeceu e, um tanto encabulada, replicou: “passo creme toda noite antes de dormir”.

Comemos ali mesmo no balcão e seguimos com a cerveja. Um trio de teclado, guitarra e bateria começou a tocar alguns clássicos do rock e ela me convidou para dançar. Resisti um pouco, mas não precisou de muito esforço para me convencer e acabamos dançando até o fim do show. Insinuava-se apenas, sem me tocar. Movia-se devagar, ombros, pescoço e quadril; jogava a cabeça para trás e fechava os olhos. Parecia em transe nas melodias mais lentas. Eu já estava um pouco alto por causa da cerveja e me movimentava o mínimo possível. Não queria fazer papel de bobo.

Deixamos o bar antes das duas da manhã. Regina comentou que desde o baile de formatura do colégio não sentia os pés tão cansados. Era uma sensação muito boa. Elogiei seus pés e fiz questão de carregar os seus sapatos enquanto andávamos pelo quarteirão, dividindo um cigarro e contemplando a lua cheia, tão próxima naquela noite. Era uma noite amena de verão e o único som audível era o zunido dos postes de luz. Segurei a sua mão e propus que fôssemos ao meu apartamento, a dois quarteirões dali. Achou melhor deixar para a próxima, estava cansada e tinha aula na manhã seguinte. E aquela conversa de mais um drink (juro que eu falava em "drinks", sou um tanto antiquado) não a enganava. Não insisti muito, só o suficiente para atestar minha vontade. Prometo me comportar. Disse que estava muito cansada e tinha aula na manhã seguinte.

Chamei um táxi. Agradeci pela companhia e ela sugeriu que repetíssemos. “Pode ser amanhã?”, brinquei. Regina sorriu, colocou a mão no meu peito e disse com a voz mais doce: “deixa que eu te ligo”. Então nos beijamos. Era uma noite clara de lua cheia e não se ouvia os barulhos do trânsito nem o burburinho das pessoas. Envolvi sua cintura e fiz com que nossos corpos se aproximassem.

O táxi chegou e parou à nossa frente. O motorista abriu a porta de trás. Regina sorriu uma última vez e me deu mais um beijo.

“Te ligo”, repetiu, e me empurrou devagarinho.

Estava pronta para embarcar quando a chamei: “Regina!”

Ela se virou.

“Os teus sapatos.”

Transamos no terceiro encontro, sem contar o do ônibus. Foi no meu quarto, à meia luz. Pediu que eu usasse preservativo e negou o sexo oral que me prontifiquei para praticar. Gosto de dar prazer às mulheres e é raro eu fazê-las gozar com penetração. Acho que me falta diâmetro. Disse que não, que me queria dentro dela. Veio por cima e se entregou, gemendo baixinho no meu ouvido. Corpo espetacular, sem estrias e quase nada de celulite. Bicos dos seios rosados, bastante pelo no púbis, como eu gosto. Não pediu que eu batesse nela, muito menos que puxasse os seus cabelos. Aliás, passei a evitar qualquer assunto relativo durante o nosso relacionamento. Comecei até a usar um boné velho que pertenceu ao meu avô.

Cada vez nos encontrávamos com mais frequência. Aos sábados íamos ao cinema. Regina não gostava de blockbusters, o que era bom, assim evitávamos os shoppings centers. Após o filme beliscávamos algo e ela ia para casa, de ônibus. Sábado era sagrado, era a noite em que fazia companhia ao pai. Assistiam à televisão ou jogavam canastra até tarde ou apenas conversavam. Quando certo dia insisti que deixasse o pai sozinho e dormisse comigo, pediu compreensão e explicou que a morte da mãe lhe impusera algumas responsabilidades familiares. Era bom que eu entendesse. Talvez eu pudesse a acompanhar uma hora dessas. Vamos ver, eu dizia, vamos ver. Dormia no meu apartamento às quintas, a única noite em que não tinha aula. Gostava de transar no tapete da sala, a janela entreaberta para que os vizinhos pudessem espiar. Adormecia com a cabeça no meu peito e dizia se sentir mais mulher comigo. Eu a observava dormir e acariciava a sua cabeça, examinando com cuidado o couro cabeludo.

