24 de jan. de 2013

Pequenas causas

Herdou a calvície do pai, parece que a mãe tinha longos cabelos loiros. Durante os cinco meses em que estivemos juntos, ela nunca levantou a questão, nem mesmo fez uma breve referência. Juro que tentei entender.

Vi Regina pela primeira vez no ponto de ônibus. Chovia bastante e ela carregava uma daquelas cestas de rifa embrulhadas em plástico. Estava encharcada e tinha as longas mechas, as poucas que lhe restavam, coladas no rosto. Uma mulher que chama a atenção. Compleição muito atraente. Cintura fina, quadril largo, quase demais. Sabe-se que o tempo pode ser impiedoso com mulheres desse porte.

O ônibus chegou. Fui o último a embarcar.

Passei a roleta e examinei a disposição dos passageiros. Ela estava só, à janela. Quando me aproximei, pôs a cesta aos pés. Pedi licença e sentei ao seu lado. Era ela ou uma velha gorda no banco de trás. Sempre procuro dividir o assento com uma mulher, tento fazer o acaso jogar ao meu lado. E eu andava tão sozinho desde que chegara à cidade que mesmo na mais banal situação eu incitava o acaso. Não tinha muitos amigos e, mulheres, bom, as mulheres pareciam não se atrair mais por mim. Perdi um pouco do jeito nos quatro anos de namoro com Bianca.

Regina contemplava o cinza do céu, as gotas no vidro resistindo ao vento. Abaixei para desamarrar os cadarços. De esguelha, pude vê-la me espiando, o vestido branco de estampa florida colado às cochas.
 
“Bela cesta”, eu disse.

Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha. No topo da testa, pelinhos curtos me lembraram um pássaro deixando o ovo.

“Obrigada. Ganhei da firma.”

“Adoro os bombons, mas o espumante normalmente é uma merda”. Merda. Cochichei a palavra para mostrar um pouco de pudor. Não se fala merda a uma desconhecida.

Ela sorriu. Dentes impecáveis. Um pouco de batom nos incisivos. Do jeito que corou, imaginei que jamais alguém havia puxado conversa com ela no ônibus.

“Achei que era champanhe”, ela disse, revirando o conteúdo da cesta.

“Difícil, torça pra que não seja sidra.”

“Odeio panetone.”

“Eu também, mas minha mãe sempre me faz comer um pedaço na ceia.”

“Quer?”

“O quê?”

“Um bombom.”

“Não, não, obrigado”.

“Não falou que gostava? Pega!”

Ela abriu o plástico com cuidado e retirou um bombom. De chocolate branco, meu preferido.

“Regina”, ela disse.  

“Ricardo.”

 “Prazer”, dissemos juntos.

Regina estagiava num escritório de advocacia, cursava o último ano de Direito. Sonhava em ser juíza, mas sabia o quanto é difícil. Teria que estudar bastante e admitiu que não gostava muito dos livros. Ia acabar nas pequenas causas. Comeu um bombom também, apesar da dieta. Não conta pra ninguém. Cheirava a sabonete de bebê, hálito de menta. Falei que não precisava de dieta, que estava muito bem. Ela corou de novo, e agradeceu.

Sempre gostei de cabelos longos. Não que seja a primeira coisa que reparo numa mulher, prefiro as pernas. Mas quando me perguntam digo que são os olhos. Gosto dos olhos. E dos sorrisos. No fim é o que mais faz falta. Bianca adorava penteados extravagantes, coques, tranças e o escambau. Durante o sexo pedia que eu puxasse seu cabelo (usava sempre amarrado nesses momentos) e a chamasse de puta e outras coisas. Gritava. Um exagero. No início eu era muito novo e ficava envergonhado, mas acostumei, passei até a gostar. Ela era três anos mais velha que eu. Costumo me relacionar com mulheres mais velhas, não sei bem por quê. Talvez seja a rabugice. Elas estão mais preparadas.

Regina era um doce. Crescera no interior e sentia saudades de andar a cavalo no sítio de um tio que nem sabia se ainda estava vivo. Herdou do pai também os gostos por música popular brasileira e poesia. Não soube citar nenhum autor. Tocava piano, não muito bem. Tinha pouco tempo pra praticar desde o início da faculdade. Passava os momentos de folga na internet. Tornara-se dependente da tecnologia e isso a incomodava um pouco. Adorava cinema, em especial Almodóvar.

Pouco falei sobre mim, as mulheres gostam de ser ouvidas e eu gosto de ouvi-las. Em especial as que não reclamam muito. Os homens não, sempre querendo contar vantagem. Usam muitas gírias e gargalham por qualquer bobagem. A chuva lá fora aplacara. Nem vi o tempo passar.

“Desço na próxima”, avisou Regina.

“Já?”

“Já, já. Foi um prazer.”

“O prazer foi meu.”

Joguei as pernas para o lado e dei espaço. Só não levantei porque estava com uma leve ereção. Meia bomba. Era o cheiro, o contato das pernas e o movimento dos seus lábios. Roçou a bunda de leve no meu braço quando passou. Regina parou ao meu lado, em pé no corredor. Subi pelo vestido branco e molhado, passei pelos seios e pela primeira vez reparei nos olhos cor de mel. O ônibus sacolejava.

“Espero que seja espumante”, ela disse, e estendeu a mão.

“Espero também... Pelo teu bem.”

Ela concordou com a cabeça e se dirigiu à saída. Por alguns segundos observei seu dorso, as nádegas firmes debaixo daquele vestido, as pernas fortes mas femininas. Da porta, me lançou um último e tímido olhar e sorriu. Foi como um estalo. Rabisquei meu número num bloco que levo no bolso e fiz um sinal para que se aproximasse.

Levantei meio encurvado, empinando a bunda, e entreguei o papel a ela. Um P.S. abaixo dizia, “me dê um toque que eu te ligo.” Que galante.

Quando o ônibus arrancou pude vê-la seguindo pela calçada. A cesta na mão esquerda, o bilhete na direita. Seu assento ainda estava quente. Não pude ver sua expressão, só o topo da cabeça, a imagem do passarinho. Aposto que sorriu. Deve ser duro para uma mulher perder cabelo. Me perguntei se estava doente, era o mais plausível. Aquela visão dela se afastando, o bilhete firme na mão, me despertou uma ternura quase comovente.

À noite, recebi uma mensagem no celular. “Espumante e importado, meu pai disse que dos bons. Tem planos pra sexta? Prometo guardar bombons.”

Sugeri um bar próximo à minha casa, local reservado e elegante. Barato também. O escritório devia estar faturando bem para dar espumante importado aos funcionários.

Regina chegou um pouco atrasada. Eu esperava escorado no balcão, tomando uma cerveja, tentando parecer um pouco patife, um patife de bons modos. Estava muito bonita. Na cabeça um lenço preto como faixa, discreto, nem se percebia nada. Vestido também preto, com um decote generoso. Me beijou na bochecha e pediu desculpas pela demora. Quê isso... Ofereci um drink. Ela disse que ia de cerveja também e que tinha um pouquinho de fome. Brindamos à sexta-feira. Acordara com desejo de pizza, será que tem? Não só tinha como era a opção mais barata do cardápio. Eu andava mal de grana. Ela também preferia o balcão. Cruzou as pernas e observou o ambiente. Móveis rústicos, tijolos de demolição, mesas reservadas. Abstrato de bom gosto nas paredes. Gosto da luz. Não parecia tão tímida quanto no ônibus. Disse a ela que tinha belas pernas, talvez as melhores que eu já tinha visto. Ela agradeceu e, um tanto encabulada, replicou: “passo creme toda noite antes de dormir”.

Comemos ali mesmo no balcão e seguimos com a cerveja. Um trio de teclado, guitarra e bateria começou a tocar alguns clássicos do rock e ela me convidou para dançar. Resisti um pouco, mas não precisou de muito esforço para me convencer e acabamos dançando até o fim do show. Insinuava-se apenas, sem me tocar. Movia-se devagar, ombros, pescoço e quadril; jogava a cabeça para trás e fechava os olhos. Parecia em transe nas melodias mais lentas. Eu já estava um pouco alto por causa da cerveja e me movimentava o mínimo possível. Não queria fazer papel de bobo.

Deixamos o bar antes das duas da manhã. Regina comentou que desde o baile de formatura do colégio não sentia os pés tão cansados. Era uma sensação muito boa. Elogiei seus pés e fiz questão de carregar os seus sapatos enquanto andávamos pelo quarteirão, dividindo um cigarro e contemplando a lua cheia, tão próxima naquela noite. Era uma noite amena de verão e o único som audível era o zunido dos postes de luz. Segurei a sua mão e propus que fôssemos ao meu apartamento, a dois quarteirões dali. Achou melhor deixar para a próxima, estava cansada e tinha aula na manhã seguinte. E aquela conversa de mais um drink (juro que eu falava em "drinks", sou um tanto antiquado) não a enganava. Não insisti muito, só o suficiente para atestar minha vontade. Prometo me comportar. Disse que estava muito cansada e tinha aula na manhã seguinte.

Chamei um táxi. Agradeci pela companhia e ela sugeriu que repetíssemos. “Pode ser amanhã?”, brinquei. Regina sorriu, colocou a mão no meu peito e disse com a voz mais doce: “deixa que eu te ligo”. Então nos beijamos. Era uma noite clara de lua cheia e não se ouvia os barulhos do trânsito nem o burburinho das pessoas. Envolvi sua cintura e fiz com que nossos corpos se aproximassem.

O táxi chegou e parou à nossa frente. O motorista abriu a porta de trás. Regina sorriu uma última vez e me deu mais um beijo.

“Te ligo”, repetiu, e me empurrou devagarinho.

Estava pronta para embarcar quando a chamei: “Regina!”

