Acordo preso ao sonho que passou,
o mesmo sempre, o de encontrar amor;
às frases belas que tentei dizer
e, sem sucesso, me deixaram só.
Saio à rua, tento espairecer,
me pega então uma lufada fria.
A manhã jovem embala o passo lento
e os bem-te-vis compõem a melodia.
Tenho comigo como companhia
tantas palavras do grande poeta
que alguém um dia em sutil desacato
ousou chamá-lo apenas poetinha.
O dia brindo então com uma canção
que já tratou da dor de tantos outros
e agora surge por entre sorrisos
no balbuciar quase calado, rouco:
"O amor
é um carinho
é um espinho
que não se vê em cada flor"
Hora do almoço, sento pra comer.
A refeição já não me desce bem.
Quem sabe a causa do mal apetite
seja essa ideia de querer alguém.
Passa a tarde, observo quieto.
Tomo um litro de café amargo
e atrás do trago de cada cigarro
busco encontrar Aquela poesia.
É noite já, mas como passa rápido
quando desejos tornam-se rotina,
não vi o pôr-do-sol, não ouvi a campainha
nem li a bula do medicamento.
Julgam-me louco, deram-me remédios.
E demoraram a achar um diagnóstico,
mas disse ao médico: "Curo-me tão fácil,
preciso mesmo é de um pouco de ócio".
Saio à rua, já não quero nada,
sigo esperando com os fiéis amigos
as incertezas da mãe madrugada.
A noite brindo com o amor do dia
que como toda treva percorrida
pode sumir ao clarear do sol.
24 de mar. de 2010
9 de mar. de 2010
O Salvador da Solidão
Domingo sempre era um dia complicado para Armando. Logo chegava a noite e a agonia crescia de forma inexplicável em seu peito. Buscava alívio na televisão, na música, nos livros, em pensamentos de renovação. Tudo insuficiente. Cometeria suicídio, pensava, se na segunda à tarde pudesse reviver. Não era assim um suicida em potencial.
Naquele último do mês de fevereiro não foi diferente. Fumava cigarro atrás de cigarro observando o céu, da sacada de seu apartamento. “Amanhã largo esse vício”, prometia a si mesmo, “esse é o último”. Até que acabara com um maço.
Engraçado como podia apenas uma convenção significar tanto para ele. Não era o fato do domingo em si, mas por suas marcas e consequências. Pelo pre e anteceder do que parecia ser a vida real. Um dia vazio; anormal. Armando sentia-se desolado nos domingos, perdido num universo imaterial. Sonhos pareciam longes; dívidas e cobranças mais próximas.
Engraçado. Sábado estava agarrado às pernas de uma bela mulher, cercado por amigos, bêbado, sorrindo, e tudo fazia sentido. O mundo era seu e não hesitava em compartilhá-lo com que também o quisesse. Cantava ao infinito suas taras e angústias. Não tinha pudor.
Não gostava também das segundas-feiras. Mas aí o incômodo só surgia pela manhã. Após o almoço já estava tranquilo. Podia, mais uma vez, dedicar-se a sua luta. Lutava por ser alguém. Lutava por reconhecimento, mas não tinha grandes talentos. Apenas buscava a verdade. Um homem de caráter; emocional, esse era Armando. Um pouco confuso, inquieto, pode ser, mas boa gente.
Quando já avaliara na estrutura de seu apartamento o melhor lugar para se enforcar, de brincadeira, como passatempo, soou um sinal em seu laptop. Era Luíza, uma morena de 22 anos que conhecera dias antes.
Mal lembrava da aparência de Luíza. Só não esquecia as graças de sua carne flácida e do absorvente tampando o caminho de suas mãos curiosas que percorriam curvas naquele canto escuro do bar. Ela era uma tarada. Passava a mão na bunda de Armando, metia-lhe a língua nos ouvidos, no pescoço, na barriga. Uma louca! Por hora até agarrou, antes de recuar entre gemidos, o pau em riste de Armando.
Sôfrega sentenciou:
-Vamos ter que deixar pra outra hora, Armando. Aqui não!
Recordava também desse comentário. E nada mais.
...
Luíza, pelo messenger, questionava os motivos de ele tê-la abandonado naquela noite. Sincero, respondeu que estava bêbado e os ocorridos não passavam de flashes em sua cabeça.
Luíza diz:
bem que eu vi que tu não tava muito bem
lembra que tu disse que me amava?
“Mais uma vez, Armando! Parabéns!”
Armando diz:
não leve a mal, desculpe, costumo falar de amor quando estou bêbado, não sei por que
Luíza diz:
hehehe
não tem problema, achei engraçado
Era só beber, ver uma mulher interessada, e Armando desatava a falar de amor. Não do amor como a maioria o compreende – profundo, difícil, até inalcançável - mas sobre suas suposições sobre tal sentimento. E Armando amava mesmo. À sua forma amava. Não tinha receio em se abrir a uma desconhecida. Amava os gestos, as palavras, o momento. Principalmente o momento. Embriagado então... Tudo era motivo para amar.
As mulheres só não compreendiam a indiferença que demonstrava em outras situações, quando o pegavam sóbrio. Era quieto, soturno, até descortês.
Luíza diz:
e aí?
Armando diz:
e aí o quê?
...
eu não te amo, Luíza, desculpa
não agora
“Eu devo ser retardado mental”
Luiza diz:
rsrsrsrs
seu bobo
e aí essa noite
o que vai fazer?
queria tanto te ver...
Minutos depois marcaram um encontro. Aquele papo, por mais que afugentasse, devia funcionar com algumas delas. Ou vai ver era a sua aparência, seu ar galante. Não podia identificar os motivos. Nunca compreendeu por que as mulheres se sentiam atraídas por ele. Mas isso não importava. Era um domingo sendo salvo.
Luíza estava na casa de uma amiga, Beatriz.
Luíza diz:
só tem uma condição...
aqui na casa da Bea é proibido bebidas alcoólicas
“Grande merda, não preciso disso”
No caminho até lá, Armando fantasiava como seriam as duas meninas. Imaginava-as seminuas a receber-lhe com cortejos de rei. O salvador da solidão. O enviado do amor. Acariciava-as já no carro, com a mente a divagar, nem prestava atenção ao trânsito.
Em dez minutos chegou. Tocou o interfone. As duas apareceram na sacada e fizeram sinal para que esperasse. Armando trazia consigo apenas o celular, a carteira, um maço intacto de cigarros e uma senhora ereção.