Numa dessas quintas fomos ao supermercado comprar os ingredientes para uma galinha escabelada que ela queria fazer. Chamava de fricassê. Estávamos na fila do caixa, de beijinhos e sorrisos, quando vi dois dos meus colegas de trabalho se aproximando. Marcos, o gerente da loja, e Antônio Carlos, o segurança figurão que todo mundo adorava.

Fiquei desconcertado. Eu já era visto como esquisito por ser muito quieto e comer minha quentinha sozinho na hora do almoço. Fingi surpresa ao ler uma manchete na capa de uma daquelas revistas de fofoca e me agachei. Fiquei ali, de cócoras, folhando a revista. Regina perguntou o que tinha chamado a minha atenção. Não sabia que eu gostava desse tipo de revista. Bobagem, eu disse, um minuto. Atrás de nós estava um senhor com café solúvel e um cacho de bananas na cesta e uma mulher com o carrinho cheio de fraldas. Eles, Marcos e Antônio Carlos, pararam no fim da fila.

O casal da frente esperava a nota e Regina já tinha soltado o peito de frango na esteira. Pediu que eu levantasse e que, oras, se te interessa tanto, leva a tal revista. É feio ficar folhando e não comprar. Levantei, teso, sem olhar para trás. Não sou nada bom em dissimular. Senti cutucarem meu ombro. Acho que mesmo de costas sou caricato. Magro, um pouco encurvado e muito alto. O pescoço parece o de uma marreca, como dizia minha avó.

“E aí, cara!”, disse Marcos, com as duas mãos espalmadas na frente do corpo. Não sei se esperava que eu batesse, como em uma saudação de garotas do colegial.

“Marcos. Tudo bem?”

“Tudo certo, viemos comprar uma cervejinha.” Antônio Carlos, pouco mais atrás, exibiu orgulhoso o fardo de 12 latas. Tinha duas toras como braços, o colarinho mal fechava no pescoço.

“Maravilha”, eu disse.

Regina passou o frango. Mesmo de costas para ela eu tinha certeza que olhava para eles e sorria.

“O que você vai fazer no sábado?”, perguntou Marcos.

“Não sei...”

“Vamos a uma festa no Jockey, não quer ir? Vai todo mundo da loja, até o Baltazar!” Baltazar era o funcionário mais antigo, trabalhava no setor administrativo e era sempre o primeiro a chegar. Já tinha seus 60 anos. Gosto do Baltazar, ele conta umas boas histórias.

“Não sei...”

“Pode levar um amigo, ou uma amiga”, disse, indicando Regina com a cabeça e piscando um olho.

“Ah, Regina, Marcos. Marcos, Regina. E ele é o Antônio.” Marcos apertou a mão de Regina, o mesmo sorriso adorável que lançava aos clientes insatisfeitos. Grandessíssimo puxa saco. Antônio Carlos fez o mesmo movimento de antes com as cervejas. Era um cara simpático, simpático até demais.

“Amanhã a gente conversa no trabalho, tenho um compromisso sábado, mas talvez eu possa desmarcar.”

“Beleza”, ele disse.

Regina fez questão de pagar a conta. Levamos a revista.

Enquanto saíamos, ela perguntou qual seria o meu compromisso no sábado. Disse que nenhum, fora só uma desculpa.

Não falamos nada durante o jantar. O frango escabelado não estava muito bom e naquela noite, pela primeira vez, ela não adormeceu no meu peito.  

Marcos me falou no dia seguinte que eu tinha uma namorada muito bonita. Disse que ela NÃO era minha namorada e que NÃO, não poderia ir à festa sábado. Ajudaria a vizinha com um ventilador de teto, uma senhora do andar de cima. Antônio Carlos, o brutamontes, passou a sorrir sempre que me via.