Ela se virou.

“Os teus sapatos.”

Transamos no terceiro encontro, sem contar o do ônibus. Foi no meu quarto, à meia luz. Pediu que eu usasse preservativo e negou o sexo oral que me prontifiquei para praticar. Gosto de dar prazer às mulheres e é raro eu fazê-las gozar com penetração. Acho que me falta diâmetro. Disse que não, que me queria dentro dela. Veio por cima e se entregou, gemendo baixinho no meu ouvido. Corpo espetacular, sem estrias e quase nada de celulite. Bicos dos seios rosados, bastante pelo no púbis, como eu gosto. Não pediu que eu batesse nela, muito menos que puxasse os seus cabelos. Aliás, passei a evitar qualquer assunto relativo durante o nosso relacionamento. Comecei até a usar um boné velho que pertenceu ao meu avô.

Cada vez nos encontrávamos com mais frequência. Aos sábados íamos ao cinema. Regina não gostava de blockbusters, o que era bom, assim evitávamos os shoppings centers. Após o filme beliscávamos algo e ela ia para casa, de ônibus. Sábado era sagrado, era a noite em que fazia companhia ao pai. Assistiam à televisão ou jogavam canastra até tarde ou apenas conversavam. Quando certo dia insisti que deixasse o pai sozinho e dormisse comigo, pediu compreensão e explicou que a morte da mãe lhe impusera algumas responsabilidades familiares. Era bom que eu entendesse. Talvez eu pudesse a acompanhar uma hora dessas. Vamos ver, eu dizia, vamos ver. Dormia no meu apartamento às quintas, a única noite em que não tinha aula. Gostava de transar no tapete da sala, a janela entreaberta para que os vizinhos pudessem espiar. Adormecia com a cabeça no meu peito e dizia se sentir mais mulher comigo. Eu a observava dormir e acariciava a sua cabeça, examinando com cuidado o couro cabeludo.

Numa dessas quintas fomos ao supermercado comprar os ingredientes para uma galinha escabelada que ela queria fazer. Chamava de fricassê. Estávamos na fila do caixa, de beijinhos e sorrisos, quando vi dois dos meus colegas de trabalho se aproximando. Marcos, o gerente da loja, e Antônio Carlos, o segurança figurão que todo mundo adorava.

Fiquei desconcertado. Eu já era visto como esquisito por ser muito quieto e comer minha quentinha sozinho na hora do almoço. Fingi surpresa ao ler uma manchete na capa de uma daquelas revistas de fofoca e me agachei. Fiquei ali, de cócoras, folhando a revista. Regina perguntou o que tinha chamado a minha atenção. Não sabia que eu gostava desse tipo de revista. Bobagem, eu disse, um minuto. Atrás de nós estava um senhor com café solúvel e um cacho de bananas na cesta e uma mulher com o carrinho cheio de fraldas. Eles, Marcos e Antônio Carlos, pararam no fim da fila.

O casal da frente esperava a nota e Regina já tinha soltado o peito de frango na esteira. Pediu que eu levantasse e que, oras, se te interessa tanto, leva a tal revista. É feio ficar folhando e não comprar. Levantei, teso, sem olhar para trás. Não sou nada bom em dissimular. Senti cutucarem meu ombro. Acho que mesmo de costas sou caricato. Magro, um pouco encurvado e muito alto. O pescoço parece o de uma marreca, como dizia minha avó.

“E aí, cara!”, disse Marcos, com as duas mãos espalmadas na frente do corpo. Não sei se esperava que eu batesse, como em uma saudação de garotas do colegial.

“Marcos. Tudo bem?”

“Tudo certo, viemos comprar uma cervejinha.” Antônio Carlos, pouco mais atrás, exibiu orgulhoso o fardo de 12 latas. Tinha duas toras como braços, o colarinho mal fechava no pescoço.

“Maravilha”, eu disse.

Regina passou o frango. Mesmo de costas para ela eu tinha certeza que olhava para eles e sorria.

“O que você vai fazer no sábado?”, perguntou Marcos.

“Não sei...”

“Vamos a uma festa no Jockey, não quer ir? Vai todo mundo da loja, até o Baltazar!” Baltazar era o funcionário mais antigo, trabalhava no setor administrativo e era sempre o primeiro a chegar. Já tinha seus 60 anos. Gosto do Baltazar, ele conta umas boas histórias.

“Não sei...”

“Pode levar um amigo, ou uma amiga”, disse, indicando Regina com a cabeça e piscando um olho.

“Ah, Regina, Marcos. Marcos, Regina. E ele é o Antônio.” Marcos apertou a mão de Regina, o mesmo sorriso adorável que lançava aos clientes insatisfeitos. Grandessíssimo puxa saco. Antônio Carlos fez o mesmo movimento de antes com as cervejas. Era um cara simpático, simpático até demais.

“Amanhã a gente conversa no trabalho, tenho um compromisso sábado, mas talvez eu possa desmarcar.”

“Beleza”, ele disse.

Regina fez questão de pagar a conta. Levamos a revista.

Enquanto saíamos, ela perguntou qual seria o meu compromisso no sábado. Disse que nenhum, fora só uma desculpa.

Não falamos nada durante o jantar. O frango escabelado não estava muito bom e naquela noite, pela primeira vez, ela não adormeceu no meu peito.  

Marcos me falou no dia seguinte que eu tinha uma namorada muito bonita. Disse que ela NÃO era minha namorada e que NÃO, não poderia ir à festa sábado. Ajudaria a vizinha com um ventilador de teto, uma senhora do andar de cima. Antônio Carlos, o brutamontes, passou a sorrir sempre que me via.

Acho que foi no terceiro mês que as perguntas começaram, logo após o episódio do supermercado. Por que não me apresenta aos teus amigos? Não tenho amigos, eu respondia. Ela não acreditava. Outras mulheres frequentam a tua casa? Não, a não ser Janice, a faxineira, uma vez por mês. E a tua família? Por que nunca fala deles? Moram longe e não tenho muito o que dizer. Meu pai me odeia e minha mãe é uma dondoca que só pensa em jantares chiques e roupas caras. São divorciados há mais de dez anos. Sou filho único, o que mais quer saber? Ela ficava quieta e evasiva. Por que teu pai te odeia?

Não sou de falar muito. Como já disse, gosto mais de ouvir. E Regina falava quase tudo sobre si. Sentia muita falta da mãe, a pessoa mais linda - “por dentro e por fora” - que já conhecera. Coração enorme, tão grande que não resistiu ao segundo enfarto. Há anos não via o único irmão, transferido para o Rio de Janeiro pela empresa de eletrônicos que administrava. Perdeu a virgindade aos 19 anos com um namorado dois anos mais velho, estudante de Engenharia que conhecera no campus. A única vez que sentira algo parecido com amor. Não gostava de esportes, só natação, que praticou durante três anos. Chegou a competir. A escolha por Direito foi um pouco de influência do pai, mas acabou se acostumando e agora até gostava. Falava das aulas, dos filmes que já tinha visto, do trabalho - e como um cara que trabalhava com ela realmente a incomodava -, do pai, de vida e morte. Falava sobre quase tudo, mas nunca sobre a calvície.

Não demorou para que deixássemos de ir ao cinema. Ela estava muito ocupada com os estudos e era cada vez mais exigida pela firma. Tinha também o trabalho de conclusão de curso. Nossos encontros se restringiram às quintas, no meu apartamento. Nos outros dias, falávamos por telefone, para saber se estava tudo bem e desejar boa noite. Eu sentia um pouco de saudades, é claro, mas por um lado era muito conveniente. Podia me dedicar às minhas coisas e quando nos víamos era sempre muito agradável. Não demorou também para que as perguntas cessassem e tudo voltasse ao normal, como nos primeiros dias. Dávamos boas risadas, o sexo era ótimo e ela ainda cozinhava para mim. Repetiu a galinha escabelada e daquela vez acertou. Regina gostava de vinho e cerveja e não se importava que eu fumasse. Dizia que lembrava o cheiro do seu falecido avô.

Eu estava apaixonado por ela, essa era a verdade.

Mas seu silêncio quanto à calvície me intrigava. Com Bianca também, eu nunca conseguia me abrir ou interpela-la ou expor aspectos que me incomodavam. Pensei em dar um lenço a Regina, e fico um pouco envergonhado em admitir que no princípio achei a ideia genial. Não sabia como introduzir o assunto. Sou um covarde. Com Bianca, minha introspecção acabou se tornando recíproca e enfim consumiu todo o amor. Sobrou apenas desconfiança e ressentimento. Eu tinha que perguntar. Sabe, é a velha história do curativo, deve-se arrancar com um puxão rápido. Só que o curativo fora posto há mais de quatro meses, um puxão rápido traria junto um pedaço da pele.

Listava na minha cabeça todas as suas qualidades, eram muitas. Tentava racionalizar. De que importam os cabelos – “acessórios” inúteis da constituição física, mero artifício estético - se tenho seu carinho? Não sou uma pessoa pública, minha imagem não vale nada, não preciso de uma figura imaculada ao meu lado. Não devo nada a ninguém. Mas nós, homens, somos grandes filhos da puta. Não conseguia me imaginar vivendo com uma mulher calva. Pior, uma mulher que não assumia a calvície. Ainda se eu a tivesse conhecido antes... Não era melhor raspar de uma vez? Se apegava a cada fio! Meus amigos ririam pelas minhas costas, minha família até fingiria não ver, mas seria assunto dos almoços de domingo em que eu não estivesse presente. Futriqueiros do jeito que são. E como as outras mulheres iriam me olhar na rua? O orgulho de um homem é foda. Ou eu encarava as perguntas e assumia a nossa relação, ou deixava de vê-la.