...
As duas desceram e o cumprimentaram cordialmente. Luíza com um leve beijo na boca. Subiram pelo elevador. Comentaram sobre o calor incomum que fazia naquela noite e o silêncio imperou. Chegaram. Sexto andar, 601. Beatriz abriu a porta e se sentou no sofá.
- Belo apartamento – disse Armando.
- Valeu – disse Beatriz.
- Mora sozinha aqui?
- Sim, faz uns dois anos já. Meu pai que me deu, ele vive em São Paulo.
- Maravilha. Deve aprontar algumas, não?
- É, mais ou menos – concordou num franzir envergonhado.
Beatriz era uma graça. Novinha, não devia ter mais de vinte. Seios fartos, expostos por um decote generoso de uma blusinha branca. Usava jeans e chinelos. Luíza, para agrado de Armando, também era muito bonita. Tinha os braços tatuados e um corpo robusto, mas não era gorda. Se não se cuidasse seria, porém não tão cedo. Era jovem e tinha muito a dar ainda.
Nem passado um minuto na sala, as duas sumiram por uma porta ao lado sem falar nada. Deixaram apenas como rastro olhares convidativos. Armando seguiu. Parou a pensar. Um minuto de hesitação. Estalou os dedos. “É agora!”. Seguiu-as. Já desatava o cinto quando as surpreendeu em frente ao computador. Uma sentada ao lado da outra, se revezavam a teclar com uma, duas, mil pessoas. Luíza olhou para um Armando atônito, e perguntou:
- O que tu tá fazendo?
Sem jeito, ele respondeu:
- Ah, apenas ajustando o cinto. Está muito apertado.
Luíza sorriu e voltou o rosto à tela. Beatriz, de um pulo, levantou.
- Tu, por acaso, tem um baseado?
- Não, não tenho – respondeu Armando tateando os bolsos.
- Sabe com quem pegar?
- Essa hora? Domingo? Nem que eu quisesse.
Beatriz bufou desanimada e voltou ao computador. As duas realmente se divertiam com aquilo. Trocavam mensagens e deliciavam-se com respostas vindas de imediato. Armando, parado, em pé, só observava. Às vezes tentavam o introduzir na conversa.
- Esse é um amigo nosso italiano – disse Luíza apontando uma foto no monitor, que mostrava um rapaz loiro de óculos escuros, mostrando a língua. - Conhecemos ele no Rio, semana passada.
- Ele é uma figura – disse Beatriz emocionada. Chegou a levantar centímetros do assento pela força da entonação dada ao suposto elogio.
- Imagino – concordou Armando, tentando descontrair sua afirmação. - Dizem que esses italianos são umas peças.
À beira da desilusão, Armando retirou-se para a sacada. Acendeu um cigarro. Deu uma longa tragada e começou a maquinar um plano para comê-las. Não importava se eram imbecis, de sexo deviam gostar. Sem nem concluir essa consideração, apareceu Luíza. Deu-lhe um beijo e o abraçou. Ele entrou no jogo:
- Desculpa por não lembrar muito bem daquele dia, mas sabe, acontece... – falou.
- Não te preocupa, eu sei como é.
Armando abriu os braços em cruz e disse com um sorriso de canto de boca:
- Hoje estou sóbrio, aqui, à tua disposição.
Luíza o beijou. Tinha lábios macios e um leve gosto de sabão na boca. Estavam sozinhos. Armando baixou a mão e acariciou a bunda de Luíza. Ela tirou. Tentou o peito. Também foi repelido.
- O que é isso? – perguntou a Luíza.
- O quê? – fazendo-se de tonta.
- Outro dia, em meio a multidão, te atiraste em mim como cão em costela gorda e agora vem cheia de trejeitos.
- Quer dizer que tu veio aqui só pra me comer?
- Esperava uma boa conversa também, mas como vi que isso será impossível, sim. O sexo basta.
- Quê?
- Tô brincando, Lu.Vem aqui.
Ela foi. Deu-lhe mais um beijo leve. Afastou-o carinhosamente e perguntou:
- Tu acha que eu sou puta?
- Só puta gosta de sexo?
“LUUUUUUU”, chamou Bea do quarto.
- Só tu mesmo, Armando. Já volto.
- Homens - ainda suspirou ao sair.
...
Voltaram as duas, minutos depois. “É agora”, pensou Armando. Beatriz se aproximou de Armando. Fez sua cara mais sedutora, olhou-o nos olhos e perguntou:
- Não quer ir até o posto comprar cigarro pra nós?
- Eu tenho cigarro, pega aí – disse, oferecendo o maço a Bea.
Então Luíza:
- É que a gente não gosta de Marlboro, a gente só fuma Black.
- Sabe, - respondeu Armando - o carro está com pouca gasolina e eu teria que atravessar a cidade para comprar. Não rola.
Instantes de silêncio. Beatriz se sentou no chão e mais uma vez bufou. Luíza observava Armando fumar com prazer.
- Domingo é mesmo um saco – disse Beatriz.
- Não tem dia pior – concordou a amiga.
Logo desataram a falar das desventuras da viagem para o Rio. De quanta gente interessante, vinda de todos os cantos do mundo, conheceram. Beatriz já havia morado numa porção de lugares: São Francisco, Nova Iorque, Londres... Deliciavam-se também (e dedicaram bom tempo a isso) com as gafes dos outros.
- Não leva a mal, nós somos assim, logo que tu sair nós vamos falar mal de ti também – disse Beatriz a Armando. Luíza apenas sorriu um riso desvairado e concordou acenando com a cabeça.
- Eu realmente não me importo – admitiu Armando.
Falaram também o quanto gostavam de animais. Fizeram planos para toda a semana. Balada quinta, sexta, sábado. “E no domingo se os guris forem tocar, né?”. Tudo já estava esquematizado.
- Ele é sempre quieto assim? – perguntou Beatriz.
Luíza encarou Armando, que disse:
- Só quando o assunto não me interessa.
- E o que te interessa? – perguntou Luíza.
- Sabes o que me interessa – ele respondeu, enlaçando-a pela cintura.
Luíza desconversou, disse a Beatriz que Armando era um ótimo pintor.
- Pinta principalmente mulheres. É meio obsceno, mas ele tem talento.
- Legal – disse Beatriz desinteressada. – Gosto muito do Romero Britto.
Era a chance de Armando incitá-las.