Acho que foi no terceiro mês que as perguntas começaram, logo após o episódio do supermercado. Por que não me apresenta aos teus amigos? Não tenho amigos, eu respondia. Ela não acreditava. Outras mulheres frequentam a tua casa? Não, a não ser Janice, a faxineira, uma vez por mês. E a tua família? Por que nunca fala deles? Moram longe e não tenho muito o que dizer. Meu pai me odeia e minha mãe é uma dondoca que só pensa em jantares chiques e roupas caras. São divorciados há mais de dez anos. Sou filho único, o que mais quer saber? Ela ficava quieta e evasiva. Por que teu pai te odeia?

Não sou de falar muito. Como já disse, gosto mais de ouvir. E Regina falava quase tudo sobre si. Sentia muita falta da mãe, a pessoa mais linda - “por dentro e por fora” - que já conhecera. Coração enorme, tão grande que não resistiu ao segundo enfarto. Há anos não via o único irmão, transferido para o Rio de Janeiro pela empresa de eletrônicos que administrava. Perdeu a virgindade aos 19 anos com um namorado dois anos mais velho, estudante de Engenharia que conhecera no campus. A única vez que sentira algo parecido com amor. Não gostava de esportes, só natação, que praticou durante três anos. Chegou a competir. A escolha por Direito foi um pouco de influência do pai, mas acabou se acostumando e agora até gostava. Falava das aulas, dos filmes que já tinha visto, do trabalho - e como um cara que trabalhava com ela realmente a incomodava -, do pai, de vida e morte. Falava sobre quase tudo, mas nunca sobre a calvície.

Não demorou para que deixássemos de ir ao cinema. Ela estava muito ocupada com os estudos e era cada vez mais exigida pela firma. Tinha também o trabalho de conclusão de curso. Nossos encontros se restringiram às quintas, no meu apartamento. Nos outros dias, falávamos por telefone, para saber se estava tudo bem e desejar boa noite. Eu sentia um pouco de saudades, é claro, mas por um lado era muito conveniente. Podia me dedicar às minhas coisas e quando nos víamos era sempre muito agradável. Não demorou também para que as perguntas cessassem e tudo voltasse ao normal, como nos primeiros dias. Dávamos boas risadas, o sexo era ótimo e ela ainda cozinhava para mim. Repetiu a galinha escabelada e daquela vez acertou. Regina gostava de vinho e cerveja e não se importava que eu fumasse. Dizia que lembrava o cheiro do seu falecido avô.

Eu estava apaixonado por ela, essa era a verdade.

Mas seu silêncio quanto à calvície me intrigava. Com Bianca também, eu nunca conseguia me abrir ou interpela-la ou expor aspectos que me incomodavam. Pensei em dar um lenço a Regina, e fico um pouco envergonhado em admitir que no princípio achei a ideia genial. Não sabia como introduzir o assunto. Sou um covarde. Com Bianca, minha introspecção acabou se tornando recíproca e enfim consumiu todo o amor. Sobrou apenas desconfiança e ressentimento. Eu tinha que perguntar. Sabe, é a velha história do curativo, deve-se arrancar com um puxão rápido. Só que o curativo fora posto há mais de quatro meses, um puxão rápido traria junto um pedaço da pele.

Listava na minha cabeça todas as suas qualidades, eram muitas. Tentava racionalizar. De que importam os cabelos – “acessórios” inúteis da constituição física, mero artifício estético - se tenho seu carinho? Não sou uma pessoa pública, minha imagem não vale nada, não preciso de uma figura imaculada ao meu lado. Não devo nada a ninguém. Mas nós, homens, somos grandes filhos da puta. Não conseguia me imaginar vivendo com uma mulher calva. Pior, uma mulher que não assumia a calvície. Ainda se eu a tivesse conhecido antes... Não era melhor raspar de uma vez? Se apegava a cada fio! Meus amigos ririam pelas minhas costas, minha família até fingiria não ver, mas seria assunto dos almoços de domingo em que eu não estivesse presente. Futriqueiros do jeito que são. E como as outras mulheres iriam me olhar na rua? O orgulho de um homem é foda. Ou eu encarava as perguntas e assumia a nossa relação, ou deixava de vê-la.

