24 de jan. de 2012

A máquina



Eu uso a máquina
pra dizer quem eu sou
Eu digo "ai, ai, ai"
segunda-feira chegou

Eu vivo no Brasil
país da corrupção
Eu grito "gol, gol, gol"
meu time é campeão

Eu tenho opinião
um clique a cada segundo
Eu sou a oposição
que vai mudar o seu mundo

Mostrar a injustiça social
Expor o que julgo ideal
Lutar pela causa dos animais
Meu deus o que posso fazer
se além desse calor
deu pau no meu PC?

Tenho consciência ambiental
política e moral
Separo meu lixo
Não voto em ladrão
Eu sou a evolução

Tenho consciência ambiental
política e moral
Não gosto de bicha
com todo respeito
sou livre de preconceitos

Eu uso a máquina
pra falar de amor
Comento "que horror"
o preconceito de cor

Voltei de Montreal
uma pessoa distinta
agora desprezo
nossa cultura de quinta

Ontem eu fui pra balada
hoje eu vou viajar
papai me deu a mesada
e um carro para arrasar

Me orgulha minha vida social
cercada de gente bonita e legal
Reúne a galera
e tira um retrato
e vê se curte senão eu te mato

Tenho consciência ambiental
política e moral
Separo meu lixo
Não voto em ladrão
Eu sou a evolução

Tenho consciência ambiental
política e moral
Não gosto de bicha
com todo respeito
sou livre de preconceitos

Tenho consciência ambiental
política e moral
e hoje acordei pra vencer
e hoje acordei pra vencer
eu hoje acordei
eu hoje acordei

é bom você saber.

14 de jan. de 2012

Meu destino é devaneio



Debaixo de chuva
pela frente o horizonte
sei que se esconde uma resposta lá ao longe
e eu quero ver
quero ver

Pedras no caminho
o vento forte voa contra
corta o meu rosto e não aponta a porta certa pra chegar
pra chegar

Meu destino é devaneio
O acaso as chances em que posso me agarrar (2x)

Muros de concreto
um bombardeio incessante
sombras no encalço e o infinito adiante
e sigo sem saber
sem saber

Fecho os meus olhos
salto alto em um instante
de uma nuvem branca arranco um faixo de esperança
porque quero ver
quero ver

Seco o suor da testa
aperto o passo
nada vai me segurar

Meu destino é devaneio
O acaso as chances em que posso me agarrar (2x)

Obituário

Parte da minha infância morei próximo ao Cemitério Municipal de Caxias do Sul, numa espécie de cortiço de casas individuais, onde viviam também meus avós paternos, algumas tias e inquilinos, que iam e vinham. Meus pais trabalhavam o dia inteiro e, no turno em que não estava na escola ou nas ruas, tinha minha avó como guardiã. Vez ou outra acompanhava seu roteiro de beata quase cotidiano: missa, “o terço”, velório e enterro.

Na missa eu era amigo do padre. Observava embasbacado o juízo final pintado no teto da igreja por Aldo Locatelli. No terço compartilhado arriscava minhas ave-marias para não me entediar. Era uma criança calma. Sempre ganhava doces e agora quase sinto o cheiro de alfazema. Lembro que num velório questionei minha avó sobre a identidade do defunto, mãos em cruz sobre o peito e um estranho sorriso no rosto. Pesarosa e com lágrimas nos olhos, ela cutucou a senhora ao lado, que cutucou a outra e assim se sucedeu até que voltou a resposta. Era irmão da falecida Fulana. Um homem bom, pobre filho de Deus. Tão novo!

Seguíamos em procissão ao cemitério, eu - com meus sete, oitos anos - e as velhinhas. Uma ladainha em dialeto vêneto ou latim ecoava entre os mausoléus. Na minha memória sempre chove. A comitiva respondia estridente, em uníssono. Todas trajavam vestes escuras. Por entre as ruelas sinuosas da cidade dos mortos eu me perdia. Procurava por túmulos de crianças. A passo lento observava as datas nas lápides, fascinado. Quem sabe encontraria, por acaso, um nascimento análogo ao meu e a data de óbito surgiria como presságio da minha. Nunca quis encontrar.

Cálculos rápidos me revelavam a idade aproximada. Seis, sete, 12 anos. Crianças sorridentes como eu engavetadas ou atiradas sem dó sob uma pedra fria, que de certo saíram para um mero enterro com a avó e por lá ficaram. Algumas nem chegavam a um ano, outras duravam apenas dias ou horas. E todas as suas memórias estavam ali, resumidas por um nome ao qual mal se acostumaram e pelo breve intervalo entre a estrela e a cruz. Descansem em paz.

Minha mãe ficava louca ao saber das nossas macabras incursões. Mal sabia ela que minha avó, sem querer, me preparava para encarar a morte como o destino comum entre todos, o inevitável.

Cresci, dei as costas à igreja e só fui voltar ao cemitério dez anos depois, mais, para engavetar meu pai. As ruas pareciam ainda mais estreitas mas o ambiente, embora pesado, tinha algo de acolhedor. Um ano se passou, morreu minha avó. Seguimos em comitiva para sua derradeira cerimônia fúnebre, da qual dessa vez era protagonista. Já não havia velhinhas entoando cânticos sacros e as crianças já não me interessavam mais.

Agora, o que isso tem a ver com obituário, não sei.