- Prefiro formas mais sensuais. Vocês dariam belas modelos, por sinal – insinuou.
As garotas se olharam e soltaram risadinhas.
- Tá... – disse Beatriz evasiva, revirando os olhos.
Estranho o silêncio dessa hora. Constrangedor.
- Quem era aquele cara ontem? – continuou Luíza, como quem desperta de um susto. - Aquele que tu acertou com a bolsa? Hahaha! Só tu mesmo, Bea.
- Aiii – suspirou Beatriz. - Aquele era o Mau, não era um gatinho?
E descambaram mais uma vez por essa via.
Passou meia hora até que Armando, já sem paciência, explodiu. Primeiro deu um grito, depois chutou um vaso de orquídeas. Exaltado, sacou o pau mole para fora e pôs-se a balançá-lo com a mão direita. Veemente pela força de seus gestos bradou em fúria:
- Vão se FO-DER! Fiquem aí com seus amigos italianos, ingleses, chineses e o caralho; tartarugas, hamsters e coalas. PU-TA QUE PA-RIU! Mulher que não gosta de pica pra mim não vale nada.
Silêncio e espanto.
- Não querem se chupar aí pra eu ver. É disso que vocês gostam. Não? Eu também gosto. Vamos lá!
Olhos atentos, encarando uma por vez, esfregou as mãos em aguardo.
- Não?
Silêncio.
- Então eu vou pra casa que ganho mais.
Desceu rápido pelas escadas. Indignado refletia: “E eu achando que não podia ficar pior”.
Abriu o carro debaixo das injúrias das duas, enfezadas na sacada.
- Nojento!
- Pervertido!
- Escroto!
Deu a partida. Engatou a primeira, segunda, terceira e gargalhou até chorar. Não acreditava que tivesse saído de sua boca aquelas palavras. Mas sua busca era a verdade. Estava aprendendo. A fúria passara. Restava só a graça da situação. Ligou o rádio e junto cantarolou.
No caminho de volta tirou mais algumas conclusões sobre o amor. Pensou que o amor vago em que acreditava, o de momento, quase sem ressalvas, pode enganar por um lindo olhar, um belo sorriso ou par de peitos.
Àquela hora se lhe pedissem um conselho diria que quem quisesse amar sem se machucar procurasse bem, sem cessar, seu desejo mais profundo no fundo de uma garrafa de bebida forte.
Chegou em casa, soltou as chaves na mesa, e mandou uma dose dupla de uísque sem gelo. Contente, lembrou do ocorrido recente. Agora só, podia sorrir. Deu uma bela cagada que lhe ardeu o cu. Deitou. Sob as cobertas se masturbou pensando nas duas garotas do sexto andar a lhe cortejar.
Dormiu satisfeito.
Naquele último do mês de fevereiro não foi diferente. Fumava cigarro atrás de cigarro observando o céu, da sacada de seu apartamento. “Amanhã largo esse vício”, prometia a si mesmo, “esse é o último”. Até que acabara com um maço.
Engraçado como podia apenas uma convenção significar tanto para ele. Não era o fato do domingo em si, mas por suas marcas e consequências. Pelo pre e anteceder do que parecia ser a vida real. Um dia vazio; anormal. Armando sentia-se desolado nos domingos, perdido num universo imaterial. Sonhos pareciam longes; dívidas e cobranças mais próximas.
Engraçado. Sábado estava agarrado às pernas de uma bela mulher, cercado por amigos, bêbado, sorrindo, e tudo fazia sentido. O mundo era seu e não hesitava em compartilhá-lo com que também o quisesse. Cantava ao infinito suas taras e angústias. Não tinha pudor.
Não gostava também das segundas-feiras. Mas aí o incômodo só surgia pela manhã. Após o almoço já estava tranquilo. Podia, mais uma vez, dedicar-se a sua luta. Lutava por ser alguém. Lutava por reconhecimento, mas não tinha grandes talentos. Apenas buscava a verdade. Um homem de caráter; emocional, esse era Armando. Um pouco confuso, inquieto, pode ser, mas boa gente.
Quando já avaliara na estrutura de seu apartamento o melhor lugar para se enforcar, de brincadeira, como passatempo, soou um sinal em seu laptop. Era Luíza, uma morena de 22 anos que conhecera dias antes.
Mal lembrava da aparência de Luíza. Só não esquecia as graças de sua carne flácida e do absorvente tampando o caminho de suas mãos curiosas que percorriam curvas naquele canto escuro do bar. Ela era uma tarada. Passava a mão na bunda de Armando, metia-lhe a língua nos ouvidos, no pescoço, na barriga. Uma louca! Por hora até agarrou, antes de recuar entre gemidos, o pau em riste de Armando.
Sôfrega sentenciou:
-Vamos ter que deixar pra outra hora, Armando. Aqui não!
Recordava também desse comentário. E nada mais.
...
Luíza, pelo messenger, questionava os motivos de ele tê-la abandonado naquela noite. Sincero, respondeu que estava bêbado e os ocorridos não passavam de flashes em sua cabeça.
Luíza diz:
bem que eu vi que tu não tava muito bem
lembra que tu disse que me amava?
“Mais uma vez, Armando! Parabéns!”
Armando diz:
não leve a mal, desculpe, costumo falar de amor quando estou bêbado, não sei por que
Luíza diz:
hehehe
não tem problema, achei engraçado
Era só beber, ver uma mulher interessada, e Armando desatava a falar de amor. Não do amor como a maioria o compreende – profundo, difícil, até inalcançável - mas sobre suas suposições sobre tal sentimento. E Armando amava mesmo. À sua forma amava. Não tinha receio em se abrir a uma desconhecida. Amava os gestos, as palavras, o momento. Principalmente o momento. Embriagado então... Tudo era motivo para amar.
As mulheres só não compreendiam a indiferença que demonstrava em outras situações, quando o pegavam sóbrio. Era quieto, soturno, até descortês.
Luíza diz:
e aí?
Armando diz:
e aí o quê?
...
eu não te amo, Luíza, desculpa
não agora
“Eu devo ser retardado mental”
Luiza diz:
rsrsrsrs
seu bobo
e aí essa noite
o que vai fazer?
queria tanto te ver...
Minutos depois marcaram um encontro. Aquele papo, por mais que afugentasse, devia funcionar com algumas delas. Ou vai ver era a sua aparência, seu ar galante. Não podia identificar os motivos. Nunca compreendeu por que as mulheres se sentiam atraídas por ele. Mas isso não importava. Era um domingo sendo salvo.