Foi quando procurei Honorífico, pai de Regina. Já tinha ouvido falar em Amador, Hilário e até Tristão, mas Honorífico era novo para mim. Desci no mesmo ponto em que Regina desceu naquela primeira vez em que conversamos e procurei por uma rua sem saída, e depois pela casa de dois pisos com uma pitangueira na frente. Toquei a campainha e ouvi os cães da vizinhança ladrarem. Não tinha a mínima ideia do que iria dizer. Não tinha certeza se era a casa certa.

Um homem de rosto severo me espiou pela janelinha da porta.

“Seu Honorífico?”

“Sim...”

“Roberto, namorado de sua filha.”

Sem responder, fechou a janelinha e abriu a porta. Parecia desconfiado.

Alto, encovado, sequer um fio de cabelo na cabeça, Honorífico usava sapatos muito bem engraxados e calça de risca de giz. Devia recém ter chegado do trabalho. Alguns botões da camisa estavam desabotoados e deixavam à mostra os tufos de pelos grisalhos do peito. Por algum motivo lembrei que os primeiros pelos do meu corpo demoraram muito a crescer. Tive uma puberdade tardia e isso, na época, me causava embaraço entre os amigos. Os meninos se orgulham dessas coisas, assim como as meninas se orgulham dos seios incipientes e acabam usando sutiã muito antes do necessário.

Honorífico apertou minha mão com muita força, uma saudação demorada e desafiadora. Me convidou para entrar e pediu que eu sentasse no sofá. Ofereceu uma bebida, que recusei. Serviu-se de uísque, Natu Nobilis quase até o beiço. Olhava dentro dos meus olhos o tempo todo.

“Desculpe aparecer sem avisar.”

“Imagina, estava ansioso para conhecê-lo, rapaz. Regina falou muito de você.”

“Espero que bem, seu Honorífico.”

“Apenas Honorífico, por favor, dispenso o seu.”

“Certo. Honorífico. Bonito nome, aliás.”

“Não seja cínico, rapaz, é horrível.”

“Digo, diferente... Me soa bem.”

“Brincadeira, meu filho, não fique nervoso.”

Incômodas essas entrevistas. Senti que o suor das minhas mãos pingaria no carpete.

“Imagino que tenha vindo falar de Regina.”

“Sim, inclusive desculpa por não ter vindo antes, eu sou...”

“Por que está com a minha filha?”, inquiriu.

“Por quê? Hmm, ora, seu Honorífico...”

“Honorífico.”

“Honorífico. Eu e a Regina temos nos dado muito bem, não tem exatamente um porquê.”

“Você é um rapaz bonito.”

“Obrigado, sua filha também.”

“Sim, a menina mais linda que já vi.”

“Digo o mesmo.”

O silêncio. Um antigo relógio de pêndulo soou nove vezes. Meu coração batia na garganta. Devia ter preparado um breve discurso, talvez até ter ensaiado à frente do espelho. Honorífico tomou um generoso gole e apoiou um dos cotovelos na perna.

“Vou ser direto, Ricardo, a última coisa que quero é que alguém magoe a minha filha.”

“Não se...”

“Deixa eu terminar?”

“Desculpa.”

Honorífico respirou fundo para retomar o raciocínio.

“A Regina tem passado por muita coisa desde que a mãe morreu e não precisamos de mais tristeza nessa casa. A gente tenta levar uma vida tranquila, conversar bastante, fazer companhia um ao outro. Mas sei que a vida segue e ela ainda é muito jovem. Eu me viro, já sou velho... Posso dar conta da solidão. Tem seu lado bom, sabe? Passei quarenta e três anos casado. Qua-ren-ta e três. Sabe o que é isso? Quantos anos você tem?”

“Vinte e cinco.”

