20 de abr. de 2009

O verdadeiro poeta

Levante os pés
pra mim limpar,
disse-me o dono do bar.
E sua vassoura tremulou.

Deixe meus restos,
lhe respondi.
Ainda os recolherei
juntando ao pouco que me restará.

Pouco tens
se o que te sobra
são apenas versos
ordinários como esse,

respondeu.

E a ti o que restas?,
retruquei.
Um sorriso largo
mais um tanto de audácia?

Ora, aqui, nem conversa,
alegou.
Só faço hora
até o fim da noite.

Em confronto falou,
chatos como tu
consomem
o pouco que ainda tenho.

Seu sorriso foi
enquanto a mesa se desfez.
A cena nada durou,
um breve instante se passou.

Quando caí
depois da oitava dose
foi um único tapa
que me despertou.

Vamos lá, bote pra fora,
ouvi aos berros.
Vomite suas asneiras!
Porra, a essa hora!

Me resta ainda o lixo que os poetas deixam.

Devia ter filhos
e mulher
e muitos chatos
como eu, para suportar,

pensei.

Levantei.
Agradeci.
Me desculpei.
E caí pela saída.

Aquele era um cara que sabia das coisas.

30 de mar. de 2009

Uma vagal sugestão

Suando sob o sol de 37 graus,
sozinho e sem saúde,
pensei em suicídio.
E sucumbi ao torpor suave
que precede a dor.

Foi quando num sonho
um velho sábio, sutil me disse:
“Sossega e segura
o teu desespero.

Escute um conselho, uma sugestão:

Sessenta minutos de sesta
de segunda a sexta,
é esse o segredo
da sobrevivência.”

Assenti sem saber
se o que vi era um santo
ou se de santo
só tinha o encanto.

Desde então meu sono pós-rango é tranquilo.
Mas quem foi que me disse aquilo?
Satanás, pode ser.
Como vou saber?

Só sei que, hoje,
sereno suporto,
sorrindo sem situação,
sacrifícios sem sofrer.

Suponho ser feliz.

21 de jan. de 2009

Balanço final de uma era sem fim


Trabalhar para esse sistema é perder a alma. Não, obrigado! Que proveito tira o homem que ganha o mundo todo e perde sua própria alma?


John Fante

Queria eu, nesse último dia de trabalho, escrever sobre alguma coisa pertinente. Mas nada guardo além do conhecimento técnico que, provavelmente, poderia ter adquirido em casa entre uma cagada e outra. O dinheiro nos submete a tantas coisas. Uma mísera quantia nos faz perder um pedaço da alma. “Por quê?” – é bem provável que tenha me perguntado aos 14, 15 ou 16 anos.

Passei mais de oito meses nesse escritório, localizado num centro comercial tomado por advogados pedantes e magnatas ranzinzas. Garanto que tive alguns dias bons. Outros meramente válidos. Mas, na grande maioria, minha jornada diária de seis horas em frente ao computador não me fez muito bem. Esse é o saldo final: um lamento desgostoso. Escrevi sobre moda e comportamento. Eu, um largado alheio a qualquer onda de consumo ou tendência absurda. Planejei textos institucionais metendo mentiras entre aspas e dedicando-as a um cirurgião plástico canastrão, ou a um dentista, ou a qualquer outro que não sabia definir seu exercício e recorria a nossa agência.

Passei a acreditar na mentira que minhas próprias palavras podiam dizer. Antes, me julgava um homem repleto de princípios e ideais. Nunca pretendi iludir ninguém, mas, duvido muito, que ao longo desse tempo não o tenha feito. Evitei, sempre, mas tudo que produzi passou sempre por uma edição que acabava por distorcer a essência almejada. Pior ainda assim, atuei no escuro, pelo bastidor escroto da propaganda. Não vou generalizar, devo ter rasgado elogios verdadeiros a algum médico estúpido só por admirar o seu currículo. Espero me redimir com esse desabafo. Mas todos sabemos que não será dessa forma.

Fiz bons amigos, alguns verdadeiros, como o compadre Raoni. Dei boas risadas com meu chefe, um figurão sem coração que certamente acredita que só patrimônio constrói amor verdadeiro. Falava com propriedade sobre tudo, meu chefe. Vai ver em algo ele estava certo. Hoje saio, sem dinheiro, sem futuro, mas com algumas certezas. Uma, o planejamento em comunicação é uma farsa, mas uma boa alternativa de renda para aqueles que não acreditam em um mundo justo. Outra, a internet é um meio frio e desvirtua mentes criativas. Indico humildemente o amor aos livros, a exposição restrita revela uma verdade mais sincera, já que a absoluta é um mito. Ah, mais uma, e por ora a última, constatei consternado que palavras são ótimas mercadorias. Isso é triste.