Luíza estava na casa de uma amiga, Beatriz.
Luíza diz:
só tem uma condição...
aqui na casa da Bea é proibido bebidas alcoólicas
“Grande merda, não preciso disso”
No caminho até lá, Armando fantasiava como seriam as duas meninas. Imaginava-as seminuas a receber-lhe com cortejos de rei. O salvador da solidão. O enviado do amor. Acariciava-as já no carro, com a mente a divagar, nem prestava atenção ao trânsito.
Em dez minutos chegou. Tocou o interfone. As duas apareceram na sacada e fizeram sinal para que esperasse. Armando trazia consigo apenas o celular, a carteira, um maço intacto de cigarros e uma senhora ereção.
...
As duas desceram e o cumprimentaram cordialmente. Luíza com um leve beijo na boca. Subiram pelo elevador. Comentaram sobre o calor incomum que fazia naquela noite e o silêncio imperou. Chegaram. Sexto andar, 601. Beatriz abriu a porta e se sentou no sofá.
- Belo apartamento – disse Armando.
- Valeu – disse Beatriz.
- Mora sozinha aqui?
- Sim, faz uns dois anos já. Meu pai que me deu, ele vive em São Paulo.
- Maravilha. Deve aprontar algumas, não?
- É, mais ou menos – concordou num franzir envergonhado.
Beatriz era uma graça. Novinha, não devia ter mais de vinte. Seios fartos, expostos por um decote generoso de uma blusinha branca. Usava jeans e chinelos. Luíza, para agrado de Armando, também era muito bonita. Tinha os braços tatuados e um corpo robusto, mas não era gorda. Se não se cuidasse seria, porém não tão cedo. Era jovem e tinha muito a dar ainda.
Nem passado um minuto na sala, as duas sumiram por uma porta ao lado sem falar nada. Deixaram apenas como rastro olhares convidativos. Armando seguiu. Parou a pensar. Um minuto de hesitação. Estalou os dedos. “É agora!”. Seguiu-as. Já desatava o cinto quando as surpreendeu em frente ao computador. Uma sentada ao lado da outra, se revezavam a teclar com uma, duas, mil pessoas. Luíza olhou para um Armando atônito, e perguntou:
- O que tu tá fazendo?
Sem jeito, ele respondeu:
- Ah, apenas ajustando o cinto. Está muito apertado.
Luíza sorriu e voltou o rosto à tela. Beatriz, de um pulo, levantou.
- Tu, por acaso, tem um baseado?
- Não, não tenho – respondeu Armando tateando os bolsos.
- Sabe com quem pegar?
- Essa hora? Domingo? Nem que eu quisesse.
Beatriz bufou desanimada e voltou ao computador. As duas realmente se divertiam com aquilo. Trocavam mensagens e deliciavam-se com respostas vindas de imediato. Armando, parado, em pé, só observava. Às vezes tentavam o introduzir na conversa.
- Esse é um amigo nosso italiano – disse Luíza apontando uma foto no monitor, que mostrava um rapaz loiro de óculos escuros, mostrando a língua. - Conhecemos ele no Rio, semana passada.
- Ele é uma figura – disse Beatriz emocionada. Chegou a levantar centímetros do assento pela força da entonação dada ao suposto elogio.
- Imagino – concordou Armando, tentando descontrair sua afirmação. - Dizem que esses italianos são umas peças.
À beira da desilusão, Armando retirou-se para a sacada. Acendeu um cigarro. Deu uma longa tragada e começou a maquinar um plano para comê-las. Não importava se eram imbecis, de sexo deviam gostar. Sem nem concluir essa consideração, apareceu Luíza. Deu-lhe um beijo e o abraçou. Ele entrou no jogo:
- Desculpa por não lembrar muito bem daquele dia, mas sabe, acontece... – falou.
- Não te preocupa, eu sei como é.
Armando abriu os braços em cruz e disse com um sorriso de canto de boca:
- Hoje estou sóbrio, aqui, à tua disposição.
Luíza o beijou. Tinha lábios macios e um leve gosto de sabão na boca. Estavam sozinhos. Armando baixou a mão e acariciou a bunda de Luíza. Ela tirou. Tentou o peito. Também foi repelido.
- O que é isso? – perguntou a Luíza.
- O quê? – fazendo-se de tonta.
- Outro dia, em meio a multidão, te atiraste em mim como cão em costela gorda e agora vem cheia de trejeitos.
- Quer dizer que tu veio aqui só pra me comer?
- Esperava uma boa conversa também, mas como vi que isso será impossível, sim. O sexo basta.
- Quê?
- Tô brincando, Lu.Vem aqui.
Ela foi. Deu-lhe mais um beijo leve. Afastou-o carinhosamente e perguntou:
- Tu acha que eu sou puta?
- Só puta gosta de sexo?
“LUUUUUUU”, chamou Bea do quarto.
- Só tu mesmo, Armando. Já volto.
- Homens - ainda suspirou ao sair.
...
Voltaram as duas, minutos depois. “É agora”, pensou Armando. Beatriz se aproximou de Armando. Fez sua cara mais sedutora, olhou-o nos olhos e perguntou:
- Não quer ir até o posto comprar cigarro pra nós?
- Eu tenho cigarro, pega aí – disse, oferecendo o maço a Bea.
Então Luíza:
- É que a gente não gosta de Marlboro, a gente só fuma Black.
- Sabe, - respondeu Armando - o carro está com pouca gasolina e eu teria que atravessar a cidade para comprar. Não rola.
Instantes de silêncio. Beatriz se sentou no chão e mais uma vez bufou. Luíza observava Armando fumar com prazer.
- Domingo é mesmo um saco – disse Beatriz.
- Não tem dia pior – concordou a amiga.
Logo desataram a falar das desventuras da viagem para o Rio. De quanta gente interessante, vinda de todos os cantos do mundo, conheceram. Beatriz já havia morado numa porção de lugares: São Francisco, Nova Iorque, Londres... Deliciavam-se também (e dedicaram bom tempo a isso) com as gafes dos outros.
- Não leva a mal, nós somos assim, logo que tu sair nós vamos falar mal de ti também – disse Beatriz a Armando. Luíza apenas sorriu um riso desvairado e concordou acenando com a cabeça.
- Eu realmente não me importo – admitiu Armando.