Foi quando procurei Honorífico, pai de Regina. Já tinha ouvido falar em Amador, Hilário e até Tristão, mas Honorífico era novo para mim. Desci no mesmo ponto em que Regina desceu naquela primeira vez em que conversamos e procurei por uma rua sem saída, e depois pela casa de dois pisos com uma pitangueira na frente. Toquei a campainha e ouvi os cães da vizinhança ladrarem. Não tinha a mínima ideia do que iria dizer. Não tinha certeza se era a casa certa.

Um homem de rosto severo me espiou pela janelinha da porta.

“Seu Honorífico?”

“Sim...”

“Roberto, namorado de sua filha.”

Sem responder, fechou a janelinha e abriu a porta. Parecia desconfiado.

Alto, encovado, sequer um fio de cabelo na cabeça, Honorífico usava sapatos muito bem engraxados e calça de risca de giz. Devia recém ter chegado do trabalho. Alguns botões da camisa estavam desabotoados e deixavam à mostra os tufos de pelos grisalhos do peito. Por algum motivo lembrei que os primeiros pelos do meu corpo demoraram muito a crescer. Tive uma puberdade tardia e isso, na época, me causava embaraço entre os amigos. Os meninos se orgulham dessas coisas, assim como as meninas se orgulham dos seios incipientes e acabam usando sutiã muito antes do necessário.

Honorífico apertou minha mão com muita força, uma saudação demorada e desafiadora. Me convidou para entrar e pediu que eu sentasse no sofá. Ofereceu uma bebida, que recusei. Serviu-se de uísque, Natu Nobilis quase até o beiço. Olhava dentro dos meus olhos o tempo todo.

“Desculpe aparecer sem avisar.”

“Imagina, estava ansioso para conhecê-lo, rapaz. Regina falou muito de você.”

“Espero que bem, seu Honorífico.”

“Apenas Honorífico, por favor, dispenso o seu.”

“Certo. Honorífico. Bonito nome, aliás.”

“Não seja cínico, rapaz, é horrível.”

“Digo, diferente... Me soa bem.”

“Brincadeira, meu filho, não fique nervoso.”

Incômodas essas entrevistas. Senti que o suor das minhas mãos pingaria no carpete.

“Imagino que tenha vindo falar de Regina.”

“Sim, inclusive desculpa por não ter vindo antes, eu sou...”

“Por que está com a minha filha?”, inquiriu.

“Por quê? Hmm, ora, seu Honorífico...”

“Honorífico.”

“Honorífico. Eu e a Regina temos nos dado muito bem, não tem exatamente um porquê.”

“Você é um rapaz bonito.”

“Obrigado, sua filha também.”

“Sim, a menina mais linda que já vi.”

“Digo o mesmo.”

O silêncio. Um antigo relógio de pêndulo soou nove vezes. Meu coração batia na garganta. Devia ter preparado um breve discurso, talvez até ter ensaiado à frente do espelho. Honorífico tomou um generoso gole e apoiou um dos cotovelos na perna.

“Vou ser direto, Ricardo, a última coisa que quero é que alguém magoe a minha filha.”

“Não se...”

“Deixa eu terminar?”

“Desculpa.”

Honorífico respirou fundo para retomar o raciocínio.

“A Regina tem passado por muita coisa desde que a mãe morreu e não precisamos de mais tristeza nessa casa. A gente tenta levar uma vida tranquila, conversar bastante, fazer companhia um ao outro. Mas sei que a vida segue e ela ainda é muito jovem. Eu me viro, já sou velho... Posso dar conta da solidão. Tem seu lado bom, sabe? Passei quarenta e três anos casado. Qua-ren-ta e três. Sabe o que é isso? Quantos anos você tem?”

“Vinte e cinco.”

“Com vinte e cinco eu já tinha filho pra sustentar, trabalhava doze horas por dia, de segunda a sábado.
Quando eu tinha a sua idade, Ricardo, eu já tinha uma hérnia e pagava prestação da casa e do carro.”

“Desculpa, Honorífico, eu não quero...”

“Não tem que pedir desculpas.” Tomou outro largo gole.

 “Eu que peço desculpas”, ele disse, tentando se acalmar. “Você parece um bom rapaz. Não quero lhe dar lição de moral nem nada, cada um aprende com os próprios erros.”

Tentei não desviar os olhos dos dele. Olhos pretos, tão pretos que não se distinguia a pupila.

Tomei fôlego.

“Tenho uma pergunta a lhe fazer... Não leve a mal, por favor, é algo que não consigo falar com a Regina.”

“Já sei”, disse ele.

“Sabe?”

“Sim.”

Honorífico coçava o queixo enquanto encarava uma almofada no sofá. Procurava pelas palavras adequadas. Então sorriu como se tivesse feito uma descoberta óbvia, voltou a me encarar, baixou um pouco a cabeça e passou a mão na própria careca.

“Isso!”, exclamei, excitado além do ponto. Tentei me recompor me arrependendo de não ter aceitado a bebida.

“Ela nunca me fala sobre isso, acho que tem vergonha e sabe... Acabo ficando com vergonha também, de perguntar. Por acaso ela está doente?”

“Não, graças a Deus não.”

Vou ser sincero, no fundo eu esperava que ela estivesse mesmo doente.

“É a genética”, disse Honorífico, a voz aguda de repente. “Na minha família todo mundo, todo mundo era calvo, meu pai não tinha um fio de cabelo com vinte e poucos anos, e eu também não! E minha mãe, que Deus a tenha, também não tinha muito.”

“E isso não tem cura?”

“Cura?”, ele debochou. “Existem tratamentos, transplantes, mas são processos caros e muitas vezes dolorosos.”

“Entendo.”

“Se realmente gosta da Regina, é bom que entenda. É muito difícil pra ela lidar com isso, faz terapia há dois anos, desde que começamos a notar a queda. Dava para ver principalmente no box e no travesseiro. Desde então só piorou. Chegou a usar perucas, mas tanto eu como o psicólogo aconselhamos que o melhor a fazer era aceitar. E tratar, claro, conforme dá. Ela chorava, me perguntava como iria arranjar um namorado daquele jeito, chegou até a falar em suicídio, que Deus me perdoe.” Quando falava em Deus, lançava olhares para o teto e jogava para o alto a mão que não segurava o copo.

 “É muito doloroso pra ela, é muito vaidosa”, concluiu.

“Como todas as mulheres”, eu disse.

Quando as palavras deixaram minha boca percebi a ambiguidade da frase. Achei engraçado tê-las dito, sem querer e naquela situação, frente a frente como meu recém-conhecido sogro. Honorífico não percebeu e seguiu, mas eu já não o ouvia mais. Dediquei todo esforço mental para tentar segurar o sorrisinho bobo que insistia em aparecer no meu rosto. Imbecil.

“... pinga umas gotas e massageia e isso freia um pouco a queda. Tem um monte de chapéus, usa lenços como já deve ter visto... Eu disse algo engraçado?”

“Não, não, seu Honorífico, só estou pensando aqui. Ela já deveria ter me contado, sabe? Eu entendo, entendo mesmo. Esse não é um empecilho pra mim, gosto da sua filha como ela é. Seu Honorífico... Honorífico. Estou apaixonado pela sua filha.”

O velho sorriu e pôs uma mão no meu rosto. Achei que fosse me beijar, como nos filmes de máfia. Mas não, me lançou apenas aquele olhar no fundo dos olhos. Quase lhe escorreu uma lágrima. Então foi ao bar e serviu duas doses. Estava orgulhoso. Esticou um dos copos para mim.

“Sabe, meu filho, isso tem sido muito difícil pra ela. Toda a situação, a morte da mãe, a perda de cabelo. Mas de um mês pra cá está muito melhor, dá para notar nos olhos. Acho que você tem feito bem pra ela.”

“Espero que sim, Honorífico.”

Acho que ele estava um pouco bêbado. Ficava me olhando fixo e parecia que a qualquer instante cairia no choro.

“Mas me conte,” falou para espantar a emoção, “quais são os planos de vocês para o final de semana? E falando nisso, sabe onde está a Regina?”

“Na aula.”

“Não, não, ela não tem aula na sexta.”

“Tem sim, seu Honorífico.”

“Não, não, e me chame de Honorífico, rapaz, se vamos conviver e melhor que se acostume.”

“O senhor tem certeza?”

“Absoluta. Achei que ela estava contigo, inclusive. Disse que não vinha pra casa hoje.”

Como assim não iria para casa?

“Bom, eu ligo pra ela”, falei. “Acho que estou me confundindo. Se não me engano, ela comentou mesmo algo sobre um coquetel do trabalho e que depois iria lá pra casa.”

Comentou nada, só não queria seu Honorífico envolvido. Me despedi dele e saí de lá muito confuso.

Regina não atendeu o celular. Mandou uma mensagem logo depois: “Estou na aula.” Cadela.

Me ligou por volta das onze e disse que estava no ônibus, indo pra casa. Não se ouvia o tráfego. Perguntei se não queria ir lá pra casa, ou se podíamos nos encontrar em algum lugar. Tinha que falar com ela. Ela disse que já era tarde e mais, estava a caminho de casa. Será que eu esquecera que ela tinha aula também no sábado de manhã?

“Bom, falamos outra hora então.”

“Tá. Tá tudo bem contigo?”, ela perguntou.

“Sim.”

“O que acha de darmos uma volta no parque, domingo? Também tenho que conversar contigo.”

“Vamos ver...”

“Tá tudo bem mesmo?”

“Sim.”

“Saudades de ti”, ela disse baixinho.

Eu disse que sentia saudades também, e desliguei.

Passei o final de semana inteiro em casa, só saí para comprar cigarros e mais cerveja. No domingo à tarde ela me ligou, mas não atendi. À noite ela mandou uma mensagem. “Sinto muito, mas posso explicar. Me liga quando estiver afim.”

