Parte da minha infância morei próximo ao Cemitério Municipal de Caxias do Sul, numa espécie de cortiço de casas individuais, onde viviam também meus avós paternos, algumas tias e inquilinos, que iam e vinham. Meus pais trabalhavam o dia inteiro e, no turno em que não estava na escola ou nas ruas, tinha minha avó como guardiã. Vez ou outra acompanhava seu roteiro de beata quase cotidiano: missa, “o terço”, velório e enterro.
Na missa eu era amigo do padre. Observava embasbacado o juízo final pintado no teto da igreja por Aldo Locatelli. No terço compartilhado arriscava minhas ave-marias para não me entediar. Era uma criança calma. Sempre ganhava doces e agora quase sinto o cheiro de alfazema. Lembro que num velório questionei minha avó sobre a identidade do defunto, mãos em cruz sobre o peito e um estranho sorriso no rosto. Pesarosa e com lágrimas nos olhos, ela cutucou a senhora ao lado, que cutucou a outra e assim se sucedeu até que voltou a resposta. Era irmão da falecida Fulana. Um homem bom, pobre filho de Deus. Tão novo!
Seguíamos em procissão ao cemitério, eu - com meus sete, oitos anos - e as velhinhas. Uma ladainha em dialeto vêneto ou latim ecoava entre os mausoléus. Na minha memória sempre chove. A comitiva respondia estridente, em uníssono. Todas trajavam vestes escuras. Por entre as ruelas sinuosas da cidade dos mortos eu me perdia. Procurava por túmulos de crianças. A passo lento observava as datas nas lápides, fascinado. Quem sabe encontraria, por acaso, um nascimento análogo ao meu e a data de óbito surgiria como presságio da minha. Nunca quis encontrar.
Cálculos rápidos me revelavam a idade aproximada. Seis, sete, 12 anos. Crianças sorridentes como eu engavetadas ou atiradas sem dó sob uma pedra fria, que de certo saíram para um mero enterro com a avó e por lá ficaram. Algumas nem chegavam a um ano, outras duravam apenas dias ou horas. E todas as suas memórias estavam ali, resumidas por um nome ao qual mal se acostumaram e pelo breve intervalo entre a estrela e a cruz. Descansem em paz.
Minha mãe ficava louca ao saber das nossas macabras incursões. Mal sabia ela que minha avó, sem querer, me preparava para encarar a morte como o destino comum entre todos, o inevitável.
Cresci, dei as costas à igreja e só fui voltar ao cemitério dez anos depois, mais, para engavetar meu pai. As ruas pareciam ainda mais estreitas mas o ambiente, embora pesado, tinha algo de acolhedor. Um ano se passou, morreu minha avó. Seguimos em comitiva para sua derradeira cerimônia fúnebre, da qual dessa vez era protagonista. Já não havia velhinhas entoando cânticos sacros e as crianças já não me interessavam mais.
Agora, o que isso tem a ver com obituário, não sei.
14 de jan. de 2012
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