Falaram também o quanto gostavam de animais. Fizeram planos para toda a semana. Balada quinta, sexta, sábado. “E no domingo se os guris forem tocar, né?”. Tudo já estava esquematizado.
- Ele é sempre quieto assim? – perguntou Beatriz.
Luíza encarou Armando, que disse:
- Só quando o assunto não me interessa.
- E o que te interessa? – perguntou Luíza.
- Sabes o que me interessa – ele respondeu, enlaçando-a pela cintura.
Luíza desconversou, disse a Beatriz que Armando era um ótimo pintor.
- Pinta principalmente mulheres. É meio obsceno, mas ele tem talento.
- Legal – disse Beatriz desinteressada. – Gosto muito do Romero Britto.
Era a chance de Armando incitá-las.
- Prefiro formas mais sensuais. Vocês dariam belas modelos, por sinal – insinuou.
As garotas se olharam e soltaram risadinhas.
- Tá... – disse Beatriz evasiva, revirando os olhos.
Estranho o silêncio dessa hora. Constrangedor.
- Quem era aquele cara ontem? – continuou Luíza, como quem desperta de um susto. - Aquele que tu acertou com a bolsa? Hahaha! Só tu mesmo, Bea.
- Aiii – suspirou Beatriz. - Aquele era o Mau, não era um gatinho?
E descambaram mais uma vez por essa via.
Passou meia hora até que Armando, já sem paciência, explodiu. Primeiro deu um grito, depois chutou um vaso de orquídeas. Exaltado, sacou o pau mole para fora e pôs-se a balançá-lo com a mão direita. Veemente pela força de seus gestos bradou em fúria:
- Vão se FO-DER! Fiquem aí com seus amigos italianos, ingleses, chineses e o caralho; tartarugas, hamsters e coalas. PU-TA QUE PA-RIU! Mulher que não gosta de pica pra mim não vale nada.
Silêncio e espanto.
- Não querem se chupar aí pra eu ver. É disso que vocês gostam. Não? Eu também gosto. Vamos lá!
Olhos atentos, encarando uma por vez, esfregou as mãos em aguardo.
- Não?
Silêncio.
- Então eu vou pra casa que ganho mais.
Desceu rápido pelas escadas. Indignado refletia: “E eu achando que não podia ficar pior”.
Abriu o carro debaixo das injúrias das duas, enfezadas na sacada.
- Nojento!
- Pervertido!
- Escroto!
Deu a partida. Engatou a primeira, segunda, terceira e gargalhou até chorar. Não acreditava que tivesse saído de sua boca aquelas palavras. Mas sua busca era a verdade. Estava aprendendo. A fúria passara. Restava só a graça da situação. Ligou o rádio e junto cantarolou.
No caminho de volta tirou mais algumas conclusões sobre o amor. Pensou que o amor vago em que acreditava, o de momento, quase sem ressalvas, pode enganar por um lindo olhar, um belo sorriso ou par de peitos.
Àquela hora se lhe pedissem um conselho diria que quem quisesse amar sem se machucar procurasse bem, sem cessar, seu desejo mais profundo no fundo de uma garrafa de bebida forte.
Chegou em casa, soltou as chaves na mesa, e mandou uma dose dupla de uísque sem gelo. Contente, lembrou do ocorrido recente. Agora só, podia sorrir. Deu uma bela cagada que lhe ardeu o cu. Deitou. Sob as cobertas se masturbou pensando nas duas garotas do sexto andar a lhe cortejar.
Dormiu satisfeito.
10 de fev. de 2010
Redenção Interrompida
Era dia santo, dia de Santo Antônio. Para Norberto, 45 anos, divorciado, era mais um dia triste de sua existência. Nada mais. Andava pelas ruas a caminho de casa. Mais uma noite havia passado longe do seu lar por conta das tentações da boemia há pouco adquirida. A satisfação obtida horas atrás já estava perdida. Cada passo que o aproximava de seu rumo doía-lhe os ossos, a carne, a alma que acreditava ter. Tornara-se um peso para si próprio.
Não passava das dez da manhã quando acordou ao lado de uma desconhecida. Sem despedir-se, vestiu as calças e saiu devagar. Torcia por não deixar nenhum vestígio. Seu passo era lento, difícil, agravado pelas dores abdominais que há meses, recorrentemente, o acometiam. De um dia pro outro, quando tudo parecia bem, surgiram essas dores. Atingiram-lhe como lanças em chamas ao perfurar um grande animal. Era grande, Norberto, um metro e noventa pra mais. Era também um animal, Norberto, como todos nós, apenas tentava disfarçar seu instinto, como todos nós. Ou quase todos.
Na época em que as dores surgiram ainda estava casado com Irene. Acreditava no amor mútuo que juras e mais juras tornaram reais. A relação dos dois era o balanço perfeito entre carinho e pudor. Beijinhos e carícias leves em público, sempre. Sexo bom, usual, sem sacanagem. Apenas “amor”. Nunca se ofendiam, jamais levantavam a voz um para o outro e a privacidade ao banheiro sempre foi respeitada. Ele até urinava na frente da mulher, não se importava. Mas ela não. Mantia-se recatada, uma lady.
Foi ela quem recomendou a consulta ao então marido.
- Irene, sabes que não gosto de médicos – argumentou Norberto contrariado.
Irene pôs a mão em seu ombro e disse de forma sutil:
- Mas amor, a clínica do dr. Gustavo é reconhecidíssima. A Mara, sabe a Mara? Pois é, a Mara disse que ele nem precisou de exames pra identificar do que ela sofria. Uma doença horrível. Logo sarou.
- Que doença?
- Não sei bem, mas parece que peidava o dia inteiro. Credo!
O diagnóstico foi tão preciso quanto vexatório quando constataram que seu problema era, como o de Mara, de ordem digestória: flatulência. Receitaram, então, comprimidos que aliviariam sua angústia e lhe garantiriam o sossego e o bem estar.
- Não gosto de tomar remédios, doutor – disse ao médico durante a derradeira consulta – na verdade, não os suporto.
- Pois então aprenda a viver com essas dores, que bem sei, por relatos, é claro, ser insuportável – falou o médico.
- Por quanto tempo terei que tomá-los?
- Sempre que necessário - respondeu dr. Gustavo com um sorriso frio, cobrindo Norberto de vergonha.
Saiu do consultório arrasado. Como iria contar isso a sua esposa? Ela ficaria enojada. Largaria dele. Recatada como era nem discutiria o assunto, inventaria motivos outros para justificar sua decisão.