Não liguei, aleguei indisposição ao Marcos e a segui durante a semana. Descobri que a careca vagabunda estava me traindo com um dos advogados do escritório, homem casado que atuava com pequenas causas. De longe, vi os dois num estacionamento. Estavam animados, conversado bem próximos. Entraram juntos no carro dele. Ela usava a mesma faixa do nosso primeiro encontro e carregava um buquê de flores. De certo foram para um motel barato no centro da cidade. Regina já tinha me falado dele algumas vezes, o tal que a perturbava. Ademir. Só podia ser ele. Dizia que era um ótimo profissional embora a “aporrinhasse” o tempo todo. Tinha ótimas histórias jurídicas e estava lhe dando “uma forcinha” com o trabalho de conclusão. Ótimo.

Não vou dizer que não chorei, principalmente à noite, sozinho em casa. Às vezes ainda desperto no meio da madrugada com a visão daqueles olhos cor de mel.

Regina até me procurou. Mandou mensagens no celular, e-mails, deixou uma carta na caixa de correspondência implorando para que pelo menos conversássemos. Disse que tinha uma explicação por ter mentido sobre as aulas. Eu queria perdoa-la, queria mesmo, esclarecer tudo, dizer que também errei me mantendo tão fechado e tão distante. Mas o orgulho de um homem é foda. Uma vez liguei de um telefone público só para ouvir a sua voz.

Dia desses vi uma mulher na rua muito parecida com ela. A mesma compleição, o mesmo sorriso. Até o vestido era semelhante àquele que usava na primeira vez em que a vi, no ponto de ônibus. Diferente eram os cabelos, cacheados e loiros, estilo Marilyn Monroe.

Talvez o filho da puta do advogado tenha pagado a ela um transplante.

24 de jan. de 2012

A máquina



Eu uso a máquina
pra dizer quem eu sou
Eu digo "ai, ai, ai"
segunda-feira chegou

Eu vivo no Brasil
país da corrupção
Eu grito "gol, gol, gol"
meu time é campeão

Eu tenho opinião
um clique a cada segundo
Eu sou a oposição
que vai mudar o seu mundo

Mostrar a injustiça social
Expor o que julgo ideal
Lutar pela causa dos animais
Meu deus o que posso fazer
se além desse calor
deu pau no meu PC?

Tenho consciência ambiental
política e moral
Separo meu lixo
Não voto em ladrão
Eu sou a evolução

Tenho consciência ambiental
política e moral
Não gosto de bicha
com todo respeito
sou livre de preconceitos

Eu uso a máquina
pra falar de amor
Comento "que horror"
o preconceito de cor

Voltei de Montreal
uma pessoa distinta
agora desprezo
nossa cultura de quinta

Ontem eu fui pra balada
hoje eu vou viajar
papai me deu a mesada
e um carro para arrasar

Me orgulha minha vida social
cercada de gente bonita e legal
Reúne a galera
e tira um retrato
e vê se curte senão eu te mato

Tenho consciência ambiental
política e moral
Separo meu lixo
Não voto em ladrão
Eu sou a evolução

Tenho consciência ambiental
política e moral
Não gosto de bicha
com todo respeito
sou livre de preconceitos

Tenho consciência ambiental
política e moral
e hoje acordei pra vencer
e hoje acordei pra vencer
eu hoje acordei
eu hoje acordei

é bom você saber.

14 de jan. de 2012

Meu destino é devaneio



Debaixo de chuva
pela frente o horizonte
sei que se esconde uma resposta lá ao longe
e eu quero ver
quero ver

Pedras no caminho
o vento forte voa contra
corta o meu rosto e não aponta a porta certa pra chegar
pra chegar

Meu destino é devaneio
O acaso as chances em que posso me agarrar (2x)

Muros de concreto
um bombardeio incessante
sombras no encalço e o infinito adiante
e sigo sem saber
sem saber

Fecho os meus olhos
salto alto em um instante
de uma nuvem branca arranco um faixo de esperança
porque quero ver
quero ver

Seco o suor da testa
aperto o passo
nada vai me segurar

Meu destino é devaneio
O acaso as chances em que posso me agarrar (2x)

Obituário

Parte da minha infância morei próximo ao Cemitério Municipal de Caxias do Sul, numa espécie de cortiço de casas individuais, onde viviam também meus avós paternos, algumas tias e inquilinos, que iam e vinham. Meus pais trabalhavam o dia inteiro e, no turno em que não estava na escola ou nas ruas, tinha minha avó como guardiã. Vez ou outra acompanhava seu roteiro de beata quase cotidiano: missa, “o terço”, velório e enterro.

Na missa eu era amigo do padre. Observava embasbacado o juízo final pintado no teto da igreja por Aldo Locatelli. No terço compartilhado arriscava minhas ave-marias para não me entediar. Era uma criança calma. Sempre ganhava doces e agora quase sinto o cheiro de alfazema. Lembro que num velório questionei minha avó sobre a identidade do defunto, mãos em cruz sobre o peito e um estranho sorriso no rosto. Pesarosa e com lágrimas nos olhos, ela cutucou a senhora ao lado, que cutucou a outra e assim se sucedeu até que voltou a resposta. Era irmão da falecida Fulana. Um homem bom, pobre filho de Deus. Tão novo!

Seguíamos em procissão ao cemitério, eu - com meus sete, oitos anos - e as velhinhas. Uma ladainha em dialeto vêneto ou latim ecoava entre os mausoléus. Na minha memória sempre chove. A comitiva respondia estridente, em uníssono. Todas trajavam vestes escuras. Por entre as ruelas sinuosas da cidade dos mortos eu me perdia. Procurava por túmulos de crianças. A passo lento observava as datas nas lápides, fascinado. Quem sabe encontraria, por acaso, um nascimento análogo ao meu e a data de óbito surgiria como presságio da minha. Nunca quis encontrar.

Cálculos rápidos me revelavam a idade aproximada. Seis, sete, 12 anos. Crianças sorridentes como eu engavetadas ou atiradas sem dó sob uma pedra fria, que de certo saíram para um mero enterro com a avó e por lá ficaram. Algumas nem chegavam a um ano, outras duravam apenas dias ou horas. E todas as suas memórias estavam ali, resumidas por um nome ao qual mal se acostumaram e pelo breve intervalo entre a estrela e a cruz. Descansem em paz.

Minha mãe ficava louca ao saber das nossas macabras incursões. Mal sabia ela que minha avó, sem querer, me preparava para encarar a morte como o destino comum entre todos, o inevitável.

Cresci, dei as costas à igreja e só fui voltar ao cemitério dez anos depois, mais, para engavetar meu pai. As ruas pareciam ainda mais estreitas mas o ambiente, embora pesado, tinha algo de acolhedor. Um ano se passou, morreu minha avó. Seguimos em comitiva para sua derradeira cerimônia fúnebre, da qual dessa vez era protagonista. Já não havia velhinhas entoando cânticos sacros e as crianças já não me interessavam mais.

Agora, o que isso tem a ver com obituário, não sei.

1 de set. de 2011

Vaias, cusparadas e o membro do Zulu

Foto: Porthus Junior

Tem gente que não sabe brincar. Nem torcer. Acho que a torcida tem todo o direito de vaiar quando o time joga mal ou, principalmente, faz corpo mole em campo ou quando bem quiser, vá lá. Sabemos bem como são os gringos. Aliás, é impressionante como se nota gente que vai ao Jaconi só pra cornetear. Não sabe o nome de um jogador sequer, vai "à paisana", xinga o dois, o sete, o dez, o juiz e até o gandula e o cara do lado que é gordo e ocupa mais de um assento, sendo que há vinte disponíveis do outro lado.

Pessoalmente, não acho legal vaiar o time. Me parece que o boleiro, bicho ruim, porém adorável, que é, vai ficar desmotivado e ao invés de querer responder à torcida com boas atuações - o que seria mais coerente - vai é mandar tudo à merda, pedir pra sair e ainda desferir uma banana pras arquibancadas. Mas há exemplos que desmentem minha tese, como é o caso do Zulu. O "contestado Zulu
" como o Elizeu Evangelista adora se referir. Levou vaia, teve apoio do treinador e de parte da torcida e agora ajuda o time com assistências, gols, desarmes e o caralho, embora não seja um jogador brilhante. Lembrando ao irracional e desavisado torcedor que estamos na série D.

Isso mesmo, até com o caralho segundo informação exclusiva obtida por um ilustre membro do Consulado do Juventude em Porto Alegre do qual me vanglorio vira e mexe por ter um parentesco longínquo. Mas parece que a relação do membro (do centroavante) com o grupo não tomou proporções sexuais, ainda. Serve apenas como símbolo de respeito ao clube - e
às vestes sagradas que o cobrem - a alguns e motivo de pilhéria a outros.

Porra, já a cusparada é um desrespeito sem tamanho, já demonstrei a minha indignação quanto a isso em conversas com amigos e discussões internas dos Papos da Capital. Inaceitável. Dentro da minha mesma “Teoria da Vaia” há um subcapítulo dedicado ao xingamento ao bandeira e aos demais adversários que se aproximem do alambrado. A pressão psicológica só é efetiva se bem exercida, com argúcia. Por exemplo, falar que ele usa calcinha, é corno, feio ou fede a peixe são argumentos válidos. Só exemplos de um universo vasto e pouco explorado. Quando o erro é de real gravidade, e causa revolta, cabe uma ameaça maior do tipo “te pego na saída, seu canalha!”. Daí pra mais, tudo bem. Opção de cada um. Quem vê eu nunca xinguei um puto desses de puto. Mas “morto de fome”, “nêgo de merda” e o que o valha, por favor... Reservem seus preconceitos étnico-sociais a rodas de amigos, familiares e pulhas sem respeito algum como você.

