21 de dez. de 2008

A nau dos condenados


The human race was dyin´ out
No one left to scream and shout
People walkin´ on the moooon
Smog will get you pretty soon

“Caralho”, murmurei enquanto desativava o despertador do meu celular. Acordei atordoado com a música invadindo meus sonhos. Minha escolha. Essa é uma das vantagens do tempo em que vivemos, podemos escolher o som que nos desperta. Optei por algo que me lembrasse, a cada nova manhã, do nosso destino miserável. Jim Morrison estava certo, a humanidade estava mesmo morrendo. Mas a todos restou uma única chance, um bilhete de embarque para a imensa nau tomada por tolos e desesperados. Há tempos entrei. Tomei um lugar privilegiado à força de um maldito doutor que me olhava desconfiado. Aquele filho da puta. Agora contemplo, inatingível, toda extensão em minha frente. Imóvel como os outros tripulantes. Impotente frente ao mar de mentiras em que navegamos.

Mas somos todos felizes. Cantos alegres embalam nosso eterno percurso. Não temos para onde fugir. Esse é o maior consolo e o motivo pelo qual continuamos em frente a um vazio infinito. Aquele é nosso refúgio. Inevitável. Por mais que o mar revolte-se contra nós, a maioria irá resistir. Alguns tombam. Outros se fortalecem. Mas o oceano continuará levando nossos ilustres tripulantes. Há como sobreviver em alto mar. Sim, o sucesso encontra-se lá, assim como muitas outras coisas que despertam a ambição de meus companheiros. Em momentos de calmaria decido nadar um pouco. Algumas braçadas sem direção exata. Apenas por prazer. Sinto-me bem fazendo isso. A grande nau torna-se cansativa às vezes. Mas sempre decido voltar a ela. Nunca procurei por nada. Muito menos encontrei. Mas quem sabe algum dia ache alguma coisa. Em meio àquilo? Daí sim eu estaria mesmo fodido.

Minha cabeça latejava e meu cérebro contorcia-se, gritando por alívio. A garrafa de rum, vazia ao lado, lembrou-me que eu era um marinheiro cansado daquela viagem ingrata. Levantei. Vestia apenas uma cueca velha, muito confortável por sinal. Ótima para dormir. Decidi que não iria trabalhar. O dia não estava bom para um mergulho e todo meu corpo doía.

- Alô, Claudia. Não estou me sentindo muito bem. Acho que foi uma pizza que comi ontem à noite. Passei a madrugada sentado no vaso. É, isso, não estou me sentindo bem. Pode ser uma intoxicação alimentar. Vou ao hospital tomar um soro na veia. Pode ser que assim eu melhore.

- Da onde que tu chamaste a pizza?

- De um tal de Didi Lanches. Era a maior e mais barata. Tava bem boa. Acho que foi esse o problema. Comi demais.

- Está bem. Amanhã a gente conversa. Melhoras.

- Obrigado.

Uma boa mulher, a Claudia. Um tanto estressada, isso sim. Mas mesmo assim uma boa mulher.


Um comentário:

ferrolho disse...

É isso aí meu bruxo, liberdade de expressã!
Passar a nossa visão doida desse mundo doido pra quem não é doido entender como o mundo é doido.. hehe
porque só pensar não muda nada. abraço