E assim foi. Irene mostrou-se compreensiva no início.
- O que é isso, Norberto? Claro que não me incomodo. Como você poderia prever isto?
- Ora, mas a Mara...
- Deixa disso Norberto – retrucou Irene – tome seus remédios e tudo logo se resolverá.
- Remédios, remédios... Como viviam os ancestrais sem remédios? – murmurou.
- Quê? – questionou Irene irritada pela postura de Norberto e pela notícia. Era notória sua exaltação. Mostrou-se solidária por educação, mas sabia que não suportaria a situação por muito tempo.
- Nada, Irene. Nada.
Dois meses depois, ela o largou. Pela primeira vez desde que estavam juntos invadiu o banheiro. A um Norberto desolado, sentado no vaso com as mãos segurando o queixo, disse:
- Que fedor! Não suporto mais dormir ao teu lado, Norberto. É impossível. Impossível! – declarou. Bateu a porta e repetiu indignada:
- Que fedor, meu Deus do céu!
Não quis nem divisão de bens, brigar pela casa, essas coisas. O carro era dela. Ele que se virasse. Juntou as roupas em uma mala grande, socou pilhas de sapatos dentro de um baú e sumiu.
Norberto ficou na merda. Após a separação, entregou-se a bebida. Acostumara-se àquela vida de restrições. Irene o educara, tornara-o um homem direito, supunha. Seis anos passaram juntos. Seis anos. “Por que isso foi acontecer comigo?”, perguntava-se em meio a intermitentes goles.
O remédio dava conta das dores, mas, mesmo ao lado de Irene, estipulara uma dose: um comprimido por dia, assim que o primeiro desconforto se manifestasse. O efeito não durava muito, apenas algumas horas. A compostura, adquirida no casamento, disfarçava sua angústia no resto do tempo. Passava os dias combatendo quieto seu sofrimento. Se estava em local público, no trabalho ou qualquer ambiente que não sua casa, recolhia-se a um banheiro quando não suportava. Aí peidava. Tentava fazer com que saísse silencioso para que outros não ouvissem os lamentos de seu fardo recente. Suava, respirava fundo, até liberar todos os gases.
Solteiro também vivia assim. Era só cair na noite, beber umas a mais, comer demais, que a dor voltava. E o atormentava. Havia dias em que tudo parecia como antes. Era estranho pensar, há menos de seis meses tudo parecia bem. Pressão, normal. Triglicerídeos, glicose, colesterol, tudo bem dosado em seu organismo. Nem hemorróidas tinha. E olha que conhecia uma porção de gente que sofria com isso. Ele não. Comia e bebia como um rei. O exagero à mesa não o incomodava, pelo contrário, satisfazia. Sozinho, passou a desprezar ainda mais os conselhos médicos. Seu mal já o privara da mulher mais pura que encontrara. Dos prazeres da boa culinária e do alento de um bom trago ninguém o iria proibir.
Pensava com raiva em Irene naquela manhã do dia de Santo Antônio. Àquela altura atravessava uma ruela estreita, apinhada pelos freqüentadores dos tantos restaurantes instalados por lá. Desiludido, cansado dos olhares de reprovação dos que cruzavam com ele pela rua, resolveu se libertar. Estava sujo. Há dias não tomava banho. Com a barba cobrindo o rosto, um hálito de morte e o passo pesado, peidou pela primeira vez em público desde que descobrira seu problema.
Foi um alívio. O primeiro flato foi ruidoso, demorado, saciou seus desejos reprimidos. Saiu quente e infestou os arredores com o cheiro de cárcere que lhe cabia. Norberto não mais sentia vergonha. Os olhares de desgosto aumentaram. Alguns riam, mas a maioria afastava-se como podia do homem insensato que ousou esculhambar em ambiente tão familiar.
Foi a sucessão de atos que tornou a cena comovente. Norberto sujo, com roupas velhas, barba já longa, cabelos escassos e desgrenhados, peidava e sorria. Peidava e pouco se lixava para a opinião do povo limpo que o cercava. Peidava e aos poucos adquiria outra postura. A dor que lhe curvara as costas fora embora. Podia de novo andar altivo. Decidiu ir para casa tomar um banho. “Fodam-se os outros”, pensou. “Posso ser um novo homem”. O intervalo entre um peido e outro era curto. Cinco passos, pouco mais, e vinha um novo.
- Velho nojento – soou uma voz estridente às costas de Norberto.
Virou-se incomodado e deparou-se com um grupo de meninas, todas muito asseadas, bem penteadas, metidas em roupas de grife; impecáveis. Três bonecas pareciam, duas loiras e uma morena. Não deviam ter mais do que 18 anos.
Como um cachorro, Norberto rosnou para elas.
O grupinho explodiu em risos. Empolgada, outra das jovens exclamou:
- Velho asqueroso!
Norberto mandou-as às favas e seguiu seu rumo. Era um novo homem. Só precisava de um banho.
Quadras distantes do local das ofensas, aproximava-se de seu lar. Um lugar calmo, afastado dos ruídos do trânsito e do burburinho da cidade.
“Velho nojento, velho asqueroso, velho nojento, asqueroso”, as palavras martelavam sua mente.
Abriu a porta de casa e sussurrou entre os dentes:
- Quem aquelas putinhas pensam que são... Velho nojento...
Jogou as chaves no aparador ao lado da porta e deixou-se cair na poltrona que herdara de seu avô. Ali permaneceu por horas, divagando nos acontecimentos daquela manhã. Pensou mais uma vez em Irene. Tentou lembrar como fora parar na casa daquela desconhecida, onde acordou. Mas as faces de escárnio das jovens meninas sempre se sobrepunham aos demais pensamentos. Esqueceu do banho, dos planos de redenção, e adormeceu.
Dormiu sentado 24 horas ininterruptas. Quando acordou as dores haviam sumido. Foi ao banheiro. Tentou ir aos pés. Abriu o jornal na página policial e permaneceu sentado no vaso por cerca de cinco minutos. Nem um peido. Estranho. Olhou o frasco de compridos cheio em cima da pia. Estava curado, só podia, estava curado. Não sorriu nem se perdeu em êxtase pela constatação prematura. Sentia-se mal.