As melhores lembranças que guardarei serão da sacada, onde, junto com uma colega minha maluca, fumei tantos cigarros que acabei preenchendo com fumaça o tamanho vazio desse ambiente sórdido. Até algumas flores surgiram espontâneas para contemplar aquele espetáculo bizarro. Preferiram crescer em meio ao tabaco que ao adubo expelido pelas janelas.

Sigo agora o conselho de um dos meus maiores ídolos literários, Gabriel Garcia Marquez, viverei da forma certa, cantando à noite e dormindo de dia. Questão de tempo para voltar à merda. Basta uma oferta melhor. Pelo menos admito a falta de escrúpulos da vida. Todos precisam bem viver. Ainda me mando pro meio do mato em busca da redenção. Enquanto isso...

It’s all business my friend.

23 de dez. de 2008

Aos 12 anos

“Feliz natal e um próspero ano novo”, brada o povo pelo mundo em meio à comilança e às bebedeiras típicas dessa época. Copos tilintam em brindes à prosperidade. “A um futuro melhor”, exclama o tio metido a poeta depois do quinto copo de champagne. “O jantar estava incrível”, comenta acariciando a barrigona. A família reunida distribui presentes, todos satisfeitos e cansados após tamanho banquete. As crianças pulam pelos cantos e a algazarra aumenta enquanto a vovó traz a deliciosa sobremesa. Ninguém agüenta mais comer. Mas não há como negar os doces da vovó. São irresistíveis. “É apenas o começo”, diz a terna senhora com um sorriso de madre, “No réveillon vou preparar tortas e bombons para celebrar outra bela união”.

Em meio à cena, ninguém entende o comportamento do jovem Agenor. O guri está chateado, emburrado. Não vê motivos para tanta comemoração. Sente que não consegue aproveitar aquela festa como nos anos anteriores. Uma dor o perturba. Não sabe de onde ela vem. Nem por que ela o deprime. “Será isso a depressão?”, pergunta-se. Seus pais, seus tios, todos naquela casa, a partir daquele momento, adquiriram faces assustadoras.

Aos 12 anos, sabe que esse foi um ano difícil. “Por quê? Tenho tudo que preciso” – murmura entre os dentes – “Sou feliz, não tenho dúvida”. Mesmo assim, pretende que o ano seguinte seja melhor, tem esperança. Mas sua esperança morre cega com aqueles gritos de “Viva”.

Aos 12 anos, pensa que está velho demais. “Qual o motivo para tanta gritaria?”, questiona-se. Na varanda, busca a exclusão. De frente para o mar, seus olhos juntam-se ao horizonte.

Recorda de duas crianças que conheceu em um parque da sua cidade, ou melhor, tentou conhecer. Dois irmãos alegres. Tão longe aquilo parecia naquele momento. Sua mãe não havia deixado com que brincasse com as pobres crianças que, espantosamente, sorriam e dançavam indiferentes aos olhares de reprovação que recebiam. Tinham uma aparência suja e ofendiam-se mutuamente, sem rancor. Aquilo não incomodava Agenor. Alguém que as conhecesse saberia que seus pais também agiam assim. Divertiam-se com um pneu e um pedaço de pau. Eram crianças como ele. Para ele.

Não via graça no pneu. Mas foi bem recebido naquele jogo que desconhecia. Não escondeu sua felicidade em ser aceito. Havia cansado dos videogames e da televisão. A rua sempre o atraiu, mesmo que sempre fosse pouco para alguém tão jovem.

“Entra no carro” – gritou a mãe, depois de um descuido frente a uma vitrine – “Vamos para casa, agora!”.

Aos 12 anos, Agenor descobriu o motivo de sua dor. Junto ao horizonte, seus olhos encontraram os dos meninos. “Será que eles estão festejando o natal?”.

Decidiu fazer uma oração. Enquanto ainda é criança, sabe que não há muito mais o que possa fazer.

Retornou, então, para dentro de casa. Sua família cessou o papo por instantes. Ele sorriu. Tudo voltou ao normal.

Mas uma questão não deixava de martelar em sua consciência, ferida por sua mãe: “Qual o motivo de tanta gritaria?”.