Trabalhar para esse sistema é perder a alma. Não, obrigado! Que proveito tira o homem que ganha o mundo todo e perde sua própria alma?
John Fante
Queria eu, nesse último dia de trabalho, escrever sobre alguma coisa pertinente. Mas nada guardo além do conhecimento técnico que, provavelmente, poderia ter adquirido em casa entre uma cagada e outra. O dinheiro nos submete a tantas coisas. Uma mísera quantia nos faz perder um pedaço da alma. “Por quê?” – é bem provável que tenha me perguntado aos 14, 15 ou 16 anos.
Passei mais de oito meses nesse escritório, localizado num centro comercial tomado por advogados pedantes e magnatas ranzinzas. Garanto que tive alguns dias bons. Outros meramente válidos. Mas, na grande maioria, minha jornada diária de seis horas em frente ao computador não me fez muito bem. Esse é o saldo final: um lamento desgostoso. Escrevi sobre moda e comportamento. Eu, um largado alheio a qualquer onda de consumo ou tendência absurda. Planejei textos institucionais metendo mentiras entre aspas e dedicando-as a um cirurgião plástico canastrão, ou a um dentista, ou a qualquer outro que não sabia definir seu exercício e recorria a nossa agência.
Passei a acreditar na mentira que minhas próprias palavras podiam dizer. Antes, me julgava um homem repleto de princípios e ideais. Nunca pretendi iludir ninguém, mas, duvido muito, que ao longo desse tempo não o tenha feito. Evitei, sempre, mas tudo que produzi passou sempre por uma edição que acabava por distorcer a essência almejada. Pior ainda assim, atuei no escuro, pelo bastidor escroto da propaganda. Não vou generalizar, devo ter rasgado elogios verdadeiros a algum médico estúpido só por admirar o seu currículo. Espero me redimir com esse desabafo. Mas todos sabemos que não será dessa forma.
Fiz bons amigos, alguns verdadeiros, como o compadre Raoni. Dei boas risadas com meu chefe, um figurão sem coração que certamente acredita que só patrimônio constrói amor verdadeiro. Falava com propriedade sobre tudo, meu chefe. Vai ver em algo ele estava certo. Hoje saio, sem dinheiro, sem futuro, mas com algumas certezas. Uma, o planejamento em comunicação é uma farsa, mas uma boa alternativa de renda para aqueles que não acreditam em um mundo justo. Outra, a internet é um meio frio e desvirtua mentes criativas. Indico humildemente o amor aos livros, a exposição restrita revela uma verdade mais sincera, já que a absoluta é um mito. Ah, mais uma, e por ora a última, constatei consternado que palavras são ótimas mercadorias. Isso é triste.
As melhores lembranças que guardarei serão da sacada, onde, junto com uma colega minha maluca, fumei tantos cigarros que acabei preenchendo com fumaça o tamanho vazio desse ambiente sórdido. Até algumas flores surgiram espontâneas para contemplar aquele espetáculo bizarro. Preferiram crescer em meio ao tabaco que ao adubo expelido pelas janelas.
Sigo agora o conselho de um dos meus maiores ídolos literários, Gabriel Garcia Marquez, viverei da forma certa, cantando à noite e dormindo de dia. Questão de tempo para voltar à merda. Basta uma oferta melhor. Pelo menos admito a falta de escrúpulos da vida. Todos precisam bem viver. Ainda me mando pro meio do mato em busca da redenção. Enquanto isso...
It’s all business my friend.

Um comentário:
Mateee
demais esse texro, adorei mesmo..
parabéns!!!
tu é foda né..
beijao querido
fabi
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