Levantou-se, levantou as calças até o umbigo. Mesmo sem dejetos puxou a descarga. Olhou-se no espelho, analisou as marcas em seu rosto e começou a chorar. Nunca antes havia reparado nas pequenas rugas ao lado dos olhos que a imagem refletida lhe mostrava. Nem na leve papada debaixo do queixo. O cabelo ralo, já grisalho, tudo isso agora o incomodava.
Entre lágrimas fez a barba, tomou banho. Vestiu-se e voltou à poltrona, decidido. Abriu a lista telefônica. Nas páginas amarelas procurou ajuda. Logo achou o que queria. Discou. Enquanto não atendiam, apressou-se em pegar lápis e papel para anotar os preços que viriam.
Uma voz gentil e delicada anunciou:
- Clínica estética dr. Jairo Kentler, em que posso ajudar?
Não passava das dez da manhã quando acordou ao lado de uma desconhecida. Sem despedir-se, vestiu as calças e saiu devagar. Torcia por não deixar nenhum vestígio. Seu passo era lento, difícil, agravado pelas dores abdominais que há meses, recorrentemente, o acometiam. De um dia pro outro, quando tudo parecia bem, surgiram essas dores. Atingiram-lhe como lanças em chamas ao perfurar um grande animal. Era grande, Norberto, um metro e noventa pra mais. Era também um animal, Norberto, como todos nós, apenas tentava disfarçar seu instinto, como todos nós. Ou quase todos.
Na época em que as dores surgiram ainda estava casado com Irene. Acreditava no amor mútuo que juras e mais juras tornaram reais. A relação dos dois era o balanço perfeito entre carinho e pudor. Beijinhos e carícias leves em público, sempre. Sexo bom, usual, sem sacanagem. Apenas “amor”. Nunca se ofendiam, jamais levantavam a voz um para o outro e a privacidade ao banheiro sempre foi respeitada. Ele até urinava na frente da mulher, não se importava. Mas ela não. Mantia-se recatada, uma lady.
Foi ela quem recomendou a consulta ao então marido.
- Irene, sabes que não gosto de médicos – argumentou Norberto contrariado.
Irene pôs a mão em seu ombro e disse de forma sutil:
- Mas amor, a clínica do dr. Gustavo é reconhecidíssima. A Mara, sabe a Mara? Pois é, a Mara disse que ele nem precisou de exames pra identificar do que ela sofria. Uma doença horrível. Logo sarou.
- Que doença?
- Não sei bem, mas parece que peidava o dia inteiro. Credo!
O diagnóstico foi tão preciso quanto vexatório quando constataram que seu problema era, como o de Mara, de ordem digestória: flatulência. Receitaram, então, comprimidos que aliviariam sua angústia e lhe garantiriam o sossego e o bem estar.
- Não gosto de tomar remédios, doutor – disse ao médico durante a derradeira consulta – na verdade, não os suporto.
- Pois então aprenda a viver com essas dores, que bem sei, por relatos, é claro, ser insuportável – falou o médico.
- Por quanto tempo terei que tomá-los?
- Sempre que necessário - respondeu dr. Gustavo com um sorriso frio, cobrindo Norberto de vergonha.
Saiu do consultório arrasado. Como iria contar isso a sua esposa? Ela ficaria enojada. Largaria dele. Recatada como era nem discutiria o assunto, inventaria motivos outros para justificar sua decisão.
E assim foi. Irene mostrou-se compreensiva no início.
- O que é isso, Norberto? Claro que não me incomodo. Como você poderia prever isto?
- Ora, mas a Mara...
- Deixa disso Norberto – retrucou Irene – tome seus remédios e tudo logo se resolverá.
- Remédios, remédios... Como viviam os ancestrais sem remédios? – murmurou.
- Quê? – questionou Irene irritada pela postura de Norberto e pela notícia. Era notória sua exaltação. Mostrou-se solidária por educação, mas sabia que não suportaria a situação por muito tempo.
- Nada, Irene. Nada.
Dois meses depois, ela o largou. Pela primeira vez desde que estavam juntos invadiu o banheiro. A um Norberto desolado, sentado no vaso com as mãos segurando o queixo, disse:
- Que fedor! Não suporto mais dormir ao teu lado, Norberto. É impossível. Impossível! – declarou. Bateu a porta e repetiu indignada:
- Que fedor, meu Deus do céu!
Não quis nem divisão de bens, brigar pela casa, essas coisas. O carro era dela. Ele que se virasse. Juntou as roupas em uma mala grande, socou pilhas de sapatos dentro de um baú e sumiu.
Norberto ficou na merda. Após a separação, entregou-se a bebida. Acostumara-se àquela vida de restrições. Irene o educara, tornara-o um homem direito, supunha. Seis anos passaram juntos. Seis anos. “Por que isso foi acontecer comigo?”, perguntava-se em meio a intermitentes goles.
O remédio dava conta das dores, mas, mesmo ao lado de Irene, estipulara uma dose: um comprimido por dia, assim que o primeiro desconforto se manifestasse. O efeito não durava muito, apenas algumas horas. A compostura, adquirida no casamento, disfarçava sua angústia no resto do tempo. Passava os dias combatendo quieto seu sofrimento. Se estava em local público, no trabalho ou qualquer ambiente que não sua casa, recolhia-se a um banheiro quando não suportava. Aí peidava. Tentava fazer com que saísse silencioso para que outros não ouvissem os lamentos de seu fardo recente. Suava, respirava fundo, até liberar todos os gases.
Solteiro também vivia assim. Era só cair na noite, beber umas a mais, comer demais, que a dor voltava. E o atormentava. Havia dias em que tudo parecia como antes. Era estranho pensar, há menos de seis meses tudo parecia bem. Pressão, normal. Triglicerídeos, glicose, colesterol, tudo bem dosado em seu organismo. Nem hemorróidas tinha. E olha que conhecia uma porção de gente que sofria com isso. Ele não. Comia e bebia como um rei. O exagero à mesa não o incomodava, pelo contrário, satisfazia. Sozinho, passou a desprezar ainda mais os conselhos médicos. Seu mal já o privara da mulher mais pura que encontrara. Dos prazeres da boa culinária e do alento de um bom trago ninguém o iria proibir.
Pensava com raiva em Irene naquela manhã do dia de Santo Antônio. Àquela altura atravessava uma ruela estreita, apinhada pelos freqüentadores dos tantos restaurantes instalados por lá. Desiludido, cansado dos olhares de reprovação dos que cruzavam com ele pela rua, resolveu se libertar. Estava sujo. Há dias não tomava banho. Com a barba cobrindo o rosto, um hálito de morte e o passo pesado, peidou pela primeira vez em público desde que descobrira seu problema.