Voltando às cusparadas... Sou a favor até que
advirtam a torcida pelos alto-falantes no início dos próximos jogos, pedindo respeito ao torcedor. Seria constrangedor, é claro, mas já não é o suficiente? Ou mantenham as vidraças, pronto. Sugiro também que ao visualizar algum ato desses irresponsáveis, os verdadeiros torcedores façamos um levante imediato para expulsá-los do estádio. Aí cabe quebrar o rigor, mandá-los a puta que pariu abaixo de chute no rabo. Bando de cuzões! O Juventude é muito maior que meia dúzia de imbecis!

Enfim, essas são as minhas considerações. Desculpe a extensão do texto, papo de fé.

Sábado é nóis na liderança isolada. Independente das inevitáveis alterações por suspensão, dizem que o Zulu vai entrar com tudo. Parece que o goleiro deles até fugiu. Que venham os cianórticos.

29 de mar. de 2011

Foi-se o tempo

Acomete-me a lembrança
da varanda verde
e as samambaias.

O dia de chuva e sol,
a luz amarelada
pelas velhas telhas transparentes
e a lajota fria
de vermelho sangue,
sem dor.

O ambiente na memória é quente
frente todo àquele verde
e pálido amarelo passado
do inverno que nunca mais houve.

Houve outras estações,
novas paisagens, risos, prantos,
sentimentos tantos, recordações;
mas o dia do qual lembro já se foi,
mora no instante interrompido
pela hora a vir e vir.

Cantarola na cozinha
uma tia que não tive;
a saia longa sacoleja
no compasso das ancas
e a mão, veloz, bate
a clara em neve
para os sonhos do menino,
seu sobrinho merece carinho.

Deitado, eu vejo os pingos
lá fora, um por um agora;
arremesso uma bola de meia
ao infinito daquela tarde,
vai e volta, vai e volta,
mas não voltará,
como o ontem
e o amanhã,
como o agora
e o depois.

E o agora
e o depois...

10 de jun. de 2010

O fim da poesia

No mundo, hoje, não se vive de poesia.
Vive-se de criar aleivosias para vender
artigos tantos, todos os tipos de porcaria.
Vive-se de fato na busca por um espaço
no tão comentado mercado de trabalho.
Não depende das estruturas dos versos,
sejam simples, sem nexo ou complexos,
no mundo, hoje, não se vive de poesia.
A verdade do poeta virou peça barata,
não vale de troco, imagina sustento.
Logo ela que já foi tão nobre, veja,
hoje é simples perda de tempo.
A poesia, alguém já disse,
repito, é a voz da alma.
Mas um dia por si só
irá se acabar junto
com o mundo, só,
como os filmes
de Hollywood:
THE END.
Ou daqui
mesmo:
FIM.

4 de jun. de 2010

Uma coisa leva à outra

Saía-se muito bem
no estudo de línguas
mortas.

Tinha opinião sobre moda,
estilo e outras coisas
essenciais.

Sonhava só, dançava só
frente ao espelho
opaco do seu quarto.

Seus pais depositavam fé, dinheiro
e no futuro alheio idealizavam
planos.

Já tinha lá seus 20 anos
quando deu o
primeiro beijo.

Encontrou aos 30 uma pessoa
aberta ao amor, não deu
certo.

Não tinha tempo para dar
afeto e outras coisas
fúteis.

Tinha já as línguas, a moda,
a vida a lhe perseguir
e a dança só,
e o sonhar só
já lhe serviam.

Hoje faria 50 e jaz em cova rasa
metido num belo fraque
ao lado do parque
pelo qual jamais
andou.

Espero que sua alma esteja em paz.

21 de mai. de 2010

Certa moça

Sonhei com certa moça
a desejar tão triste
um poema para si.

Para atender à sua vaidade,
à sua vontade de mulher
inconformada, me pediu.

Toda uma vida passada
olhou o passado e não viu
um fragmento de paixão

intensa,
uma ode,
uma sentença,

uma mera
declaração.

Dizia ela se sentir usada
por todos os homens
já provados, safados.

Dizia ela estar acostumada
ao desencanto do tempo
de uma relação não tida.

Dizia ela estar também cansada
de esperar e nunca ter
ninguém a quem pudesse sorrir.

E declarou, assim, meu bem:
Exponha seus versos pra mim.
Por favor... Por favor...

Não resisti ao quadro da dor
exposto em moça tão bela e
em frases mudas declamei.

Ouviu atenta.

Ao fim dos ditos
veio logo o veredicto:

Desconsolo no olhar.

Tentou sorrir sincera
ergueu o rosto
uma caverna
fria, nem sinal de comoção.

Um tanto orgulhosa
pegou sua bolsa,
sua manta
e foi-se embora.

...

Passam os anos
e ainda não a vi,
não voltou mais
ao embalar da noite.

Decerto soube de cara
que àquelas palavras
estavam mesmo
destinadas à outra.

Ou nem sequer gostou,
saiu por onde entrou
e comprovou-se então:

Não importa o rosto,
o desconsolo,
o desgosto,
são todas tão sentimentais,

mas basta um afago
malfeito em seus egos
com um cochicho,
com um berro ou sem um piu,

viram-lhe as costas
e não voltam mais
as belas moças desejosas
de amor que nunca existiu.

20 de abr. de 2010

Como velhos palhaços

Sorrisos rasgados
sempre iguais
foto a foto
em diferentes locais
as mesmas poses
todas artificiais
a favor da ilustre intenção
de mostrar às plateias
das redes sociais
que se é feliz.

Felicidade existe, sim
não se pode negar
paira por aí, até calada
em qualquer lugar.
Felicidade completa há
da luta ao êxito, na gratidão
de quem se quer tão bem.
Felicidade absoluta
ininterrupta
é desespero.

Jogo dos fracos
que rodam o mundo inteiro
correndo da morte
não para conhecer o estranho
mas por continuar
com empenho
buscando registros
de uma mesma pose
num outro local
com um novo sorriso igual.

Insaciáveis somos
em nossas nobres missões -
não de viver apenas
contentes com a condição de ser
humano, fraco -
mas de mostrar aos outros
infelizes, incapazes
foto a foto
nossa cega ascensão
em meio à queda.

Não há chagas no peito
evidenciadas
pelo retrato.
Não há marcas do passado
no olhar destinado ao retrato.
Não há sinal de maus tratos
na pose impávida
altiva, imaculada
previamente escolhida
estampada no retrato.

Imagem é tudo, dizem
os sábios, esclarecidos.
Sou fraco, admito, portanto
acato quieto.
Como um velho palhaço
num circo a desabar
dedico tamanho esforço
para manter a aparência
intacta
enquanto o tempo passa.

Me deixa tranquilo
pensar que os outros
não viram um momento,
não ouviram relatos
de um dia ele
sempre tão alegre
ter sofrido na vida
a dor de uma perda
a agonia do fracasso
a desilusão de um desamor.

Como a roda que move
a dança incerta da vida
a imagem fere quieta
não é esquecida
nos traz lembranças
queridas, abriga detalhes.
Mas carece cuidado
lidar com o registro
deveria ser eterno
precioso quando preciso.

30 de mar. de 2010

Pós-moderna interação

Não passava das duas
da tarde
perfilados em pé
três sujeitos
dois homens e uma mulher
esperavam o ônibus
parar
para então
desembarcarem.

Nos respectivos ouvidos
traziam fones
perfilados em pé
dois homens e uma mulher
sorriam
não se viam
lado a lado
apenas ouviam
a mesma piada
motivo da graça
compartilhada.

Fim da linha
descem os três
reto seguiu a mulher
dos homens
um foi à esquerda
outro pegou a direita
e seguiram sorrindo sós
cada um o seu caminho.

Atrás saiu o outro passageiro
iria ele registrar em versos
que os três sujeitos
homens e mulher
dividiam os mesmos gostos
até faziam os mesmos gestos
preferiam ser reclusos
no coletivo não pareciam muito
entusiastas por bater um papo
e agindo assim evidenciaram um fato
ignoravam todos a beleza

de sorrir também pelo sorriso mútuo.

24 de mar. de 2010

Rotina

Acordo preso ao sonho que passou,
o mesmo sempre, o de encontrar amor;
às frases belas que tentei dizer
e, sem sucesso, me deixaram só.

Saio à rua, tento espairecer,
me pega então uma lufada fria.
A manhã jovem embala o passo lento
e os bem-te-vis compõem a melodia.

Tenho comigo como companhia
tantas palavras do grande poeta
que alguém um dia em sutil desacato
ousou chamá-lo apenas poetinha.

O dia brindo então com uma canção
que já tratou da dor de tantos outros
e agora surge por entre sorrisos
no balbuciar quase calado, rouco:

"O amor
é um carinho
é um espinho
que não se vê em cada flor"

Hora do almoço, sento pra comer.
A refeição já não me desce bem.
Quem sabe a causa do mal apetite
seja essa ideia de querer alguém.

Passa a tarde, observo quieto.
Tomo um litro de café amargo
e atrás do trago de cada cigarro
busco encontrar Aquela poesia.

É noite já, mas como passa rápido
quando desejos tornam-se rotina,
não vi o pôr-do-sol, não ouvi a campainha
nem li a bula do medicamento.

Julgam-me louco, deram-me remédios.
E demoraram a achar um diagnóstico,
mas disse ao médico: "Curo-me tão fácil,
preciso mesmo é de um pouco de ócio".

Saio à rua, já não quero nada,
sigo esperando com os fiéis amigos
as incertezas da mãe madrugada.

A noite brindo com o amor do dia
que como toda treva percorrida
pode sumir ao clarear do sol.