“Com vinte e cinco eu já tinha filho pra sustentar, trabalhava doze horas por dia, de segunda a sábado.
Quando eu tinha a sua idade, Ricardo, eu já tinha uma hérnia e pagava prestação da casa e do carro.”

“Desculpa, Honorífico, eu não quero...”

“Não tem que pedir desculpas.” Tomou outro largo gole.

 “Eu que peço desculpas”, ele disse, tentando se acalmar. “Você parece um bom rapaz. Não quero lhe dar lição de moral nem nada, cada um aprende com os próprios erros.”

Tentei não desviar os olhos dos dele. Olhos pretos, tão pretos que não se distinguia a pupila.

Tomei fôlego.

“Tenho uma pergunta a lhe fazer... Não leve a mal, por favor, é algo que não consigo falar com a Regina.”

“Já sei”, disse ele.

“Sabe?”

“Sim.”

Honorífico coçava o queixo enquanto encarava uma almofada no sofá. Procurava pelas palavras adequadas. Então sorriu como se tivesse feito uma descoberta óbvia, voltou a me encarar, baixou um pouco a cabeça e passou a mão na própria careca.

“Isso!”, exclamei, excitado além do ponto. Tentei me recompor me arrependendo de não ter aceitado a bebida.

“Ela nunca me fala sobre isso, acho que tem vergonha e sabe... Acabo ficando com vergonha também, de perguntar. Por acaso ela está doente?”

“Não, graças a Deus não.”

Vou ser sincero, no fundo eu esperava que ela estivesse mesmo doente.

“É a genética”, disse Honorífico, a voz aguda de repente. “Na minha família todo mundo, todo mundo era calvo, meu pai não tinha um fio de cabelo com vinte e poucos anos, e eu também não! E minha mãe, que Deus a tenha, também não tinha muito.”

“E isso não tem cura?”

“Cura?”, ele debochou. “Existem tratamentos, transplantes, mas são processos caros e muitas vezes dolorosos.”

“Entendo.”

“Se realmente gosta da Regina, é bom que entenda. É muito difícil pra ela lidar com isso, faz terapia há dois anos, desde que começamos a notar a queda. Dava para ver principalmente no box e no travesseiro. Desde então só piorou. Chegou a usar perucas, mas tanto eu como o psicólogo aconselhamos que o melhor a fazer era aceitar. E tratar, claro, conforme dá. Ela chorava, me perguntava como iria arranjar um namorado daquele jeito, chegou até a falar em suicídio, que Deus me perdoe.” Quando falava em Deus, lançava olhares para o teto e jogava para o alto a mão que não segurava o copo.

 “É muito doloroso pra ela, é muito vaidosa”, concluiu.

“Como todas as mulheres”, eu disse.

Quando as palavras deixaram minha boca percebi a ambiguidade da frase. Achei engraçado tê-las dito, sem querer e naquela situação, frente a frente como meu recém-conhecido sogro. Honorífico não percebeu e seguiu, mas eu já não o ouvia mais. Dediquei todo esforço mental para tentar segurar o sorrisinho bobo que insistia em aparecer no meu rosto. Imbecil.

“... pinga umas gotas e massageia e isso freia um pouco a queda. Tem um monte de chapéus, usa lenços como já deve ter visto... Eu disse algo engraçado?”

“Não, não, seu Honorífico, só estou pensando aqui. Ela já deveria ter me contado, sabe? Eu entendo, entendo mesmo. Esse não é um empecilho pra mim, gosto da sua filha como ela é. Seu Honorífico... Honorífico. Estou apaixonado pela sua filha.”

O velho sorriu e pôs uma mão no meu rosto. Achei que fosse me beijar, como nos filmes de máfia. Mas não, me lançou apenas aquele olhar no fundo dos olhos. Quase lhe escorreu uma lágrima. Então foi ao bar e serviu duas doses. Estava orgulhoso. Esticou um dos copos para mim.

“Sabe, meu filho, isso tem sido muito difícil pra ela. Toda a situação, a morte da mãe, a perda de cabelo. Mas de um mês pra cá está muito melhor, dá para notar nos olhos. Acho que você tem feito bem pra ela.”