Foi um alívio. O primeiro flato foi ruidoso, demorado, saciou seus desejos reprimidos. Saiu quente e infestou os arredores com o cheiro de cárcere que lhe cabia. Norberto não mais sentia vergonha. Os olhares de desgosto aumentaram. Alguns riam, mas a maioria afastava-se como podia do homem insensato que ousou esculhambar em ambiente tão familiar.
Foi a sucessão de atos que tornou a cena comovente. Norberto sujo, com roupas velhas, barba já longa, cabelos escassos e desgrenhados, peidava e sorria. Peidava e pouco se lixava para a opinião do povo limpo que o cercava. Peidava e aos poucos adquiria outra postura. A dor que lhe curvara as costas fora embora. Podia de novo andar altivo. Decidiu ir para casa tomar um banho. “Fodam-se os outros”, pensou. “Posso ser um novo homem”. O intervalo entre um peido e outro era curto. Cinco passos, pouco mais, e vinha um novo.
- Velho nojento – soou uma voz estridente às costas de Norberto.
Virou-se incomodado e deparou-se com um grupo de meninas, todas muito asseadas, bem penteadas, metidas em roupas de grife; impecáveis. Três bonecas pareciam, duas loiras e uma morena. Não deviam ter mais do que 18 anos.
Como um cachorro, Norberto rosnou para elas.
O grupinho explodiu em risos. Empolgada, outra das jovens exclamou:
- Velho asqueroso!
Norberto mandou-as às favas e seguiu seu rumo. Era um novo homem. Só precisava de um banho.
Quadras distantes do local das ofensas, aproximava-se de seu lar. Um lugar calmo, afastado dos ruídos do trânsito e do burburinho da cidade.
“Velho nojento, velho asqueroso, velho nojento, asqueroso”, as palavras martelavam sua mente.
Abriu a porta de casa e sussurrou entre os dentes:
- Quem aquelas putinhas pensam que são... Velho nojento...
Jogou as chaves no aparador ao lado da porta e deixou-se cair na poltrona que herdara de seu avô. Ali permaneceu por horas, divagando nos acontecimentos daquela manhã. Pensou mais uma vez em Irene. Tentou lembrar como fora parar na casa daquela desconhecida, onde acordou. Mas as faces de escárnio das jovens meninas sempre se sobrepunham aos demais pensamentos. Esqueceu do banho, dos planos de redenção, e adormeceu.
Dormiu sentado 24 horas ininterruptas. Quando acordou as dores haviam sumido. Foi ao banheiro. Tentou ir aos pés. Abriu o jornal na página policial e permaneceu sentado no vaso por cerca de cinco minutos. Nem um peido. Estranho. Olhou o frasco de compridos cheio em cima da pia. Estava curado, só podia, estava curado. Não sorriu nem se perdeu em êxtase pela constatação prematura. Sentia-se mal.
Levantou-se, levantou as calças até o umbigo. Mesmo sem dejetos puxou a descarga. Olhou-se no espelho, analisou as marcas em seu rosto e começou a chorar. Nunca antes havia reparado nas pequenas rugas ao lado dos olhos que a imagem refletida lhe mostrava. Nem na leve papada debaixo do queixo. O cabelo ralo, já grisalho, tudo isso agora o incomodava.
Entre lágrimas fez a barba, tomou banho. Vestiu-se e voltou à poltrona, decidido. Abriu a lista telefônica. Nas páginas amarelas procurou ajuda. Logo achou o que queria. Discou. Enquanto não atendiam, apressou-se em pegar lápis e papel para anotar os preços que viriam.
Uma voz gentil e delicada anunciou:
- Clínica estética dr. Jairo Kentler, em que posso ajudar?
8 de fev. de 2010
Unhas de porcelana
Cravadas nos dedos,
cobrindo feridas,
não escondem as chagas
da tua aflição.
As carnes corroídas sangram
por tantos problemas
marcados no peito
por causas pequenas.
Pela manhã confias
em tramas maiores;
à noite te deitas
sujeita a menores.
Falando do bem que quer
perdeste tua pouca graça;
te vejo esquecida, escorraçada,
de boca num banco de praça.
Do nada que restava
agora tudo se foi -
até o riso é frouxo,
aflito, rasgado.
Do mantra o lamento
calado, constante,
ressoa a agonia
por fiel namorado.
Pobre menina!
São os homens
a causa maior
de todo o teu mal.
Esperas demais
mas pouco ofereces
te perdes em preces
e esqueces o essencial.
Sua sina é ser puta
chamada piranha,
por mais que confundas
gozar com amor.
Unhas como essas, compreenda,
não escondem a loucura.
Sacie-se na dor dos outros, quem sabe,
ganharias mais.
Não escute meus conselhos, esteja certa,
são mudos e cegam-te o ser.
Chore mais uma vez,
minha querida,
àqueles que nego
reservo refúgio.
Não clame, não reze,
apenas aguarde,
por mais que ele tarde
o infinito o trará.
Chore mais uma vez,
minha querida,
por mais que ele tarde
um novo dia ainda virá.
cobrindo feridas,
não escondem as chagas
da tua aflição.
As carnes corroídas sangram
por tantos problemas
marcados no peito
por causas pequenas.
Pela manhã confias
em tramas maiores;
à noite te deitas
sujeita a menores.
Falando do bem que quer
perdeste tua pouca graça;
te vejo esquecida, escorraçada,
de boca num banco de praça.
Do nada que restava
agora tudo se foi -
até o riso é frouxo,
aflito, rasgado.
Do mantra o lamento
calado, constante,
ressoa a agonia
por fiel namorado.
Pobre menina!
São os homens
a causa maior
de todo o teu mal.
Esperas demais
mas pouco ofereces
te perdes em preces
e esqueces o essencial.
Sua sina é ser puta
chamada piranha,
por mais que confundas
gozar com amor.
Unhas como essas, compreenda,
não escondem a loucura.
Sacie-se na dor dos outros, quem sabe,
ganharias mais.
Não escute meus conselhos, esteja certa,
são mudos e cegam-te o ser.
Chore mais uma vez,
minha querida,
àqueles que nego
reservo refúgio.
Não clame, não reze,
apenas aguarde,
por mais que ele tarde
o infinito o trará.
Chore mais uma vez,
minha querida,
por mais que ele tarde
um novo dia ainda virá.
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