9 de mar. de 2010

O Salvador da Solidão

Domingo sempre era um dia complicado para Armando. Logo chegava a noite e a agonia crescia de forma inexplicável em seu peito. Buscava alívio na televisão, na música, nos livros, em pensamentos de renovação. Tudo insuficiente. Cometeria suicídio, pensava, se na segunda à tarde pudesse reviver. Não era assim um suicida em potencial.

Naquele último do mês de fevereiro não foi diferente. Fumava cigarro atrás de cigarro observando o céu, da sacada de seu apartamento. “Amanhã largo esse vício”, prometia a si mesmo, “esse é o último”. Até que acabara com um maço.

Engraçado como podia apenas uma convenção significar tanto para ele. Não era o fato do domingo em si, mas por suas marcas e consequências. Pelo pre e anteceder do que parecia ser a vida real. Um dia vazio; anormal. Armando sentia-se desolado nos domingos, perdido num universo imaterial. Sonhos pareciam longes; dívidas e cobranças mais próximas.

Engraçado. Sábado estava agarrado às pernas de uma bela mulher, cercado por amigos, bêbado, sorrindo, e tudo fazia sentido. O mundo era seu e não hesitava em compartilhá-lo com que também o quisesse. Cantava ao infinito suas taras e angústias. Não tinha pudor.

Não gostava também das segundas-feiras. Mas aí o incômodo só surgia pela manhã. Após o almoço já estava tranquilo. Podia, mais uma vez, dedicar-se a sua luta. Lutava por ser alguém. Lutava por reconhecimento, mas não tinha grandes talentos. Apenas buscava a verdade. Um homem de caráter; emocional, esse era Armando. Um pouco confuso, inquieto, pode ser, mas boa gente.

Quando já avaliara na estrutura de seu apartamento o melhor lugar para se enforcar, de brincadeira, como passatempo, soou um sinal em seu laptop. Era Luíza, uma morena de 22 anos que conhecera dias antes.

Mal lembrava da aparência de Luíza. Só não esquecia as graças de sua carne flácida e do absorvente tampando o caminho de suas mãos curiosas que percorriam curvas naquele canto escuro do bar. Ela era uma tarada. Passava a mão na bunda de Armando, metia-lhe a língua nos ouvidos, no pescoço, na barriga. Uma louca! Por hora até agarrou, antes de recuar entre gemidos, o pau em riste de Armando.

Sôfrega sentenciou:

-Vamos ter que deixar pra outra hora, Armando. Aqui não!

Recordava também desse comentário. E nada mais.
...

Luíza, pelo messenger, questionava os motivos de ele tê-la abandonado naquela noite. Sincero, respondeu que estava bêbado e os ocorridos não passavam de flashes em sua cabeça.

Luíza diz:
bem que eu vi que tu não tava muito bem
lembra que tu disse que me amava?

“Mais uma vez, Armando! Parabéns!”

Armando diz:
não leve a mal, desculpe, costumo falar de amor quando estou bêbado, não sei por que

Luíza diz:
hehehe
não tem problema, achei engraçado

Era só beber, ver uma mulher interessada, e Armando desatava a falar de amor. Não do amor como a maioria o compreende – profundo, difícil, até inalcançável - mas sobre suas suposições sobre tal sentimento. E Armando amava mesmo. À sua forma amava. Não tinha receio em se abrir a uma desconhecida. Amava os gestos, as palavras, o momento. Principalmente o momento. Embriagado então... Tudo era motivo para amar.

As mulheres só não compreendiam a indiferença que demonstrava em outras situações, quando o pegavam sóbrio. Era quieto, soturno, até descortês.

Luíza diz:
e aí?

Armando diz:
e aí o quê?
...
eu não te amo, Luíza, desculpa
não agora

“Eu devo ser retardado mental”

Luiza diz:
rsrsrsrs
seu bobo
e aí essa noite
o que vai fazer?
queria tanto te ver...

Minutos depois marcaram um encontro. Aquele papo, por mais que afugentasse, devia funcionar com algumas delas. Ou vai ver era a sua aparência, seu ar galante. Não podia identificar os motivos. Nunca compreendeu por que as mulheres se sentiam atraídas por ele. Mas isso não importava. Era um domingo sendo salvo.

Luíza estava na casa de uma amiga, Beatriz.

Luíza diz:
só tem uma condição...
aqui na casa da Bea é proibido bebidas alcoólicas

“Grande merda, não preciso disso”

No caminho até lá, Armando fantasiava como seriam as duas meninas. Imaginava-as seminuas a receber-lhe com cortejos de rei. O salvador da solidão. O enviado do amor. Acariciava-as já no carro, com a mente a divagar, nem prestava atenção ao trânsito.

Em dez minutos chegou. Tocou o interfone. As duas apareceram na sacada e fizeram sinal para que esperasse. Armando trazia consigo apenas o celular, a carteira, um maço intacto de cigarros e uma senhora ereção.
...

As duas desceram e o cumprimentaram cordialmente. Luíza com um leve beijo na boca. Subiram pelo elevador. Comentaram sobre o calor incomum que fazia naquela noite e o silêncio imperou. Chegaram. Sexto andar, 601. Beatriz abriu a porta e se sentou no sofá.

- Belo apartamento – disse Armando.
- Valeu – disse Beatriz.
- Mora sozinha aqui?
- Sim, faz uns dois anos já. Meu pai que me deu, ele vive em São Paulo.
- Maravilha. Deve aprontar algumas, não?
- É, mais ou menos – concordou num franzir envergonhado.

Beatriz era uma graça. Novinha, não devia ter mais de vinte. Seios fartos, expostos por um decote generoso de uma blusinha branca. Usava jeans e chinelos. Luíza, para agrado de Armando, também era muito bonita. Tinha os braços tatuados e um corpo robusto, mas não era gorda. Se não se cuidasse seria, porém não tão cedo. Era jovem e tinha muito a dar ainda.

Nem passado um minuto na sala, as duas sumiram por uma porta ao lado sem falar nada. Deixaram apenas como rastro olhares convidativos. Armando seguiu. Parou a pensar. Um minuto de hesitação. Estalou os dedos. “É agora!”. Seguiu-as. Já desatava o cinto quando as surpreendeu em frente ao computador. Uma sentada ao lado da outra, se revezavam a teclar com uma, duas, mil pessoas. Luíza olhou para um Armando atônito, e perguntou:

- O que tu tá fazendo?

Sem jeito, ele respondeu:

- Ah, apenas ajustando o cinto. Está muito apertado.

Luíza sorriu e voltou o rosto à tela. Beatriz, de um pulo, levantou.

- Tu, por acaso, tem um baseado?
- Não, não tenho – respondeu Armando tateando os bolsos.
- Sabe com quem pegar?
- Essa hora? Domingo? Nem que eu quisesse.

Beatriz bufou desanimada e voltou ao computador. As duas realmente se divertiam com aquilo. Trocavam mensagens e deliciavam-se com respostas vindas de imediato. Armando, parado, em pé, só observava. Às vezes tentavam o introduzir na conversa.

- Esse é um amigo nosso italiano – disse Luíza apontando uma foto no monitor, que mostrava um rapaz loiro de óculos escuros, mostrando a língua. - Conhecemos ele no Rio, semana passada.
- Ele é uma figura – disse Beatriz emocionada. Chegou a levantar centímetros do assento pela força da entonação dada ao suposto elogio.
- Imagino – concordou Armando, tentando descontrair sua afirmação. - Dizem que esses italianos são umas peças.

À beira da desilusão, Armando retirou-se para a sacada. Acendeu um cigarro. Deu uma longa tragada e começou a maquinar um plano para comê-las. Não importava se eram imbecis, de sexo deviam gostar. Sem nem concluir essa consideração, apareceu Luíza. Deu-lhe um beijo e o abraçou. Ele entrou no jogo:

- Desculpa por não lembrar muito bem daquele dia, mas sabe, acontece... – falou.
- Não te preocupa, eu sei como é.

Armando abriu os braços em cruz e disse com um sorriso de canto de boca:

- Hoje estou sóbrio, aqui, à tua disposição.

Luíza o beijou. Tinha lábios macios e um leve gosto de sabão na boca. Estavam sozinhos. Armando baixou a mão e acariciou a bunda de Luíza. Ela tirou. Tentou o peito. Também foi repelido.

- O que é isso? – perguntou a Luíza.
- O quê? – fazendo-se de tonta.
- Outro dia, em meio a multidão, te atiraste em mim como cão em costela gorda e agora vem cheia de trejeitos.
- Quer dizer que tu veio aqui só pra me comer?
- Esperava uma boa conversa também, mas como vi que isso será impossível, sim. O sexo basta.
- Quê?
- Tô brincando, Lu.Vem aqui.

Ela foi. Deu-lhe mais um beijo leve. Afastou-o carinhosamente e perguntou:

- Tu acha que eu sou puta?
- Só puta gosta de sexo?
“LUUUUUUU”, chamou Bea do quarto.
- Só tu mesmo, Armando. Já volto.

- Homens - ainda suspirou ao sair.
...

Voltaram as duas, minutos depois. “É agora”, pensou Armando. Beatriz se aproximou de Armando. Fez sua cara mais sedutora, olhou-o nos olhos e perguntou:

- Não quer ir até o posto comprar cigarro pra nós?
- Eu tenho cigarro, pega aí – disse, oferecendo o maço a Bea.

Então Luíza:

- É que a gente não gosta de Marlboro, a gente só fuma Black.
- Sabe, - respondeu Armando - o carro está com pouca gasolina e eu teria que atravessar a cidade para comprar. Não rola.

Instantes de silêncio. Beatriz se sentou no chão e mais uma vez bufou. Luíza observava Armando fumar com prazer.