“Espero que sim, Honorífico.”

Acho que ele estava um pouco bêbado. Ficava me olhando fixo e parecia que a qualquer instante cairia no choro.

“Mas me conte,” falou para espantar a emoção, “quais são os planos de vocês para o final de semana? E falando nisso, sabe onde está a Regina?”

“Na aula.”

“Não, não, ela não tem aula na sexta.”

“Tem sim, seu Honorífico.”

“Não, não, e me chame de Honorífico, rapaz, se vamos conviver e melhor que se acostume.”

“O senhor tem certeza?”

“Absoluta. Achei que ela estava contigo, inclusive. Disse que não vinha pra casa hoje.”

Como assim não iria para casa?

“Bom, eu ligo pra ela”, falei. “Acho que estou me confundindo. Se não me engano, ela comentou mesmo algo sobre um coquetel do trabalho e que depois iria lá pra casa.”

Comentou nada, só não queria seu Honorífico envolvido. Me despedi dele e saí de lá muito confuso.

Regina não atendeu o celular. Mandou uma mensagem logo depois: “Estou na aula.” Cadela.

Me ligou por volta das onze e disse que estava no ônibus, indo pra casa. Não se ouvia o tráfego. Perguntei se não queria ir lá pra casa, ou se podíamos nos encontrar em algum lugar. Tinha que falar com ela. Ela disse que já era tarde e mais, estava a caminho de casa. Será que eu esquecera que ela tinha aula também no sábado de manhã?

“Bom, falamos outra hora então.”

“Tá. Tá tudo bem contigo?”, ela perguntou.

“Sim.”

“O que acha de darmos uma volta no parque, domingo? Também tenho que conversar contigo.”

“Vamos ver...”

“Tá tudo bem mesmo?”

“Sim.”

“Saudades de ti”, ela disse baixinho.

Eu disse que sentia saudades também, e desliguei.

Passei o final de semana inteiro em casa, só saí para comprar cigarros e mais cerveja. No domingo à tarde ela me ligou, mas não atendi. À noite ela mandou uma mensagem. “Sinto muito, mas posso explicar. Me liga quando estiver afim.”

Não liguei, aleguei indisposição ao Marcos e a segui durante a semana. Descobri que a careca vagabunda estava me traindo com um dos advogados do escritório, homem casado que atuava com pequenas causas. De longe, vi os dois num estacionamento. Estavam animados, conversado bem próximos. Entraram juntos no carro dele. Ela usava a mesma faixa do nosso primeiro encontro e carregava um buquê de flores. De certo foram para um motel barato no centro da cidade. Regina já tinha me falado dele algumas vezes, o tal que a perturbava. Ademir. Só podia ser ele. Dizia que era um ótimo profissional embora a “aporrinhasse” o tempo todo. Tinha ótimas histórias jurídicas e estava lhe dando “uma forcinha” com o trabalho de conclusão. Ótimo.

Não vou dizer que não chorei, principalmente à noite, sozinho em casa. Às vezes ainda desperto no meio da madrugada com a visão daqueles olhos cor de mel.

Regina até me procurou. Mandou mensagens no celular, e-mails, deixou uma carta na caixa de correspondência implorando para que pelo menos conversássemos. Disse que tinha uma explicação por ter mentido sobre as aulas. Eu queria perdoa-la, queria mesmo, esclarecer tudo, dizer que também errei me mantendo tão fechado e tão distante. Mas o orgulho de um homem é foda. Uma vez liguei de um telefone público só para ouvir a sua voz.

Dia desses vi uma mulher na rua muito parecida com ela. A mesma compleição, o mesmo sorriso. Até o vestido era semelhante àquele que usava na primeira vez em que a vi, no ponto de ônibus. Diferente eram os cabelos, cacheados e loiros, estilo Marilyn Monroe.

Talvez o filho da puta do advogado tenha pagado a ela um transplante.

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