- Domingo é mesmo um saco – disse Beatriz.
- Não tem dia pior – concordou a amiga.

Logo desataram a falar das desventuras da viagem para o Rio. De quanta gente interessante, vinda de todos os cantos do mundo, conheceram. Beatriz já havia morado numa porção de lugares: São Francisco, Nova Iorque, Londres... Deliciavam-se também (e dedicaram bom tempo a isso) com as gafes dos outros.

- Não leva a mal, nós somos assim, logo que tu sair nós vamos falar mal de ti também – disse Beatriz a Armando. Luíza apenas sorriu um riso desvairado e concordou acenando com a cabeça.
- Eu realmente não me importo – admitiu Armando.

Falaram também o quanto gostavam de animais. Fizeram planos para toda a semana. Balada quinta, sexta, sábado. “E no domingo se os guris forem tocar, né?”. Tudo já estava esquematizado.

- Ele é sempre quieto assim? – perguntou Beatriz.

Luíza encarou Armando, que disse:

- Só quando o assunto não me interessa.
- E o que te interessa? – perguntou Luíza.
- Sabes o que me interessa – ele respondeu, enlaçando-a pela cintura.

Luíza desconversou, disse a Beatriz que Armando era um ótimo pintor.

- Pinta principalmente mulheres. É meio obsceno, mas ele tem talento.
- Legal – disse Beatriz desinteressada. – Gosto muito do Romero Britto.

Era a chance de Armando incitá-las.

- Prefiro formas mais sensuais. Vocês dariam belas modelos, por sinal – insinuou.

As garotas se olharam e soltaram risadinhas.

- Tá... – disse Beatriz evasiva, revirando os olhos.

Estranho o silêncio dessa hora. Constrangedor.

- Quem era aquele cara ontem? – continuou Luíza, como quem desperta de um susto. - Aquele que tu acertou com a bolsa? Hahaha! Só tu mesmo, Bea.
- Aiii – suspirou Beatriz. - Aquele era o Mau, não era um gatinho?

E descambaram mais uma vez por essa via.

Passou meia hora até que Armando, já sem paciência, explodiu. Primeiro deu um grito, depois chutou um vaso de orquídeas. Exaltado, sacou o pau mole para fora e pôs-se a balançá-lo com a mão direita. Veemente pela força de seus gestos bradou em fúria:

- Vão se FO-DER! Fiquem aí com seus amigos italianos, ingleses, chineses e o caralho; tartarugas, hamsters e coalas. PU-TA QUE PA-RIU! Mulher que não gosta de pica pra mim não vale nada.

Silêncio e espanto.

- Não querem se chupar aí pra eu ver. É disso que vocês gostam. Não? Eu também gosto. Vamos lá!

Olhos atentos, encarando uma por vez, esfregou as mãos em aguardo.

- Não?

Silêncio.

- Então eu vou pra casa que ganho mais.

Desceu rápido pelas escadas. Indignado refletia: “E eu achando que não podia ficar pior”.
Abriu o carro debaixo das injúrias das duas, enfezadas na sacada.

- Nojento!
- Pervertido!
- Escroto!

Deu a partida. Engatou a primeira, segunda, terceira e gargalhou até chorar. Não acreditava que tivesse saído de sua boca aquelas palavras. Mas sua busca era a verdade. Estava aprendendo. A fúria passara. Restava só a graça da situação. Ligou o rádio e junto cantarolou.

No caminho de volta tirou mais algumas conclusões sobre o amor. Pensou que o amor vago em que acreditava, o de momento, quase sem ressalvas, pode enganar por um lindo olhar, um belo sorriso ou par de peitos.

Àquela hora se lhe pedissem um conselho diria que quem quisesse amar sem se machucar procurasse bem, sem cessar, seu desejo mais profundo no fundo de uma garrafa de bebida forte.
Chegou em casa, soltou as chaves na mesa, e mandou uma dose dupla de uísque sem gelo. Contente, lembrou do ocorrido recente. Agora só, podia sorrir. Deu uma bela cagada que lhe ardeu o cu. Deitou. Sob as cobertas se masturbou pensando nas duas garotas do sexto andar a lhe cortejar.

Dormiu satisfeito.

10 de fev. de 2010

Redenção Interrompida

Era dia santo, dia de Santo Antônio. Para Norberto, 45 anos, divorciado, era mais um dia triste de sua existência. Nada mais. Andava pelas ruas a caminho de casa. Mais uma noite havia passado longe do seu lar por conta das tentações da boemia há pouco adquirida. A satisfação obtida horas atrás já estava perdida. Cada passo que o aproximava de seu rumo doía-lhe os ossos, a carne, a alma que acreditava ter. Tornara-se um peso para si próprio.

Não passava das dez da manhã quando acordou ao lado de uma desconhecida. Sem despedir-se, vestiu as calças e saiu devagar. Torcia por não deixar nenhum vestígio. Seu passo era lento, difícil, agravado pelas dores abdominais que há meses, recorrentemente, o acometiam. De um dia pro outro, quando tudo parecia bem, surgiram essas dores. Atingiram-lhe como lanças em chamas ao perfurar um grande animal. Era grande, Norberto, um metro e noventa pra mais. Era também um animal, Norberto, como todos nós, apenas tentava disfarçar seu instinto, como todos nós. Ou quase todos.

Na época em que as dores surgiram ainda estava casado com Irene. Acreditava no amor mútuo que juras e mais juras tornaram reais. A relação dos dois era o balanço perfeito entre carinho e pudor. Beijinhos e carícias leves em público, sempre. Sexo bom, usual, sem sacanagem. Apenas “amor”. Nunca se ofendiam, jamais levantavam a voz um para o outro e a privacidade ao banheiro sempre foi respeitada. Ele até urinava na frente da mulher, não se importava. Mas ela não. Mantia-se recatada, uma lady.

Foi ela quem recomendou a consulta ao então marido.

- Irene, sabes que não gosto de médicos – argumentou Norberto contrariado.

Irene pôs a mão em seu ombro e disse de forma sutil:

- Mas amor, a clínica do dr. Gustavo é reconhecidíssima. A Mara, sabe a Mara? Pois é, a Mara disse que ele nem precisou de exames pra identificar do que ela sofria. Uma doença horrível. Logo sarou.

- Que doença?

- Não sei bem, mas parece que peidava o dia inteiro. Credo!

O diagnóstico foi tão preciso quanto vexatório quando constataram que seu problema era, como o de Mara, de ordem digestória: flatulência. Receitaram, então, comprimidos que aliviariam sua angústia e lhe garantiriam o sossego e o bem estar.

- Não gosto de tomar remédios, doutor – disse ao médico durante a derradeira consulta – na verdade, não os suporto.

- Pois então aprenda a viver com essas dores, que bem sei, por relatos, é claro, ser insuportável – falou o médico.

- Por quanto tempo terei que tomá-los?

- Sempre que necessário - respondeu dr. Gustavo com um sorriso frio, cobrindo Norberto de vergonha.

Saiu do consultório arrasado. Como iria contar isso a sua esposa? Ela ficaria enojada. Largaria dele. Recatada como era nem discutiria o assunto, inventaria motivos outros para justificar sua decisão.

E assim foi. Irene mostrou-se compreensiva no início.

- O que é isso, Norberto? Claro que não me incomodo. Como você poderia prever isto?

- Ora, mas a Mara...

- Deixa disso Norberto – retrucou Irene – tome seus remédios e tudo logo se resolverá.

- Remédios, remédios... Como viviam os ancestrais sem remédios? – murmurou.

- Quê? – questionou Irene irritada pela postura de Norberto e pela notícia. Era notória sua exaltação. Mostrou-se solidária por educação, mas sabia que não suportaria a situação por muito tempo.

- Nada, Irene. Nada.

Dois meses depois, ela o largou. Pela primeira vez desde que estavam juntos invadiu o banheiro. A um Norberto desolado, sentado no vaso com as mãos segurando o queixo, disse:

- Que fedor! Não suporto mais dormir ao teu lado, Norberto. É impossível. Impossível! – declarou. Bateu a porta e repetiu indignada:

- Que fedor, meu Deus do céu!

Não quis nem divisão de bens, brigar pela casa, essas coisas. O carro era dela. Ele que se virasse. Juntou as roupas em uma mala grande, socou pilhas de sapatos dentro de um baú e sumiu.

Norberto ficou na merda. Após a separação, entregou-se a bebida. Acostumara-se àquela vida de restrições. Irene o educara, tornara-o um homem direito, supunha. Seis anos passaram juntos. Seis anos. “Por que isso foi acontecer comigo?”, perguntava-se em meio a intermitentes goles.

O remédio dava conta das dores, mas, mesmo ao lado de Irene, estipulara uma dose: um comprimido por dia, assim que o primeiro desconforto se manifestasse. O efeito não durava muito, apenas algumas horas. A compostura, adquirida no casamento, disfarçava sua angústia no resto do tempo. Passava os dias combatendo quieto seu sofrimento. Se estava em local público, no trabalho ou qualquer ambiente que não sua casa, recolhia-se a um banheiro quando não suportava. Aí peidava. Tentava fazer com que saísse silencioso para que outros não ouvissem os lamentos de seu fardo recente. Suava, respirava fundo, até liberar todos os gases.

Solteiro também vivia assim. Era só cair na noite, beber umas a mais, comer demais, que a dor voltava. E o atormentava. Havia dias em que tudo parecia como antes. Era estranho pensar, há menos de seis meses tudo parecia bem. Pressão, normal. Triglicerídeos, glicose, colesterol, tudo bem dosado em seu organismo. Nem hemorróidas tinha. E olha que conhecia uma porção de gente que sofria com isso. Ele não. Comia e bebia como um rei. O exagero à mesa não o incomodava, pelo contrário, satisfazia. Sozinho, passou a desprezar ainda mais os conselhos médicos. Seu mal já o privara da mulher mais pura que encontrara. Dos prazeres da boa culinária e do alento de um bom trago ninguém o iria proibir.

Pensava com raiva em Irene naquela manhã do dia de Santo Antônio. Àquela altura atravessava uma ruela estreita, apinhada pelos freqüentadores dos tantos restaurantes instalados por lá. Desiludido, cansado dos olhares de reprovação dos que cruzavam com ele pela rua, resolveu se libertar. Estava sujo. Há dias não tomava banho. Com a barba cobrindo o rosto, um hálito de morte e o passo pesado, peidou pela primeira vez em público desde que descobrira seu problema.

Foi um alívio. O primeiro flato foi ruidoso, demorado, saciou seus desejos reprimidos. Saiu quente e infestou os arredores com o cheiro de cárcere que lhe cabia. Norberto não mais sentia vergonha. Os olhares de desgosto aumentaram. Alguns riam, mas a maioria afastava-se como podia do homem insensato que ousou esculhambar em ambiente tão familiar.

Foi a sucessão de atos que tornou a cena comovente. Norberto sujo, com roupas velhas, barba já longa, cabelos escassos e desgrenhados, peidava e sorria. Peidava e pouco se lixava para a opinião do povo limpo que o cercava. Peidava e aos poucos adquiria outra postura. A dor que lhe curvara as costas fora embora. Podia de novo andar altivo. Decidiu ir para casa tomar um banho. “Fodam-se os outros”, pensou. “Posso ser um novo homem”. O intervalo entre um peido e outro era curto. Cinco passos, pouco mais, e vinha um novo.

- Velho nojento – soou uma voz estridente às costas de Norberto.

Virou-se incomodado e deparou-se com um grupo de meninas, todas muito asseadas, bem penteadas, metidas em roupas de grife; impecáveis. Três bonecas pareciam, duas loiras e uma morena. Não deviam ter mais do que 18 anos.

Como um cachorro, Norberto rosnou para elas.

O grupinho explodiu em risos. Empolgada, outra das jovens exclamou:

- Velho asqueroso!

Norberto mandou-as às favas e seguiu seu rumo. Era um novo homem. Só precisava de um banho.

Quadras distantes do local das ofensas, aproximava-se de seu lar. Um lugar calmo, afastado dos ruídos do trânsito e do burburinho da cidade.

“Velho nojento, velho asqueroso, velho nojento, asqueroso”, as palavras martelavam sua mente.
Abriu a porta de casa e sussurrou entre os dentes:

- Quem aquelas putinhas pensam que são... Velho nojento...

Jogou as chaves no aparador ao lado da porta e deixou-se cair na poltrona que herdara de seu avô. Ali permaneceu por horas, divagando nos acontecimentos daquela manhã. Pensou mais uma vez em Irene. Tentou lembrar como fora parar na casa daquela desconhecida, onde acordou. Mas as faces de escárnio das jovens meninas sempre se sobrepunham aos demais pensamentos. Esqueceu do banho, dos planos de redenção, e adormeceu.

Dormiu sentado 24 horas ininterruptas. Quando acordou as dores haviam sumido. Foi ao banheiro. Tentou ir aos pés. Abriu o jornal na página policial e permaneceu sentado no vaso por cerca de cinco minutos. Nem um peido. Estranho. Olhou o frasco de compridos cheio em cima da pia. Estava curado, só podia, estava curado. Não sorriu nem se perdeu em êxtase pela constatação prematura. Sentia-se mal.

Levantou-se, levantou as calças até o umbigo. Mesmo sem dejetos puxou a descarga. Olhou-se no espelho, analisou as marcas em seu rosto e começou a chorar. Nunca antes havia reparado nas pequenas rugas ao lado dos olhos que a imagem refletida lhe mostrava. Nem na leve papada debaixo do queixo. O cabelo ralo, já grisalho, tudo isso agora o incomodava.

Entre lágrimas fez a barba, tomou banho. Vestiu-se e voltou à poltrona, decidido. Abriu a lista telefônica. Nas páginas amarelas procurou ajuda. Logo achou o que queria. Discou. Enquanto não atendiam, apressou-se em pegar lápis e papel para anotar os preços que viriam.

Uma voz gentil e delicada anunciou:

- Clínica estética dr. Jairo Kentler, em que posso ajudar?

8 de fev. de 2010

Unhas de porcelana

Cravadas nos dedos,
cobrindo feridas,
não escondem as chagas
da tua aflição.

As carnes corroídas sangram
por tantos problemas
marcados no peito
por causas pequenas.

Pela manhã confias
em tramas maiores;
à noite te deitas
sujeita a menores.

Falando do bem que quer
perdeste tua pouca graça;
te vejo esquecida, escorraçada,
de boca num banco de praça.

Do nada que restava
agora tudo se foi -
até o riso é frouxo,
aflito, rasgado.

Do mantra o lamento
calado, constante,
ressoa a agonia
por fiel namorado.

Pobre menina!
São os homens
a causa maior
de todo o teu mal.

Esperas demais
mas pouco ofereces
te perdes em preces
e esqueces o essencial.

Sua sina é ser puta
chamada piranha,
por mais que confundas
gozar com amor.

Unhas como essas, compreenda,
não escondem a loucura.

Sacie-se na dor dos outros, quem sabe,
ganharias mais.

Não escute meus conselhos, esteja certa,
são mudos e cegam-te o ser.

Chore mais uma vez,
minha querida,
àqueles que nego
reservo refúgio.

Não clame, não reze,
apenas aguarde,
por mais que ele tarde
o infinito o trará.

Chore mais uma vez,
minha querida,
por mais que ele tarde
um novo dia ainda virá.

22 de jan. de 2010

Compreensão

Lembro-me dos elogios,
alguns fracos, batidos,
todos de boa intenção;
claros na luz escura
exata à ilusão.

Toquei em sua pele,
palavras não leu,
dizia-se tímida, descrente,
talvez indisposta,
avessa à paixão.

- Não a culpo, sabes?

- Por quê?
- POR QUÊ?

Como digo: nada espero,
basta acontecer.
Vez ou outra anseio,
não escondo, sempre repito:
“A doce verdade
é simples viver”.

Nem tão sério,
um pouco triste,
faminto de sonhos,
caído de bruços
de olhos atentos,
exposto sempre.

- Venha aqui ouvir! Não me ignores!

Traga-me a vida,
dispenses a morte,
faça-me crer.
Venha e vá
mas não deixe
sozinhas, reclusas...

As dores do amor
de agora,
As luzes de outro
capaz outrora.
Talvez seja o tal, não é?
O último alento ao temor.

Vive-se só,
diz o contrário proposto.

Morre-se junto,
mostra o desejo oposto.

- Está bem.

Esqueça as graças, está bem?
Sim, foram todas sinceras,
mas cala-te agora,
não diga que não
só beije meu rosto,
deixe-me o coração.

9 de jan. de 2010

Notas de um fim de tarde

A vida ainda há de me tirar esses prazeres.

Enquanto jovem, consigo largar tudo com uma mochila nas costas, carregada apenas com livros - alguns poucos – uma ou duas cuecas e um par de meias. Quando tenho tempo, e ele está aí, à disposição, tenho também ânsia de chegar a qualquer destino.

Quando velho, precisarei de uma bolsa de remédios entre meus trapos. Agasalhos para que o sereno não constipe e até mesmo um travesseiro para o cansaço das costas. A velhice parece longe com o sol a iluminar o copo, às duas da tarde de um dia quente. A cerveja, hoje companheira do aguardo, dará lugar ao chá, ou àquele tônico azulado que vi um senhor de aspecto surrado sugar. Se eu seguir nesse ritmo, talvez até a um coquetel dito necessário à minha sobrevivência.

Imagine só, do alto do orgulho do homem em sua plena forma ao fundo escuro do fim do viver.

Viver de satisfações passageiras é uma escolha feita consciente das inverdades da vida. É um voto. Uma crença. Cega, mas ainda fixa. Sendo feliz, mesmo em meus lamentos, não vejo outra forma. Morrerei de porre ouvindo o cantar do último bar. O tempo, e sua inadiável conseqüência, não irá no âmago transformar um ser apaixonado como eu.

Viveria só por este momento. Só por saber da existência do dia de amanhã. Da apreensão pelo que virá. Dos tantos rostos, tristes e realizados, com os quais ainda cruzarei.

Entre planos e ambições difusas, mais um fim de tarde espero, sentado no mesmo banco de tantas outras vezes, o trem que parte rumo à liberdade.

Já passava das sete quando resolvi sair do bar da estação. Pedi a última.

Ao me redor todos os tipos de loucos mantinham a mesma esperança: escutar ao longe o silvo surdo que nunca vinha. Outros apenas sorriam. Desvairados. Ao fim daquela “última”, baixei mais uma e esclareci ao sair de vez:

“Não é hoje que a gente parte”.

7 de nov. de 2009

Das vontades

Eu quero sim
viver por muitos anos,
me condenar por não ter feito planos,
olhar pra trás e ver que mesmo por engano
tenha tomado sábias decisões.

Eu quero sim
encarar o amor verdadeiro,
buscar detrás do manto da mentira
toda pureza a mim tão prometida.

Eu quero sim é ser sincero
falar ao mundo aquilo que espero
de mim, dos outros,
de quem diz me entender.

Eu quero sim também ser triste
pois total felicidade só existe
na mente pobre que ignora o ser.
Não há contento, alívio, apenas em crer.

Eu quero mesmo é não querer mais nada
e que essa longa e quente madrugada
abafe as vozes de tanto querer.